10 de julho de 2026
Articulistas

Deuses somos nós? A infinita aptidão à divindade desmerecida

Mário Henrique da Luz do Prado
| Tempo de leitura: 4 min

                              

Deuses existem aos milhares nas diversas culturas e o monoteísmo é bem recente em nossa cultura. Mas vivemos, na verdade, a pior fase do politeísmo: a do “autoteísmo”, em que cada um é um Deus particular. Não é incomum julgar-se um Deus, e cada homem o faz quando atua com seu determinismo sofista, querendo adequar o mundo à sua – medíocre – órbita idealista. Chamaremos aqui de determinismo sofista a intenção de que o outro se comporte à sua maneira, ou que defenda seus interesses, desconsiderando a multiplicidade que é cada ser, cada cultura, cada povo. Vejamos com exemplos: 1 – O mito do esforço pessoal e a consequente obrigatoriedade da sujeição ao trabalho servil.

Ronda um espectro obscuro em torno de programas sociais como é o “bolsa-família”, e todas as acusações giram em torno do mesmo núcleo: o mito do esforço pessoal. A questão é tão profunda que seriam infinitos os escritos sobre o assunto, mas, de forma breve, o mito é: “Se o outro não trabalha como eu, não pode comer como eu, viver como eu”. Isto sai da boca de pessoas de diversas classes sociais, principalmente das mais abastadas. É até ridículo ter que refutar uma afirmação tão vazia como esta, mas se eu tiver que o fazer, farei dizendo que as oportunidades nunca são as mesmas para todas as pessoas. Mas a “meritocracia” está aí, fazendo adeptos e desconsiderado a desigualdade de oportunidades que existe para cada ser. Daí um espírito de que aqueles que têm menos oportunidades devem se sujeitar às condições desumanas de trabalho tão somente para não terem de depender de ações sociais, governamentais ou não.

O mito do “se o outro não trabalha como eu, não pode comer como eu, viver como eu”, que é muitíssimo difundido, sendo repetido por quase todas as pessoas, é fruto da ideia (mais falsa de que dizer que amanhã choverá para cima) de que o esforço pessoal é a única fonte de riqueza, desconsiderando os fatores regionais, as heranças, os ganhos ilícitos e até a sorte. É um mito gerado numa certeza ignóbil de que o outro não merece. O egoísmo é o espírito maior na nossa sociedade, e ele não pode existir sem o determinismo sofista daqueles que repetem tais discursos. 

Existe algo mais determinista que desejar que o outro não poderá comer só porque não se mata de trabalhar? Sim, existe. E é o próximo item deste texto: 2 – A homofobia e a proibição do casamento homossexual. Dia destes vi uma passagem que dizia, de forma engraçada, algo bem sério: “Desejar que alguém não se case com outra pessoa do mesmo sexo porque sua religião proíbe é como desejar que outra pessoa não coma biscoitos só porque você está de dieta.” As proibições deste tipo são sim as piores.

Alguns fenômenos sociais deram à algumas ideologias um que de “vá e conquiste o mundo”.  Assim é que se convocam mestres deterministas a irem às ruas protestar, atravessar oceanos, provocar guerras, e dar tiros em quem não concorda. Assim, a bondade estaria ali se manifestando por meio da espada para que, um dia, todos estejam bem doutrinados e não mais haverá guerra. Assim surgiu o determinismo que vemos hoje na falácia homofóbica de que “segundo a minha ideologia, vocês dois, que não compartilham da mesma ideologia que eu, não podem se amar”. Por quê? “Por que eu sou Deus.”

3 – O mito da opinião pública. Este último exemplo, de forma breve, traduz um pensamento que é predominante: o de que “a voz do povo é a voz de Deus”. Isso é um grande mito. A voz do povo nunca foi a voz de Deus. Custa muito ler o livro sagrado para se lembrar de que o povo decidiu crucificar o Messias? A voz do povo nunca foi um interesse coletivo, e foi uma opinião individual, pois sempre considera um desejo individual. Um exemplo: a pena de morte. Uma parcela enorme da população defende a pena de morte, e é muito óbvio que se trata é uma decisão egoísta, que não considera em nada um interesse coletivo. Assim é em quase tudo a opinião pública: uma soma de interesses individuais, e nunca o interesse coletivo. E assim todos se comportam no determinismo sofista, egoístico, na falsa presunção de divindade. Nada é mais pessoal que as ideologias que defendemos. Mas o que nos daria o direito de, num lapso eterno de loucura, de nos comportamos como determinantes da sorte alheia? Só mesmo a (auto) divindade.

 

O autor é advogado em Bauru