08 de julho de 2026
Articulistas

Sobre não acabar

João Pedro Feza
| Tempo de leitura: 2 min

Palo Alto Longevity Prize: eis o nome do concurso que pagará 1 milhão de dólares em 2016, no Vale do Silício, ao autor do melhor estudo/pesquisa sobre imortalidade. Quem falou sobre isso no Brasil foi o cientista, escritor e “professor global” José Luis Cordeiro (venezuelano/espanhol/americano). Palestrante do 38º Congresso Brasileiro de Oftalmologia, que terminou ontem, em Florianópolis (SC), ele leciona em instituição criada pela Nasa em parceria com o Google: a Singularity University. Conforme resumo publicado pelo jornal “Zero Hora”, Cordeiro não parece ter dúvidas de que ciência e tecnologia darão ao corpo humano uma superação sem precedentes. Coisa de cinema. Será?


Fato é que imortalidade, de certa forma, já existe na natureza. Em fevereiro de 2010, a revista “Super Interessante” publicou matéria sobre o tema – e abriu relatando que a tal turritopsis dohrnii, espécie de água viva, sequer tem prazo de validade. Para ela, a morte morrida não existe. Morre, sim, como decorrência de algum grave ferimento ou acidente. E se a morte morrida deixar de existir também para nós? A longevidade da população, que já é realidade, traz como efeito colateral uma série de desafios à sociedade e às políticas públicas. Uma imortalidade, então, poderia virar um enrosco universal.  


O filme “Outro/Eu” (EUA/2015) imaginou mais ou menos assim: um bilionário doente tem sua consciência transferida para outro corpo, bem mais saudável e criado artificialmente. A ficção científica, cuja história original é dos espanhóis David e Àlex Pastor, deve ser recheada de suspense psicológico.  Não só ficção e ciência são instigadas pelo conceito e desafio da imortalidade. Ela também pode ser poética, filosófica, inspiradora. Como nas palavras do educador e pensador mineiro Rubem Alves (1933-2014): “Ensinar é um exercício de imortalidade. De alguma forma continuamos a viver naqueles cujos olhos aprenderam a ver o mundo pela magia da nossa palavra”. De fato, muita gente vê na obra de uma vida o sentido de ser para sempre. Ou como alguém já disse, deixar algo relevante é se tornar vivo após morto.


Ainda nos chocamos, e devemos nos chocar mesmo, com mortes precoces ou trágicas, como a do menininho sírio e seu irmão. Uma crueldade que, passados os dias, ainda causa aperto no coração e fundo incômodo. Daí a perseguir imortalidade vai uma distância e tanto.  Não a veremos acontecer porque não seremos, nós, os imortais da vez. Aos que a ciência assim transformar no futuro, deixo um recado: vivam suas vidas inacabáveis com foco no bem coletivo. Não estraguem seu tempo inesgotável com conflitos, envenenamentos morais e maldades toscas.  José Luis Cordeiro diz que, nas próximas duas décadas, teremos mais mudanças do que em dois mil anos. Que não se mude o amor, este sim, ao mesmo tempo, tão humano e tão sempre imortal.


O autor é editor executivo do JC