08 de julho de 2026
Bairros

Um bairro chamado Centrinho

Dulce Kernbeis
| Tempo de leitura: 11 min

Éder Azevedo
O grande movimento ligado ao “hospital do Centrinho” estimulou o crescimento do comércio e de serviços nas imediações

Bem antes de deixar Bauru e suas atividades junto ao “Centrinho” - Hospital de Reabilitação de Anomalias Craniofaciais, o HRAC -, José Alberto de Souza Freitas, o “tio Gastão”, estava incomodado com a palavra “Centrinho”. Achava que o termo, apesar de carinhoso, perdia toda a pompa e circunstância que o órgão então detinha há algumas décadas, e confidenciou isso a esta repórter. “Já não somos mais um centrinho, há tempos somos um hospital e temos que ser reconhecidos como tal”.  Isso foi dito lá em meados dos anos 2000.

Para quem não sabe, “tio Gastão” era o diretor do Hospital e um de seus criadores.  E de fato, a fama do HRAC, com cinco décadas de trabalho, coleciona vitórias e conquistas que beneficiaram mais de 100 mil pacientes e levou o nome de Bauru como referência no tratamento e reabilitação de fissuras labiopalatais no mundo todo. Ao longo das décadas, o Centrinho-USP consolidou-se no cenário científico nacional e internacional, destacando-se como importante centro formador de recursos humanos e campo de desenvolvimento de pesquisas.

Centrinho por quê? Porque além de ser um apelido carinhoso - já que começou como um Centro de Reabilitação - é também o diminutivo. E se o então Centro cresceu a ponto de transformar-se em Hospital, também se pode dizer que o apelido ficou. E vai se perpetuando. Tanto que hoje não dá nome apenas ao hospital, mas também ao seu entorno, onde está encravado num bairro  com diversas peculiaridades.

Um destino certo: o Centrinho

O nome não existe oficialmente, mas sim no popular. Algumas pessoas ainda chegam a conhecer a região como Vila Universitária, mas poucos têm ideia de onde é a Vila Santa Tereza. Então, se a gente quer saber onde fica a maioria das pousadas da cidade, não tem erro, a resposta é: no Centrinho. Basicamente, é um quadrilátero de apenas oito quadras, onde mais de duas dezenas de pousadas estão instaladas. Mas em toda a região há muitos estabelecimentos comerciais - que vão de materiais odontológicos, vestuário branco, até lojas de comércio e restaurantes, dos simples aos sofisticados, para todos os bolsos.

Um bairro pequeno, mas densamente povoado e, ao contrário do que se imagina, com uma peculiaridade: as casas de família transformaram-se em comércio, pousadas, lojas de conveniência, pequenas farmácias, tudo para atender quem vai ao hospital.

O segundo lar de muitos brasileiros

Ao redor do hospital de reabilitação existe uma minicidade com moradores de múltiplas identidades e sotaques de diversas regiões  do Brasil

No Centrinho encontram-se pessoas de todo o País e até do Exterior. A maioria são pais  focados na possibilidade de reabilitação dos filhos, os pacientes. Do ponto de vista médico, o ideal é que o tratamento de quem nasce com fissura, e muitas vezes até sem o palato (o céu da boca), é que as cirurgias de recuperação sejam feitas tão logo os bebês nasçam e a necessidade de uma correção seja identificada, afinal, trata-se de questão genética. Assim, é mais do que natural que o atendimento contemple muitos recém-nascidos.

João Rosan
Luciana Alves dos Santos, mineira, tem o sonho de cantar em programa de calouro

Canção de Luciana

Mas há também quem persiga o sonho de estar com a fala 100% restabelecida na idade adulta. É o caso de Luciana Alves dos Santos, 37 anos, vinda de Belo Horizonte (MG) e que iniciou o tratamento pela segunda vez. Quando pequena ela fez correções. Frequentou a instituição por 12 anos e parou por 10. Agora retomou. Luciana tem um sonho na vida: “ser cantora e se apresentar no programa de calouros do Raul Gil”. Ela diz que a maior dificuldade já venceu: ter ritmo. “Sou bem afinada mesmo”, diz. Agora precisa terminar o tratamento para conseguir vencer o desafio do canto e perder o tom de voz anasalado. Como não pode pagar, para concretizar o sonho, além do atendimento no hospital que é totalmente de graça, Luciana ainda conta com a ajuda da Profis.

E o que é a Profis? Trata-se da Sociedade de Promoção Social do Fissurado Labiopalatal (Profis) de Bauru, localizada em frente ao Centrinho-USP. Apesar de não constar no nome, também presta assistência a pacientes com outras anomalias craniofaciais, síndromes associadas e deficiência auditiva. Foi fundada há exatos 40 anos.

