09 de julho de 2026
Cultura

Bauruense na corrida pelo Oscar


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Reprodução
Cena do filme "Que horas ela volta"

Da corrida rumo à maior premiação do cinema mundial participa um bauruense: o figurinista André Simonetti. Vamos por partes.

  Essa história começa com um enredo: empregada doméstica que cuida do filho dos patrões como se fosse seu terá que reaprender a se relacionar com a própria filha, que não vê há 10 anos e chega a São Paulo, vinda do Recife, não para seguir os passos da mãe, mas para estudar.

Taí o resumo do filme “Que Horas Ela Volta?”, estrelado por Regina Casé. Ontem, a produção (cujo figurinista é justamente Simonetti) foi anunciada pelo Ministério da Cultura como o candidato brasileiro ao Oscar. 

Os cinco escolhidos para concorrer na categoria de melhor filme estrangeiro serão conhecidos em janeiro de 2016.

Há chances. Eleito pelo público o melhor filme no Festival de Berlim (Alemanha), aplaudido em pé por sete minutos, o longa também rendeu o prêmio especial do júri no Festiva de Sundance  (EUA) para Regina e Camila Márdila, que interpreta sua filha.

“O legal desse filme é que ele representa um novo Brasil e ser candidato a participar do Oscar ajuda na divulgação dessa história, que é muito bonita e tem personagens bem interessantes”, avalia Simonetti, lembrando o que disse a diretora, Anna Muylaerte.

Em São Paulo desde 1990, Simonetti (filho do jornalista Paulo Sérgio Simonetti) sempre visita Bauru, onde está à frente do Espaço Cultural Leônidas Simonetti. Confira o bate-papo, por telefone, com o Jornal da Cidade, ontem.

Como chegou ao filme? 

 

Quando fiquei sabendo que a Ana Muylaerte ia fazer fiquei desesperado porque gosto muito do trabalho dela e entrei em contato com o produtor. 

A Regina Casé tem como figurinista fixa a Claudia Kopke. Mesmo assim, tinha um filme todo, com outros 15 personagens e figuração. Eu topei. A gente trocava “figurinhas” e ideias até na prova de roupa da Regina. Emprestei roupas do meu acervo, foi muito gostoso.

O que faz o figurinista?

 

Primeiro a gente lê o roteiro, faz anotações para entender o que está acontecendo ali; depois se reúne com o diretor de arte e a diretora do filme para falar sobre cada personagem. 

Aí vai pesquisar no universo dos personagens, na internet, nas ruas, fotografa e apresenta isso para o diretor de arte, para ver a linha que vai seguir. A partir daí, vou produzir. Tenho um acervo, peço emprestado e tenho uma verba, geralmente baixa, para montar o figurino dentro do orçamento. A gente faz prova de roupa, que é muito importante. 

Nesse momento, o figurinista mesmo vê o que rolou ou não. A gente fotografa tudo, faz uma pasta. E uma decupagem, dizendo em que cena será usada determinada roupa. 

Qual o segredo de um bom figurino?

 

O segredo é repetir a roupa, para que fique realista. Monta um guarda-roupa para cada personagem e vai compondo, misturando as peças, coloca o brinco que combina mais e vai dando vida.  

Como escolhe o visual de cada personagem?

 

O patrão [no filme] é artista plástico e fui atrás de amigos que poderiam me emprestar camisetas de arte; a patroa trabalha em site de moda e tive que beber nessa fonte; a melhor amiga da protagonista é empregada, então tenho que mergulhar no mundo das domésticas; a filha é uma menina rebelde que saiu do Recife para prestar vestibular. Ela não quer ser empregada, quer fazer arquitetura. 

Como é essa menina? Ela quer vencer, não está preocupada com adornos. Então, a gente não colocou nada, só um bracelete de couro, para dar uma força. Calça jeans, all star, mochila, simples e guerreira. Quando a atriz coloca o bracelete ela sente isso. 

De que forma se dá a relevância do figurino?

 

O primeiro contato do público com o personagem é visualmente. Através do signo, no caso a roupa, ele vai começar a entender quem é aquela pessoa na cena. O primeiro código, e assim a primeira leitura que eu posso fazer da pessoa, é a roupa, como usa o cabelo...

Às vezes a gente usa um sapato para forçar uma postura. A gente dá palpite em cabelo e maquiagem. Até o detalhe do sutiã aparecendo na regata. 

E durante a filmagem?

 

Acompanha toda a filmagem, tem que ter sempre alguém do figurino no set. Tem a assistente e, às vezes, sai para buscar roupa, ir na costureira.

Nesse caso foi rápido, por conta da agenda cheia da Regina Casé. Pouco mais de dois meses de filmagem e dois de pré-produção. Foi o verão mais quente da história de São Paulo, a gente quase derreteu nas filmagens em uma casa no Morumbi, mas o clima entre a equipe era maravilhoso. 

Como é seu acervo?

 

Nem sei quantas peças tenho no meu acervo, só sei que o melhor quarto da casa não é o que durmo, é o do acervo! Está abarrotado!

Eu já fui bem mais curioso com moda, já segui mais. Depois a gente vai amadurecendo e se fica mais prático. Só que a moda não é algo que se pode desprezar.

É ele

Vencedor do prêmio de melhor figurino com o filme “Chega de saudade” (2007), eleito pela Academia Brasileira de Cinema;
Figurinista de 21 filmes;
Figurinista assistente de 15 longas-metragens.
Figurino da série “Casa de Alice”, da HBO.
Filme “Supernada”, com Jair Rodrigues, pouco antes do falecimento. “Foi uma filme lindo”