| Douglas Reis |
| De acordo com a autarquia, paralisação teve adesão de aproximadamente 60 servidores |
O déficit de R$ 7 milhões no caixa do Departamento de Água e Esgoto (DAE), revelado com exclusividade pela edição de ontem do Jornal da Cidade, já gerou consequências. A autarquia não pagou as horas extras e a remuneração por sobreaviso junto com os salários recebidos ontem pelos servidores. Por conta disso, cerca de 100 trabalhadores “cruzaram os braços” no período da manhã, mas retornaram às atividades à tarde, com o compromisso de que o dinheiro faltante cairá em suas contas até o fim da tarde desta terça-feira.
A negociação se deu junto ao Sindicato dos Servidores Públicos Municipais (Sinserm). Diretor da entidade, Valdecir Rosa pontuou que se o acordo não for cumprido, os funcionários entrarão em greve a partir de amanhã.
“O departamento já cortou alguns direitos dos servidores, mas nas ocasiões anteriores a categoria foi avisada com o mínimo de antecedência. Dessa vez, todos foram surpreendidos ao receberem o contra-cheque. É um desrespeito”, criticou.
Foram 367 os servidores afetados – cerca de metade do total, a grande maioria do setor operacional – pelo não pagamento das horas extras e do sobreaviso. O valor total do qual o DAE não dispunha foi de R$ 199.097,04, equivalente a 7% do gasto mensal com pessoal e encargos previdenciários do órgão, que ficou em R$ 3,1 milhões em agosto.
Presidente da autarquia, Giasone Candia justifica que a diferença entrou nos caixas do departamento ontem, dia do último vencimento das contas do mês de agosto. “Já mandamos o dinheiro para a Caixa Econômica Federal, que se comprometeu em lançar nas contas dos funcionários até amanhã [hoje]”.
Ele explica que os trabalhadores não foram comunicados com antecedência sobre o problema porque sua equipe de diretores tentou, até o último instante, garantir que os vencimentos fossem pagos integralmente nesta segunda-feira. “Eu sabia da dificuldade, mas estava fora na semana passada”.
Candia pontua ainda que, apesar do hábito da autarquia em pagar os salários no último dia do mês, a lei municipal 5.621, de 30 de junho de 20105, autoriza o acerto da folha até o primeiro dia do mês subsequente. No caso, hoje.
SEM GARANTIAS
O presidente do DAE diz que, diante do cenário político e econômico nacional e das dificuldades enfrentadas pelo órgão municipal, não há como garantir que novos atrasos não venham a ocorrer até o fim ano.
“A gente vai trabalhar parra que isso não ocorra. Todo o esforço será feito, mas eu não posso dar uma tranquilidade [aos servidores] absoluta sem ter a segurança necessária para isso. Eu acho que, sem grandes investimentos, vamos tocar”, avalia Giasone.
Ele explica que o departamento reivindicou aumento de 57% na tarifa, mas o prefeito só autorizou 35%. Além disso, o aumento deveria ter vigorado a partir de julho. “Só que, por conta das negociações políticas, passou a valer só neste mês. Eu avisei que corríamos risco”.
O problema é que, apesar da majoração das contas, a receita do DAE caiu 1,62% e o consumo de água em Bauru, 14,78%. “A população atendeu aos nossos pedidos para que economizasse, mas estamos sofrendo os efeitos colaterais disso”.
CUSTEIO
Sem efeitos do aumento na tarifa, a autarquia corre o risco de não fechar as contas. Isso porque, enquanto a receita do órgão cresceu apenas 3,1%, as despesas subiram 73,28%.
“O governo federal foi responsável por 90% do aumento das nossas despesas. Não foi só a energia elétrica. Sofremos o impacto do combustível, da alta das peças pra manutenção da frota e do dólar porque alguns insumos para o tratamento de água são importados”, diz Giasone.
Por falta de dinheiro e dificuldades em processos licitatórios, o presidente admite a falta de cimento e peças utilizadas em serviços prestados pelo DAE.
MEDIDAS
Na tentativa de frear os impactos da macroeconomia, Giasone Candia reforça o compromisso de endurecer a cobrança a todos os devedores, inclusive com o objetivo de negativá-los.
Perdas
Um encanador do DAE, que prefere ter a identidade preservada, conta que, em dois meses, seu salário caiu de cerca de R$ 3.300,00 para R$ 800,00. Ele explica que, até pouco tempo atrás, os servidores tinham autorização para cumprir até 60 horas extras ao mês. Agora o teto é de 30, o que já havia derrubado seus vencimentos para cerca de R$ 2.000,00.
“Nesse mês, sem receber sequer as horas a mais trabalhadas, perdi mais R$ 1.200,00. Já estou pensando em sair desse trabalho. E quem sai prejudicado não é só a gente. A população também perde porque não há mais equipes para atender os problemas nos domingos, nos feriados. Estão segurando tudo”, relata. O encanador diz ainda que faltam peças, cimento e até terra para a execução dos serviços de manutenção. “A gente tem que fazer gambiarra, improvisando materiais. Por isso que precisamos refazer muita coisa”.
Segundo o funcionário, a alimentação fornecida pela autarquia não conta mais com frutas, saladas e suco.
Vereadores criticam gestão no DAE e Rodrigo descarta exonerar Giasone
Na sessão ordinária de ontem, parlamentares repercutiram os recentes problemas envolvendo o DAE, entre eles a paralisação ocorrida pela manhã. Telma Gobbi (PMDB), Sandro Bussola (PT), Fabiano Mariano (PDT), Artemio Caetano Filho (PMDB), Arildo de Lima Jr. (PSDB) e Roque Ferreira (PT) falaram sobre o assunto.
“Falta ao presidente do DAE ser mais direto nas explicações. Os servidores esperam esse pagamento naquela data”, completou Telma. Para Sandro Bussola, a situação do DAE e das finanças da prefeitura em geral chegaram ao ‘limite’.
Todos pediram ao prefeito Rodrigo Agostinho mais rigor na condução da gestão administrativa e financeira da autarquia. O chefe do Executivo, que esteve na Câmara, rechaçou qualquer possibilidade de trocar o comando, por entender que isso não resolveria a questão. Carlão do Gás (PR) evou para a tribuna reclamação sobre a ausência de rede coletora de esgoto em algumas quadras em ruas do Jardim Flórida.
Protesto contra direção tem pedido de renúncia e até abaixo-assinado
Corre entre servidores do DAE um abaixo-assinado pedindo a saída do presidente Giasone Candia e seus respectivos diretores. Ao chegar na sede da autarquia e conversar com alguns trabalhadores, na manhã de ontem, o gestor nomeado pelo prefeito Rodrigo Agostinho (PMDB) chegou a ouvir gritos de “Fora!” Diretor do Sindicato dos Servidores Municipais, Valdecir Rosa afirmou que, caso os trabalhadores voltem a cruzar os braços amanhã, só retomarão as atividades caso o chefe do Executivo exonere o atual comando do departamento.
Sobre a reivindicação de parte de seus subordinados, Giasone Candia diz que seu cargo está e sempre esteve à disposição de Agostinho, pois foi ao DAE para colaborar num momento que a autarquia não tinha quem ocupasse o posto. “Já até ofereci entregá-lo por três ocasiões, mas o prefeito não quis e pediu meu compromisso de ficar. Estou até quando for da vontade dele”, afirmou.