Profis: suporte social aos pacientes e familiares

Cerca de 250 pessoas (entre pacientes do Centrinho-USP e acompanhantes) passam diariamente pela Profis. Entre os serviços oferecidos estão alimentação (café da manhã, almoço e ceia) e hospedagem (alojamento, banho, berçário e guarda-volumes).

A entidade oferece ainda sala de descanso com televisão, brinquedoteca para as crianças, apoio com medicação e informações sobre transporte, hotéis e pensões. Os motoristas de ambulâncias e carros oficiais que trazem pacientes a Bauru também têm à disposição as instalações e serviços da entidade.

Mães num vai e vem constante

Com localização estratégica, bem na porta de entrada do hospital,  a Profis é uma verdadeira casa. Com toda a comodidade a que os pacientes e seus familiares têm direito. Muitas vezes, frequentada por anos a fio, os pacientes sequer saem da quadra em frente ao hospital.

É o caso de Maria Aparecida Paula Dias, 38 anos, de São Francisco, Interior do Estado de Rondônia, a 100 quilômetros da capital Porto Velho, cidade de  Eliana Simon, 36 anos. Em comum elas têm o fato de serem casadas, deixarem filhos na cidade natal e virem acompanhar os dois meninos, que têm nomes parecidos e quase a mesma idade.

Aparecida é agricultora, “vim da roça mesmo”, e mãe de Alexandre,  de 8 anos, que passa pela rotina de cirurgias desde que nasceu.

Aparecida já fez de Bauru sua segunda casa. Perdeu a conta de quantas viagens fez. Deixa para trás a saudade de outros  dois filhos, do marido e dos dois netos, já que a filha mais velha tem 22 anos  e já casou. O mais novo tem 11, além do Alexandre, que é o caçula. Usa muito o telefone para aplacar a saudade. Por sinal, o orelhão da frente do hospital é o mais usado da cidade. Aparecida se sente grata pelo que tem aqui, mas não tem coragem de se aventurar por outros bairros. Não sai. Ela só fica entre o hospital e a Profis. “A gente vira acompanhante dele durante as cirurgias.”

Liberdade aos garotos

Às vezes, para dar mais liberdade ao filho Alexandre, como se estivesse no campo, Aparecida prefere ficar à sombra da árvore frondosa na porta do hospital. “Aqui a gente pega a sombra, espera passar o sufoco, às vezes tem muita gente, e respira um outro ar”, diz.

Para ela, hoje está mais tranquilo vir a Bauru. “Até porque agora tem avião mais fácil, bem mais direto. Mesmo assim, levo quase quatro dias de viagem entre sair da roça, chegar à cidade, depois pegar um ônibus até Ji-Paraná que é a cidade onde pego o primeiro voo. Saio na sexta-feira para estar no hospital na segunda. Mas antes era pior ainda. A gente parava em Campinas e depois tinha que fazer mais quatro horas de ônibus para chegar aqui. Isso economizou. Está melhor”.

Com ela concorda Eliana Simon, dona de casa, 36 anos, que vem há sete anos acompanhando o filho Alex e, sempre que vem, deixa  para trás mais três filhos (o mais velho de 19 anos) e o marido em Porto Velho. Eliana usa bem a internet no celular e é através de mensagens que consegue aplacar a saudade. Se dizendo “muito bem atendida”, fica observando Alex brincar com Alexandre. Só lamenta o fato de que não dá para cultivar a amizade “porque a agenda de cada paciente é diferente. Então, temos casa aqui, mas não vizinhas”, brinca, para dizer que não sabe quem encontrará na próxima viagem.

Comércio de pousadas abre dia e noite

Filosofia da instituição está também presente nos estabelecimentos prestadores de serviço do bairro, que vêm crescendo nos últimos anos

Se para os pacientes e seus familiares a passagem pelo Centrinho significa a história de uma nova vida, oferecendo ao ser humano a oportunidade de viver com suas diferenças sem, no entanto, ser discriminado por elas, o comércio e o tipo de estabelecimento implantado no chamado “bairro Centrinho” têm um diferencial.

Durante estas cinco décadas o bairro se moldou para atender a essas pessoas. São empreendedores que não só viram ali a oportunidade de construir sua vida e garantir a sobrevivência,  como também comungam da mesma ideia de melhorar a vida e, até criam novos produtos para atender a clientela diferenciada.

É o caso da loja de Rose Ambrosio, que já foi uma farmácia mas se adaptou para loja de presentes, sapataria, roupas e acessórios. “Não dá para concorrer com as grandes redes e uma dessas farmácias se instalou na avenida bem perto daqui”.

