10 de julho de 2026
Geral

Busca por emprego e saúde causa lotação no albergue

Marcus Liborio
| Tempo de leitura: 5 min

O Albergue Noturno de Bauru, mantido pelo Centro Espírita Amor e Caridade (Ceac), bateu recorde histórico de atendimento no feriado desta semana. Motivadas pela busca por emprego ou tratamento de saúde, 75 pessoas passaram as noites de segunda e terça na instituição, superando a média de 50 acolhimentos diários, ou seja, 50% acima da capacidade. 

A superlotação do local foi a primeira em quatro anos, desde que o albergue está instalado na quadra 7 da rua Inconfidência, próximo ao Terminal Rodoviário. “Foi uma surpresa, pois é um mês atípico. Em junho e julho, época de frio, e também em dias de chuva, a média nunca ultrapassa 60 atendimentos”, observou a coordenadora social do Albergue Noturno, Francine Tamos. 

“Aliás, desde que o mês começou, atendemos mais do que a média. Na noite de ontem (anteontem), recebemos 57 pessoas”, acrescentou. Ela atribui o aumento na demanda à falta de emprego impulsionada pela crise financeira. “A chuva no feriado contribuiu um pouco, mas eles estão aqui, mais especificamente, para procurar trabalho”, avalia. 

Nos dias de grande movimento (7 e 8), 30 pessoas já estavam instaladas no Albergue Noturno - que pode oferecer tempo de permanência de até quatro meses. No entanto, dos 35 extras que apareceram no início da semana, 25 disseram estar à procura de emprego, enquanto o restante almejava tratamento de saúde – entre dependentes químicos e outros casos. 

“A maioria presta mão de obra de pedreiro ou serviços gerais. Bauru tem um histórico bom na área da construção civil e, de certa forma, eles acabam tendo conhecimento disso e vêm buscar oportunidade de emprego aqui”, opina. 

É o caso do servente de pedreiro Carlos Eduardo dos Santos Coelho, 43 anos, que chegou ontem no albergue. Ele trabalhou duas vezes em Bauru e, há alguns anos, residia em Londrina, no Paraná. 

Desempregado, voltou em busca de nova oportunidade. “Está difícil por causa da crise, mas tenho esperança de conseguir algo aqui”, disse Carlos, que também é dependente químico e tenta tratamento na cidade. 

Em busca de trabalho

 

O pedreiro José Maria de Moraes, 53 anos, está na mesma situação. Ele, que é de Uberaba, Minas Gerais, está sem trabalho há cinco meses. “Já estive antes em Bauru e sempre gostei da cidade. Espero arrumar emprego e também tratamento contra o alcoolismo, pois tive uma recaída”, conta. 

Saúde  

 

De acordo com Francine, 55 pessoas permaneciam no Albergue Noturno ontem. Deste total, 28 dizem estar à procura de emprego, cinco idosos estão em busca de abrigos, três são “outros” casos mais específicos e 19 querem tratamento de saúde – 13, inclusive, aguardam vagas em comunidades terapêuticas. 

Existem ainda quem busca superar um problema cardíaco. É o caso do aposentado João Ferreira de Barros, 66 anos. 

Ele, que é de São Paulo e chegou no albergue no feriado, sofreu um AVC há alguns anos e ficou impedido de continuar o trabalho como pedreiro. 

“Já conhecia a cidade e acredito que eu possa conseguir tratamento do coração por aqui. Vou tentar e, caso não consiga, irei para outro município”, revela o aposentado. 

Muitos foram acomodados pelos corredores

Ao se deparar com tanta gente, os funcionários do Albergue Noturno tiveram que improvisar. “Temos oito colchões extras, mas, durante a madrugada, começou a chegar mais gente. Juntamos cobertores e lençóis para simular um colchão, mas não deixamos ninguém para fora”, relata Francine Tamos. 

Muitos foram acomodados no meio do corredor e outros superlotaram os quartos da instituição. “A gente quer oferecer mais conforto. Não queremos colocar a rua aqui dentro, mas acolher a pessoa e tirar a rua delas. É uma situação que, de certa forma, nos incomoda, mas o que vale é acolhe-las”, frisa a coordenadora social do Albergue Noturno. 

Entre os 75 acolhidos nas noites de segunda e terça, somente nove eram mulheres, o que já é fora do comum, pois a média é de dois acolhimentos diários do sexo feminino. A maioria dos internos (56) tinha idades entre 25 e 45 anos – outros 17 com faixa etária acima de 60 anos.  

“São pessoas que vêm de diferentes locais da região ou até mesmo de outros Estados. Alguns estão migrando de cidade em cidade à procura de trabalho e muitos municípios não oferecem boa estrutura de acolhimento como aqui”, observa Francine. 

Dos 75 que passaram pelo albergue no feriado, 55 permaneceram, cinco pegaram passagens de ônibus e foram para outras cidades e 15 não quiseram atendimento e deixaram a instituição pela manhã. 

“A gente faz um trabalho de ação e reflexão com o usuário diante das expectativas deles como arrumar trabalho ou conseguir um tratamento de saúde. Alguns preferem só passar a noite mesmo”, exemplifica Francine Tamos.

‘Sossego’

 

Um dos que estavam no Albergue Noturno ontem era Antônio Lopes de Andrade. Com 92 anos, ele, porém, era uma exceção: estava em busca de tranquilidade. O idoso foi convidado por sobrinhos para morar em Brasília, mas prefere viver sozinho. Em um albergue de Rio Claro, seu Antônio ficou sabendo que Bauru seria um local bom para se instalar. 

“Estou procurando sossego. Gostei daqui. Pretendo usar meus ‘trocadinhos’ da aposentadoria para alugar nem que for um quarto para me acomodar”, disse. 

Mais antiga

De acordo com a titular da Secretaria do Bem Estar Social (Sebes), Darlele Tendolo, Bauru possui mais duas casas de passagem, que, assim como o Albergue Noturno, são financiadas pela prefeitura. 

“Temos a Comunidade Bom Pastor, que só atende mulheres e tem capacidade para receber 20 internos, e o Esquadrão da Vida, cujo atendimento é destinado só para os homens e consegue acolher 30 pessoas”, disse, esclarecendo ainda que nenhuma delas sofreu alteração na demanda neste feriado.  

Com 64 anos de atividade, o Albergue Noturno é o mais antigo de Bauru e oferece atendimento misto (homens e mulheres). Sobre a superlotação, Tendolo reforça a questão de Bauru ser polo e referência nacional em diversos aspectos.  “Com cerca de 400 mil habitantes, a cidade já está se transformando em uma metrópole e as pessoas percebem que o atendimento assistencial aqui é bom”. 

“No entanto, não posso atribuir a grande procura pelo albergue neste feriado à crise econômica. Até porque, são três aspectos que motivam uma pessoa a ir para as ruas: desilusão amorosa, drogas e a falta de emprego”, avalia. 

De acordo com ela, a prefeitura ainda dispões dos serviço de abordagem social noturna, o Centro de Referência Especializado para População em Situação de Rua (Centro Pop) e os hotéis sociais para atender público neste perfil.