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| Secretário-geral da Sociedade Brasileira de Radioterapia, Gustavo Nader Marta traz mensagem de otimismo aos pacientes: “Câncer não é sinal de morte iminente” |
‘É preciso desmistificar o câncer’
Bauruense de raiz, embora se penitencie por não vir sempre à cidade “por dificuldade em conciliar compromissos profissionais”, Gustavo Nader Marta é jovem, mas já tem história para contar.
Saiu de Bauru aos 18 anos, rumo a São Paulo, para se preparar para o vestibular de medicina. Acabou se formando pela USP e, aos 32 anos, atua em duas das principais instituições médicas do País, o Hospital Sírio-Libanês e Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (Icesp). “Sou uma pessoa que está em busca de meus sonhos e realizações profissionais e pessoais”, define.
No campo profissional, Gustavo Marta já passou por treinamentos nos EUA (Massachusetts General Hospital - Harvard Medical School; Cleveland Clinic) e Canadá (McGill University). Especializou-se em radioterapia para o tratamento do câncer e, no próximo mês, defenderá sua tese de doutorado na Faculdade de Medicina da USP, no Programa de Oncologia.
Conversar com ele nas horinhas vagas, em meio à correria nos dois hospitais, é uma injeção de otimismo. “O câncer tem um grande estigma social. Para muitos, até hoje ele é sinônimo de morte iminente. Isso não é verdade”, afirma.
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| José Marta (pai), Taís (irmã), Sara (mãe), Gustavo e Guilherme (irmão) |
Jornal da Cidade - Bauruense nato, suas raízes estão por aqui...
Gustavo Nader Marta - Tive uma bela infância em Bauru. Morava em uma casa na Vila Universitária com meus pais (José Marta e Sara) e irmãos (Taís e Guilherme). Tinha muitos amigos da vizinhança e do colégio. Como me esquecer do campinho de futebol no terreno em frente de casa, as aulas de futebol de quarta-feira à tarde no BTC com o professor Gualberto, os treinos de karatê, as trilhas de bicicleta pela cidade, as festas e churrascos junto com os amigos?!
JC - De onde nasceu sua paixão pela medicina?
Marta - Interessei-me pela medicina quando tinha 16 anos. Me cativava a ideia de poder ajudar concretamente as pessoas com a minha profissão. O sentimento inicial era esse. Nessa fase, não creio ser possível falar em paixão pela medicina. O que um adolescente sabe da vida e de suas escolhas? Com o passar do tempo, já na faculdade, comecei a entender o real sentido da medicina e todas as responsabilidades inerentes à profissão. Hoje tenho a total convicção de que fiz a escolha correta. A medicina é desafiadora, fascinante e altamente gratificante.
JC - E a opção pelo tratamento do câncer?
Marta - O meu envolvimento com a oncologia começou logo no início do terceiro ano da faculdade. Comecei a me incomodar com o fato de que eu estava aprendendo medicina com a dor e o sofrimento dos pacientes. Tive a percepção de que os pacientes com diagnóstico de doença grave, como muitas vezes acontece com o câncer, eram aqueles que mais precisavam da assistência médica. Digo não somente a assistência técnica, e sim ao suporte holístico com enfoque no doente e não apenas na doença. Estudei e vivenciei muitas situações relacionadas com pacientes oncológicos. Isso me fez crescer e amadurecer pessoal e profissionalmente. Ao final do sexto ano da faculdade não tinha dúvidas: o tratamento do câncer era a minha escolha.
JC - Antigamente, a palavra câncer era até impronunciável...
Marta - O câncer tem um grande estigma social. Para muitos, até hoje é sinônimo de morte iminente. Isso não é verdade. O câncer não pode ser simplificado a uma única doença. Existem diversos tipos de tumores que são altamente curáveis. Além disso, os tratamentos disponíveis têm evoluído nas esferas da cirurgia, radioterapia e terapia sistêmica. As perspectivas são positivas para muitos dos pacientes oncológicos, principalmente para aqueles diagnosticados com doença em estágio inicial.