Mas Rose é a distribuidora de um produto único: talas para prender os pulsos dos bebês para que eles não consigam levar as mãos à boca. Feitas de tecidos especiais, eacolchoadas, elas ajudam na recuperação das crianças. Também vende as mamadeiras especiais porque as crianças têm dificuldade em sugar.

Mexer com esse tipo de comércio dá uma grande satisfação pessoal. Rose acompanha também o horário diferenciado do hospital. Quando há feriados prolongados e os funcionários suspendem os atendimentos e fazem as chamadas “pontes”, ela também não abre seu comércio.

Ao seu lado, o vendedor Bruno Pissuto, que atua na área há cinco anos, lembra que ainda é recordista em vender um produto que já caiu em desuso em vários locais:  o cartão telefônico. Mas lamenta o fato de que há muitos vândalos e o orelhão fica muito danificado. E a empresa telefônica tem demorado cada vez mais para consertar. “Tem semana que fica mais em manutenção do que em funcionamento”,  reclama.

Internet 24h

João Rosan
José Roberto serve o café da manhã às 6h e comemora as recentes ampliações da pousada

Para se comunicar com os parentes, bom mesmo é internet 24h. Esse é o diferencial da mais tradicional pousada da região. José Roberto Rubira, o Beto, 50 anos, acabou ficando com a pensão que era de sua mãe. Quando ela decidiu parar com o trabalho, deixou o estabelecimento para os quatro filhos. Beto comprou a parte dos irmãos e está na Pousada há 15 anos. Sempre ampliando “para cima”. “Já estou no terceiro andar, porque não tenho muito espaço aqui”, mostra ele e fala com orgulho dos 28 quartos do local.

“Tenho certeza de que estamos com mais qualidade e preço melhor do que muitos hotéis.” Aliás, o preço de uma pousada é bem menor, menos do que a metade de hotel. E ele se preocupa com o estilo da clientela. Tanto que equipou os quartos com micro-ondas para permitir que os alojados e seus familiares esquentem suas refeições.

Os cinco Estados com mais pacientes matriculados:

SP: 61.855..........................................(61,23%)

MG: 9.153...........................................(9,06%)

PR: 5.815.............................................(5,76%)

RJ: 2.528.............................................(2,50%)

MS: 2.397............................................(2,37%)

Numa rotina puxada, atendendo 80% de pacientes e 20% de estudantes, Beto lembra que começa a trabalhar às 4h30 da manhã. Às 6h o café já está sendo servido para que os pacientes possam ir ao hospital. “Não é fácil aguentar as filas lá ou ficar de acompanhante com a barriga vazia”, diz o dono da pousada.

Ao longo destes anos, Beto também viu o número de pousadas crescer. E elas proliferam mesmo. Num espaço de apenas oito quadras, pelo menos mais de duas dezenas se instalaram ali. Eram casas de família que tiveram o perfil modificado. Se a concorrência é grande, seus diferenciais também, com wi-fi, tv a cabo e área de lazer que inclui até piscina.

‘Projeto 3ª Idade’

Desde abril deste ano, uma iniciativa da Profis - em parceria com a Prefeitura Municipal - está beneficiando idosos de Bauru. Realizado na entidade nas tardes de terça e quarta-feira, o ‘Projeto 3ª Idade’ oferece diversas atividades gratuitas como palestras, orientações, artesanato, passeios, entre outras. O objetivo é propiciar um espaço para convivência e fortalecimento de vínculos.

Atualmente, 14 pessoas com mais de 60 anos participam do projeto. Associação mais antiga existente nessa área, a Profis é uma entidade de fins filantrópicos, com títulos de utilidade pública nas esferas municipal, estadual e federal. A instituição é mantida por contribuições voluntárias. Além disso, oferece cursos de aperfeiçoamento e especialização em odontologia como forma de arrecadar recursos que são aplicados totalmente na área assistencial.

João Rosan
Célio é dono de um pequeno mercado na região

Sem reclamação

Outro que não pode reclamar é o empresário Célio Edmundo Dionisio, há 15 anos dono de um mercadinho na região. Ele diz que o comércio na região já foi melhor. “A gente vê que a ocupação já foi melhor no próprio hospital, hoje a gente percebe que o número de pacientes também caiu porque muitos dependem da ajuda do governo para se locomover, de programas de prefeituras e todos estão com o freio de mão puxado”.

Nas ruas do entorno também cresce o número de barracas de lanches e de puxadinhos para atender o público. Uma alternativa aos restaurantes. Mas estes também aumentam. E se os de comida caseira são uma constante na região, é bom evidenciar que vários bares próximos têm o movimento ampliado durante a semana. É que são frequentados também pelos estudantes dos cursos de mestrado, doutorado, entre outros. Não é difícil encontrar jovens de jaleco nos locais.