O País acaba de perder o grau de investimento - o selo de bom pagador. Desde a Argentina, onde faz palestras, o ex-presidente Lula quer fazer crer que “de nada vale” o rebaixamento da nota dada pela agência classificadora de riscos. Diferente do discurso de 2008, quando Lula comemorou o fato inverso. O Brasil, segundo o então presidente, daquela data em diante passava a ser “considerado um país sério”.
A aura caiu na lama. Chegou a conta dos últimos sete anos de gastanças da política populista do lulopetismo. E, desta vez, nem se pode culpar a “mídia golpista”. Vamos ficar sem o dinheiro dos fundos de pensão norte-americanos que, pelos estatutos, só podem aplicar em países considerados de economia sólida. E esta é apenas a pena mais branda. Quarenta das maiores empresas brasileiras, entre elas a Petrobras, bancos e até os Estados e São Paulo, de Minas e de Santa Catarina, se quiserem dinheiro emprestado do exterior, terão que pagar juros mais altos, compensatórios ao risco de calote.
Falhou a estratégia de privilegiar o consumo mediante a desoneração de impostos e facilitação do crédito consignado em folha. Enriqueceu os bancos, fez a alegria efêmera das montadoras de veículos e fabricantes da chamada linha branca. Como sempre, os pobres vão ser os mais afetados pela crise, com a perda de empregos e de poder aquisitivo. Nas geladeiras, em vez de alimentos e de cerveja, as prateleiras vão servir para guardar os carnês de cobrança. As prestações do Minha Casa, Minha Vida passam de R$ 80 para R$ 300.
A tarefa, agora, é a de reconstruir a economia e remar tudo outra vez para recuperar a confiança perdida. O Brasil levou 14 anos para conseguir o chamado “investment grade”. Perdeu tudo na metade desse tempo. Voltou ao que era e pode levar mais dez anos para se reerguer perante o mercado internacional. Isto se houver um projeto consistente de gestão econômica e política. Quando um homem não sabe a que porto se dirige, nenhum vento lhe será favorável - pontuava o filósofo latino Sêneca, no início da era cristã. Trezentos anos antes, Epicuro reconhecia que “Os grandes navegadores devem a sua ótima reputação às grandes tempestades”. Mas, onde estão eles, no Brasil de hoje, um barco à deriva? Sequer precisamos de um salvador da pátria. Desses, estamos cheios. O que a vida quer da gente é coragem, ensinava com sua simplicidade o jagunço Riobaldo, personagem de Guimarães Rosa. Precisamos de alguém com ousadia para cortar despesas, sem medo de cara feia ou represálias de partidos. A nação inteira vai apoiar aquele que se disponha a cortar pela metade os 39 ministérios, muitos deles inúteis pela falta de função. Mais ainda se forem extintos os cargos de confiança. Disseram que seriam 23 mil as assessorias. Os próprios órgãos da administração federal asseguram que são 100 mil. Mais precisamente, 99.234. Na França e na Alemanha não passam de 500. Os Estados Unidos têm 8 mil vagas à disposição do presidente eleito. Em vez de cortar na carne, os condutores da economia consideram “corajoso” confessar um rombo de 30,5 bilhões de reais, sem as pedaladas. Como se o fato, por si já justificasse as propostas de aumento das alíquotas do imposto de renda, e o retorno do imposto do cheque (CPMF). Fora os impostos que estavam suspensos e vão voltar por decreto da presidente, como aqueles que vão encarecer os combustíveis, os serviços (ISS) e as operações financeiras (IOF). O ministro Joaquim Levy, da Fazenda, quer nos passar a ideia de que impostos “são investimentos”.
Diante de tantos ônus, 40 empresas brasileiras dos ramos têxtil e de plásticos mudaram-se para o Paraguai, onde os salários são menores e as tarifas de luz e força custam 50% menos do que no Brasil. Lá, o imposto sobre produtos exportados é de apenas 1%.
A Standard&Poors, a mais antiga agência de classificação de riscos dos Estados Unidos, nem precisou fazer pesquisas profundas para detectar as dificuldades políticas para o saneamento das contas do governo Dilma Rousseff. A presidente fala num momento de “travessia”, mas onde estão as pontes? Nenhum projeto real para sair do buraco. De País sério, passamos a “junk”, como os americanos denominam o “lixo” da economia em que nos transformamos.
O autor é jornalista e articulista do JC