JC - O fato de lidar tão próximo da dor não o deixa deprimido?
Marta - Há necessidade de ter muita sensibilidade no trato dos pacientes oncológicos. O desenvolvimento da medicina transformou a trajetória das doenças: prolongou-se a vida e o processo de morrer. Isso criou um novo modelo médico em que os profissionais têm de cuidar e conviver com pacientes gravemente enfermos, situação muitas vezes acompanhada de árduo sofrimento. A postura onipotente assumida por muitos médicos, em priorizar salvar o paciente a qualquer custo a fim de corresponder às expectativas idealizadas de preservador de vidas, pode causar grande frustração. Assim, nas situações de doenças incuráveis, defrontam-se com suas insignificâncias diante de situações irreversíveis.
JC - O que vê de diferente entre fora do País e o atendimento no Brasil, já que atua em hospitais de primeira linha?
Marta - A experiência técnica e acadêmica em vivenciar a rotina de centros médicos de excelência (no Exterior) é fantástica. Consigo utilizar todo o recurso humano e tecnológico necessário para tratar adequadamente os pacientes nos dois hospitais em que atuo. Esse é um grande privilégio, pois não é a realidade da maioria dos centros de oncologia e radioterapia do País. A grande diferença que vejo é em relação à pesquisa; estamos muito defasados quando observamos o nível e a qualidade do que é produzido em centros de excelência de fora do País.
JC - E para as camadas mais pobres da população, o que é preciso mudar?
Marta - Deve existir um investimento substancial na saúde pública. Nos últimos tempos, o governo federal vem utilizando medidas populistas, simplistas e irresponsáveis para tentar resolver a questão da saúde. O programa ‘Mais Médicos’ é um exemplo disso. Temos muitos pacientes que morrem nas filas à espera de atendimento médico especializado. Em relação especificamente à radioterapia, há um enorme déficit de vagas para os pacientes do SUS. Existem regiões do Brasil em que os doentes precisam percorrer mais de 300 quilômetros por dia para conseguir atendimento. Os serviços de radioterapia que atendem SUS estão à beira do colapso financeiro, uma vez que desde 2010 não há reajustes nas tabelas de repasse.
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| Gustavo junto com a noiva Mirella Medeiros Monteiro |
JC - Tem como se livrar do câncer?
Marta - A formação do câncer (carcinogênese) é multifatorial. Os fatores de risco para o câncer podem ser herdados ou representar hábitos e estilos de vida de um determinado ambiente social e cultural. Existem muitos fatores de risco para o desenvolvimento do câncer que podem ser evitados. Os principais são tabagismo, etilismo excessivo, exposição prolongada ao sol, alguns tipos de alimentos contendo nitritos e nitratos usados para conservar enlatados, alimentos preservados em sal, pobres em fibras e com alto teor de gordura, comportamento sexual promíscuo (aumentam a chance de exposição a vírus carcinogênicos sexualmente transmissíveis, como HIV) e fatores ocupacionais.
JC - O que recomenda para ser saudável?
Marta - As pessoas devem evitar excessos e buscar o equilíbrio físico, psíquico e social.
JC - Algo que o alegra?
Marta - Fora da profissão: estar com minha família e amigos. Dentro da profissão: ver um paciente curado; reconhecimento profissional e acadêmico.
Perfil
Nome: Gustavo Nader Marta
Idade: 32 anos
Local de nascimento: Bauru
Noiva: Mirella Medeiros Monteiro
Hobby: Degustação de cervejas artesanais
Livro de cabeceira: Cem anos de solidão (Gabriel García Márquez)
Filme preferido: O poderoso chefão
Estilo musical preferido: Rock nacional e internacional, MPB, samba, jazz, blues
Time de futebol: Corinthians
Para quem dá nota 10: Meus pais
Para quem dá nota 0: Corrupção
Email: gnmarta@uol.com.br