09 de julho de 2026
Articulistas

Cadeiras vazias

Roberto Magalhães
| Tempo de leitura: 2 min

Faxina, como não fazê-la? Faxina na casa e na vida. Não há alternativa, chega um momento em que limpar é preciso. Limpar o guarda-roupa, o armário, mas  limpar também a nossa cabeça, que suja com enorme facilidade. E assim vamos vivendo, limpando e  sujando, sujando e limpando... Confessionários e  divãs,  quantas almas faxinadas...

E o perigo ou a vantagem –  não sei avaliar – é o que você encontra de repente. Faxinando, minha mulher encontrou um álbum perdido de fotos antigas, do qual não mais nos lembrávamos.  Um arquivo de festas em família, aniversários, natais, batizados, macarronadas e feijoadas de domingo. Num primeiro momento, a  alegria intensa de recuperar  cenas apagadas pelo tempo e pela memória. Toda a família, pais, filhos, avós, tias, sobrinhos, cunhados, primos e até mesmo a Isadora, rabo abanando, cadela rottweiler, também de muita saudade. Bebendo cervejas e caipirinhas, estávamos ali todos, em fotografia,  celebrando a vida. 

Num primeiro, momento – repito – quanta alegria... Depois, quanta saudade... Meu pai sorrindo não pôde mais ficar. Foi embora, ficou só  na foto. Estou abraçado ao meu irmão, mas  depois dessa  festa e foto, não mais pude convidá-lo para qualquer outra. Minha mãe sorrindo ergue o braço, a taça de vinho, mais do que saudação era uma despedida. E disso eu não sabia. Como dói cada fotografia, como o peito aperta, como sufoca o que eu tinha e perdi. Tanta dor assim me levou a fechar o álbum, não a ferida que então se abriu.

Álbum fechado, precisava abrir  todas as razões possíveis para abrandar a dor que então me consumia. Comecei a explicar para mim mesmo o óbvio. Eu precisava entender que feliz é quem pôde, por algum tempo,  curtir a família. Não era  isso o que as fotos  comprovavam? Claro que sim. Era só conferir como foram muitos e intensos os momentos vividos. Era isso que importava. Era isso que eu precisava entender. Afinal, todos estamos de passagem. A vida não se deixa aprisionar, senão em fotografias. Outra coisa, não são só partidas, há chegadas também e elas quanta luz e alegria trazem para os nossos dias. 

Expliquei tudo isso para mim mesmo. Inútil. Todos nós temos um álbum de família. Por isso, todos sabemos que pouco podem as palavras, pouco pode a razão, pouco pode a lógica, quando há cadeiras vazias nas festas da família. 

 

O autor é professor de redação e membro da Academia Bauruense de Letras - ABL