09 de julho de 2026
Geral

Passeata do 1º Encontro das crespas e cacheadas na Batista de Carvalho

Tisa Moraes
| Tempo de leitura: 4 min

João Rosan
Integrantes de passeata que percorreu a Batista de Carvalho, nesse sábado (5), contam suas histórias de redescoberta e aceitação

As histórias se repetem. Queda e quebra de cabelo consequentes das tentativas de alisá-lo, frustrações, dificuldade em encaixar-se nos padrões, até o dia da redescoberta e, por consequência, da libertação.

Esta é a trajetória vivida por praticamente todas as pessoas que participaram da passeata que percorreu o Calçadão, na tarde desse sábado (5), para defender, literalmente, as raízes africanas de quem tem cabelos crespos. O 1.º Encontro de Crespas (os) e Cacheadas (os) de Bauru reuniu dezenas de pessoas, que saíram da Praça Rui Barbosa e seguiram até a Estação, onde se juntaram ao 1.º Sambalanço “Sacundin Sacunden”, realizado pela Associação Cultural de Tradições Afro-Brasileiras (ACTABB) em parceria com a Secretaria Municipal de Cultura (leia mais abaixo).

Uma das organizadoras do encontro, a jornalista Ivana Santos, 30 anos, explica que a passeata teve objetivo de estimular cada uma das crespas e encaracoladas que adormecem sob a rotina de chapinha e fórmulas com formol a assumirem seus cabelos naturais. “Nossa inspiração veio da passeata ‘Orgulho Crespo’, realizada em julho em São Paulo. Quisemos fazer algo parecido em Bauru para encorajar as pessoas que tem cabelos crespos a se libertar”, comenta.

Ivana conta que viveu sua libertação particular há cerca de seis anos, após 12 anos submetidas a processos químicos para enquadrar-se aos “padrões de beleza”. “Já tinha visto algumas referências e resolvi cortar curtinho para tirar todo o relaxamento. Eu nem lembrava como era o meu cabelo natural e descobri que era muito bonito”, comenta.

A atendente de telemarketing Roberta Sampaio, 24 anos, chegou a perder mechas inteiras com produtos químicos até entender que um visual bonito não precisava ser o liso. Ela conta que, a partir da mudança, passou a se sentir mais autoconfiante, vaidosa e, inclusive, atraente. “Mudei meu estilo, fiquei mais ousada, comecei a usar mais maquiagem, batom de cor forte, turbante, acessórios mais chamativos. Meu namorado, que eu conheci depois desta transformação, me adora assim”, comemora.

Liberdade

Mas, embora defenda que as mulheres não devam negar sua identidade cacheada, Roberta faz um alerta: “o importante é ter liberdade, poder brincar, escovar ou usar chapinha para deixar liso de vez em quando, se quiser. Não adianta sair de uma escravidão para cair em outra”, observa.

A analista fiscal Jacqueline Rodrigues, 25 anos, também organizadora do encontro, lembra que conquistas como o aumento das referências de beleza negra e a enorme gama de produtos desenvolvidos para este público consumidor não representam, por si sós, o fim do racismo. “A internet, principalmente o blog, contribuiu muito para o fortalecimento desta identidade e os fabricantes descobriram este mercado, o que é ótimo para valorizar ainda mais a nossa beleza. Mas o preconceito, infelizmente, ainda persiste e precisa continuar sendo combatido”.

Sambalanço da Estação

A plataforma da Estação Ferroviária de Bauru recebeu, nesse sábado (5), o 1º Sambalanço “Sacundin Sacunden”, que reuniu diversas atrações, como a apresentação da Banda Kananga do Alemão, os DJs Pepa e Brito, e a participação especial do DJ Ding, da casa do Hip Hop de Bauru. Também houve exposição de pinturas e roupas afros, workshop de maquiagem, amarração de turbante e estandes de beleza negra.

O evento incluiu, ainda, o 1.º Campeonato Regional de Amadores de “Samba Rock”, com o encontro de vários grupos de dança de Bauru e região, além de receber os integrantes do 1.º Encontro de Crespas (os) e Cacheadas (os) de Bauru.

Luta contra o preconceito gera um horizonte positivo

Foi quando ficou grávida e precisou aposentar os processos químicos que Sthephanie Eloy, 27 anos, decidiu assumir seus cachos. A autoconfiança cresceu na mesma proporção da volumosa cabeleira e ela quis ousar, colorindo as madeixas de vermelho.

O visual “chamativo”, contudo, costuma ter um preço. Desempregada, Sthephanie conta que a rejeição no mercado de trabalho ainda é grande e os olhares nas ruas, nem sempre receptivos. “Tem gente que chega a criticar ou rir. Então, para evitar constrangimento, quase sempre eu prendo ou uso turbante. Mas, esta é a minha personalidade e, no mês que vem, vou pintá-lo de azul”, revela.

Para os homens, enfrentar o preconceito também pode ser especialmente difícil, conforme observa o estudante Willian Rogério Xavier, 17 anos, dono de um robusto black power. “As pessoas estão mais acostumadas a ver mulheres com cabelo armado. O preconceito, principalmente de homens contra homens, é grande. Tem gente que passa de carro e até insulta”, comenta.

Apesar de episódios como este, é inegável que o caminho desbravado há tão pouco tempo por estes homens e mulheres já está tornando mais fácil a forma de as novas gerações lidarem com seus cabelos. É o caso da pequena Hillary, 5 anos, filha de Sthephanie, e de Maria Luiza Godoy, 6 anos, que participou ativamente da passeata, ontem.

Ao contrario da maioria das mulheres afrodescendentes, Maria Luiza conta que nunca quis alisar os cabelos e que não sofre, na escola, qualquer tipo de bullying por conta de sua escolha. “Precisa lavar, pentear e passar creme, mas eu gosto dele assim”, afirma, revelando que gosta de adornar as madeiras com laços, turbantes.

Para o futuro, os planos da garotinha são deixar os cachos ainda mais volumosos e, quando os pais deixarem, raspar a lateral, para conquistar um visual moderno que os especialistas chamam de sidecut.