08 de julho de 2026
Articulistas

O céu de Aylan e de Miguel

Vitor Oshiro
| Tempo de leitura: 3 min

Há cerca de 15 dias, minha prima teve seu primeiro filho. Prematuro, Miguel nasceu de seis meses e ficou poucas horas por aqui. Não resistiu e foi embora. Aquele caixão pequenino e branco é algo que nenhum pai (talvez nenhum familiar, amigo ou mesmo desconhecido) merece ver. Nesta semana, o pequeno Aylan, de 3 anos, morreu afogado quando sua família tentava fugir das atrocidades que ocorrem em Kobani. A imagem do corpinho do garoto bem vestido, com o rosto voltado para a areia molhada, rodou o mundo e, certamente, se transformará em símbolo na questão dos refugiados.

Entretanto, não usarei este espaço para falar do uso daquela fotografia ou mesmo de geopolítica (por falta de vontade e, principalmente, por ignorância. Deixo tais análises para especialistas que entendem um zilhão a mais do que eu). Quero falar do céu das crianças! Fiquei sabendo que, lá em cima, as crianças têm um espaço que é só delas. E elas crescem até certa idade apenas. Atingem uma faixa etária limite que as impede de deixarem de ser guris. E isso varia de cada uma.

Disseram-me que Aylan deve crescer mais uns 2 aninhos. Miguel, uns 6 talvez. Lá, ninguém fala de ‘problemas de adulto’. No céu das crianças, tudo é simples de se resolver. Opa. Quase tudo. O maior problema é chegar a um consenso do que vai estar na telinha: Turma da Mônica, Peppa Pig, Pica Pau ou Galinha Pintadinha (e olha que eu jurava que esta última tinha pacto com o ‘Tranca Rua’) são os mais concorridos.    Decidido isso, é aquela felicidade que só emerge da inocência exclusiva a essa faixa etária. Sabe aquela risada gostosa que a petizada solta de vez em quando? Pois é. Lá em cima, esse é o som ambiente. Todos estão muito bem vestidos. De mãos dadas com seu irmãozinho, o Aylan já chegou ‘na estica’ nesta semana. Todos com bermudinhas, macacãozinhos, blusinhas, sapatinhos. Tudo bem limpinho. Tudo bem ‘inho’ mesmo. O que chama a atenção são aqueles tênis (‘inhos’ também) com luzinhas que um ou outro prefere usar para correr por aí.

Não se engane. A pouca idade não os impede de saber o porquê estão ali. Contudo, não há revolta, arrependimento, mágoa e tampouco tristeza. Esta, exista talvez. Tão pouca. Pouca tristeza oriunda de saudade dos que ficaram por aqui. Mesmo que tenham passado apenas horas, eles sentem saudade daqueles que os amaram aqui. De vez em quando, os pirralhos desrespeitam as ordens (coisa de criança, né?) escritas em giz azul em uma lousa e tentam mandar um “oi”. São nesses momentos que os pais acabam, do nada, se lembrando dos pimpolhos no meio do expediente, ao acordar na calada da noite ou quando simplesmente o pensamento está vazio durante uma garfada e outra do almoço. “Oi, eu estou bem. Fique bem também”.

Os pequenos não querem que fiquemos tristes por eles. Sabem que já temos muitos motivos para ficarmos tristes por nós mesmos. Eles estão bem. Tiveram a sorte de não serem contaminados por nosso mundo. Por isso, não rezo para o Miguel e tampouco para o Aylan. Muito pelo contrário: peço ajuda; peço que eles intercedam por nós. Afinal, aqui, estamos muito longe de viver no céu das crianças.

 

O autor é editor do JC, jornalista responsável  da TV USP Bauru e especialista em Linguagem, Cultura e Mídia