09 de julho de 2026
Articulistas

Obstinações modernas

Alexandre Albertini Benegas
| Tempo de leitura: 3 min

  

Diferentemente das leis da Física, um movimento - nada uniforme - parece imprimir nova dinâmica nos relacionamentos sociais. Um recurso tecnológico modificador de contatos. Convocados ao verbo fácil, a falar e a escrever  na velocidade  de um vanguardista processador, a narrativa da vida moderna cria, num enredo cadenciado pelo imediatismo, um novo homem.

Um homem postado à onipresença da comunicação, ou seria descomunicação !?, obstinado por mensagens,Instagrans, Facebooks, tuítes- pobre passarinho-, e.mails, celulares e afins, com projeção a um quadro de irreversível ansiedade. Clonazepam, Maleato de Fluvoxamina, Tartarato de Zolpidem, Divalproato de Sódio. Ufa! Talvez isto explique, em uma sociedade cada vez mais doente da alma, o preocupante aumento dos transtornos obsessivos compulsivos. Ininterruptamente, potencializamos uma intrigante diferença entre comunicação e relacionamento. O virtual, em virtuosas virtudes, é confortavelmente anti-topográfico, avesso à territorialidade do encontro. É dispensador presencial. É concessor de vínculos emotivos substancialmente personificados. É, enfim, agente ratificador  da taxa de vantagem embutida em  um estar conectado, contra um questionável e subjetivo estar engajado. O resultado ?  A incômoda  ocorrência, por extensão, de um fenômeno denominado  multidão solitária. Similar a uma nota destoante em um concerto musical, uma singular solidão transita em companhia do plural coletivo. Lacunar, o hiato da  hodierna comunicação fomenta, em uma constate, a lesiva origem da  convivência em reticências.

Tal anomalia evidencia, por outro lado, a  efervescência por estar e por participar, integralmente, dos feudos e dos eventos sociais, abastecidos pela efemeridade imagética e o pior, pela curiosidade barata, ordinária. Falanges presas à urgência do dito,duvidosamente, inaudito em áudio real. Os dedos, assaz obedientes, dedilham,na celeridade temporal do envio, a espera nervosa da devolutiva. Com ou sem conexão, trata-se do moderno vício ‘Just in time’. Tudo isto num mundo tutor de repletos meios, entretanto pouco conhecedor da administração de seus variáveis fins. 

Curiosa configuração entre emissor e receptor da linguagem no fator temporal. Uma irresistível solicitação afivelada ao constante estado de permanência ‘on line’. Desta forma,merece, sim, saudável reflexão esta compulsão à velocidade comunicacional como maximização de satisfação.Analogamente ao escritor francês Guy Debord, autor da denominação Sociedade do Espetáculo, espetaculariza-se um assunto, no afoitamento dos comentários, intencionando o relevo, ainda que fugaz, da repercussão momística inaugural.

O exponencial da rapidez no fluxo do tempo em espaços, agora imateriais, conectados em redes sociais de incomensurável alcance. Assim, o febril e notório ‘WhatsApp’, alterou significativamente a nossa percepção de urgência e emergência. A imperiosa confirmação quanto ao recebimento da mensagem, esposada à sedutora necessidade de atualização de contatos, fez o novo homem, do velho mundo, um vassalo comportado e ativo destes intrigantes e infindáveis elementos da tecnologia.

Longe está de demonizarmos tais mudanças e conquistas modernas, vigentes na convivência humana. Oportuno seria, racionalmente, facear as nossas atitudes diante delas. Se somos devedores ou credores do tempo em prol do nosso melhoramento intelectual, em benefício do nosso estudo, da sensibilização pelo contato presencial, na valorização do ócio verdadeiramente criativo, da inscrição  às causas humanizadoras , do exercício a nossa percepção cognitiva, no entretenimento convidativo coletivo. Reconhecer e exercitar os benefícios tecnológicos pela otimização  pessoal, requer, faz tempo, amadurecimento, comprometimento  e... tempo.

 

O autor é professor universitário de Língua Portuguesa, Especialista em Redação, doutorando em Letras pela Unicamp 

- alexandrebenegas@gmail.com