| João Rosan |
| Em situação provavelmente inédita na história do clube, Marcelo Santos assumirá funções de técnico e jogador ao mesmo tempo |
A principal novidade do Noroeste hoje, dia de seu 105º aniversário, é o início do trabalho do meia Marcelo Santos como treinador da equipe. O jogador, que se recupera de lesão na coxa esquerda, foi alçado ao cargo de técnico anteontem, após a demissão de João Martins, que comandava a equipe desde o início da Série B do Campeonato Paulista.
Marcelo Santos, que também segue como jogador, em situação provavelmente inédita na história do clube, vai acumular as duas funções e terá cinco dias para preparar o Norusca para o duelo contra a líder Internacional, em Bebedouro, no domingo, que já ganha ares de jogo decisivo. O Norusca é penúltimo colocado no grupo 4, com um ponto. A Inter está na ponta, com quatro.
Marcelo Santos recebeu o convite da diretoria ainda anteontem, mesmo dia que a cúpula do Noroeste oficializou a demissão de João Martins. O novo treinador afirma que a análise da diretoria para alçá-lo à condição de técnico foi de que não seria viável trazer um outro treinador no momento. “Eles pensaram em mim justamente por já conhecer o pessoal, já exercer uma liderança e o elenco poder se adequar rapidamente, além da identificação e paixão que tenho pelo Noroeste. Argumentaram que temos um grupo que não tem como mudar muita coisa”, declara Marcelo Santos, que se apresenta oficialmente como treinador ao elenco hoje pela manhã.
O novo técnico estreia na função já em momento importante da temporada para o Norusca. O jogo em Bebedouro é fundamental para as pretensões de acesso alvirrubras. Uma derrota deixaria a equipe extremamente pressionada. “Eu, particularmente, imagino que temos que pontuar neste jogo, senão a distância vai ficar muito grande. O adversário é o líder. Vamos armar uma situação para que a gente vá em busca de fazer pontos, um empate ou uma vitória”, observa Marcelo Santos.
Ao mesmo tempo que afirma que o time está ciente da necessidade e pressão por resultado, já que restam apenas oito jogos para definir os dois promovidos da chave, Marcelo Santos destaca que confia na resposta positiva do Noroeste. “Acredito 100% que podemos reverter a situação. Poderíamos ter começado melhor e também não temos todo este tempo para correr atrás, mas acredito que é possível. Não tem nada ainda de desesperador. Temos que resgatar confiança dos jogadores e toda a credibilidade que a direção do clube tem dado”, aponta.
A aposta é na continuidade do trabalho que vinha sendo feito. “Nada muda, não vamos começar um trabalho do zero. Vamos dar continuidade a um trabalho que estava sendo vitorioso até duas semanas atrás e só precisamos resgatar a confiança do time para que domingo a gente consiga fazer esta pontuação necessária para continuarmos na briga”, planeja. “O respeito vai ser tudo para seguirmos trilhando o caminho que fizemos na primeira fase”, define.
Autorreforço
Marcelo Santos já adaptou sua agenda de tratamento da lesão na coxa esquerda à sua nova incumbência de treinador. O tratamento segue fundamental, porque o técnico Marcelo Santos quer poder contar logo com seu experiente armador Marcelo Santos. “Jogar é minha prioridade. Como treinador, entendo que minha ausência como jogador é prejudicial ao time, por causa da minha experiência, liderança e por não termos outros jogadores com a minha característica de passe. Preciso focar na recuperação”, avalia.
O treinador/atleta prevê enfrentar as maiores dificuldades para comandar a equipe quando voltar a treinar com bola. “Vou ver para alguém me auxiliar nesta função. Vamos ver, tem o Rodolfo Romano (preparador de goleiros), que recentemente parou de jogar, ou o Guilherme (de Paula, preparador físico). Vamos deixar esta situação bem alinhada para não ter problema”.
Antecipou
Marcelo Santos já planejava seguir carreira de treinador quando parasse de atuar como jogador profissional. A repentina necessidade do Noroeste apressou a realização. A obrigação de jogar e tomar decisões técnicas e táticas, como substituições, não assusta o novo treinador. “Eu venho me preparando para ser técnico. Claro que não estava esperando de imediato. Mas por tudo o que eu já vivi no futebol eu tenho uma facilidade para esta situação. Como jogador, com a liderança que eu exerço, conseguia conduzir alguma coisa dentro de campo, de mudança de posição, ajustes dentro do jogo, com a autorização do João (Martins), é claro”, comenta. “Acho que esta não vai ser uma da maiores dificuldades”, projeta.
Parceira garantida
Em entrevista ao JC, o presidente da Ferroviária, Carlos Alberto Salmazo, afirma que a saída do técnico João Martins do comando do Noroeste não altera o acordo de parceria entre os clubes. “Nossos atletas estão aí, não muda nada. A demissão é uma prerrogativa do presidente e diretoria do Noroeste e temos que acatar. Começou a segunda fase, dois jogos, um ponto e a avaliação cabe à diretoria do Noroeste. A minha questão é a parceria de cessão da comissão técnica e jogadores”, define.
Salmazo enaltece a parceria entre os dois clubes e afirma que a ação fortalece o futebol do Interior. “A intenção nossa é valorizar o futebol do Interior. Houve a possibilidade da parceria e abracei com muita disposição. A Ferroviária conseguiu chegar (acesso à primeira divisão) e o Noroeste precisa chegar também. Tenho uma visão macro, temos que valorizar o futebol do Interior e as equipes tradicionais, de cidades tradicionais”, declara.
Celeiro de técnicos
Vários jogadores do Noroeste iniciaram a carreira de técnico no próprio clube, como Varlei de Carvalho, Marco Antônio Machado, Valter Ferreira, Baroninho, Vitor Hugo e Zé Rubens, entre outros, e foram bem sucedidos. Varlei montou a equipe campeã da Segundona (hoje Série A2) de 1984, que voltou à Primeira Divisão. E foi o comandante na volta à elite em 1986, além de salvar o Norusca do rebaixamento em 1980. Marco Antônio, com um time modesto na Série A2 de 1997, quase colocou o Alvirrubro na Primeirona, e em 1992, ficou a um passo da conquista do acesso à elite nacional. Na Série A3 de 2004, sob o comando de Vitor Hugo, o Noroeste conquistou mais um acesso.
O que mais se aproximou da situação de Marcelo Santos foi Varlei de Carvalho. Na véspera da largada do Paulistão de 1979, o técnico Alfredo Sampaio, que tinha viajado, não retornou a Bauru, e a bucha de dirigir o time contra o rival Marília sobrou para o baixinho, que havia encerrado a carreira recentemente e era o auxiliar de Alfredinho. O Noroeste ganhou o dérbi regional na casa do arquirrival e Varlei iniciou nova e vitoriosa carreira. (com LEONARDO DE BRITO)