Enquanto o governo Dilma Rousseff passa por uma das piores crises econômicas das últimas décadas, surgem fórmulas sacadas da cartola como coelhos para suprir o déficit orçamentário. Uma das mágicas foi a do retorno da CPMF. Parece que nasceu morta. Para compensar a rejeição desse imposto sobre as movimentações financeiras surgiu, numa reunião com a presidente, a ideia de se legalizar os jogos de azar. O projeto conta com muitos adeptos no Congresso. Saudosistas do bingo e alguns sobreviventes do tempo do Cassino da Urca e do Quitandinha. É a grande aposta de alguns senadores.
Os jogos de azar estão proibidos no Brasil desde o tempo do presidente Gaspar Dutra, em 1946. A mulher do marechal presidente, d. Santinha, ficara horrorizada com a sina da comadre que perdera na roleta toda a poupança amealhada pelo marido, enquanto viveu. Com uma penada, Dutra mandou fechar todas as casas de jogos. Sobreviveu o jogo do bicho, indestrutível graças à parceria dos bicheiros com a polícia. Como se trata de contravenção penal, ninguém fica mais que algumas horas na cadeia. Assim mesmo, como instrumento de pressão da própria polícia quando resolve impor a autoridade, porque os operadores tendem a negligenciar nas propinas.
Em 2003 Lula defendeu a legalização do bingo, como “fonte de desenvolvimento do esporte”. Teríamos assim, os atletas olímpicos alavancados com parte do dinheiro arrecadado pela antiga “tômbola” trazida pelos italianos, e que até hoje é passatempo das viúvas e aposentados. Até Bauru viveu seu momento Las Vegas. Um edifício especialmente projetado para o bingo chegou a ser construído na Av. Getúlio Vargas.
Ficou sem uso porque o governo Lula voltou atrás, na esteira do escândalo do bicheiro Carlinhos Cachoeira, e o envolvimento no esquema de propinas do bauruense Waldomiro Diniz. Este ex-cobrador dos ônibus do Quaggio, surpreendentemente havia se transformado em assessor de José Dirceu, ministro-chefe da Casa Civil. Lula saiu dessa com uma pérola: “Quero gerar empregos, ajudar o esporte, mas não posso legalizar o crime organizado e a lavagem de dinheiro.” E em tom indignado: “Daqui a pouco vão me pedir para legalizar a prostituição infantil em nome da criação de empregos”. Trágico como um Otelo, numa versão mal ajambrada de Shakespeare.
É claro que, ao lado das desvantagens poderiam surgir coisas boas, como a do incremento ao turismo internacional, em certas áreas. Mais dinheiro para a saúde, para o esporte e a educação. Assim como já faz o jogo oficial operado pela Caixa Econômica. Todos os países vizinhos ao nosso têm cassinos. A Gol tem o “voo dos viciados”, para levar brasileiros aos cassinos de Punta del Este, no Uruguai. Vai na sexta e volta domingo à noite. Ainda dá para puxar um fuminho, sem aporrinhações. Os brasileiros deixam muito dinheiro lá fora, nas casas de jogos do Paraguai e da Argentina, na fronteira de Foz do Iguaçu.
Existem cassinos luxuosos em 350 reservas indígenas nos Estados Unidos, a demonstrar que índio quer mais do que apito. Se o bilionário Donald Trump manda em Atlantic City, a meca dos jogos, por quê os peles vermelhas não podem explorar o próprio território? A Suprema Corte reconheceu esse direito. Aqui, os tapuias ainda não perceberam essa possibilidade. Lá, eles reservam parte do dinheiro para proteger a floresta. Aqui, eles derrubam as árvores de madeira de lei para fazer dinheiro. Para garantir uma severa fiscalização das regras do jogo, em Bangkok paga-se aos policiais para recusarem suborno. A ideia acaba de receber o Prêmio IgNobel, de Harvard.
O grande problema é o jogador patológico, psicologicamente descrito por Dostoiévski, em “O jogador”. O próprio autor teve uma paixão descontrolada pela roleta, que o levou à ruina e ao desespero. O personagem de Dostoiévski, Aleksei Ivánovich, na miséria por causa do jogo, encontra com um amigo que lhe dá dinheiro para comer, e ele volta ao cassino. Escritos freudianos equiparam o jogo a um ato masturbatório, com relações com o narcisismo. O desejo inconsciente de perder, jogando para aliviar sentimento de culpa.
Voltando ao doloroso assunto “Brasil” à deriva. Às vésperas da queda de Jango Goulart, em 31 de março de 1964, o estadista San Thiago Dantas, que era de esquerda, disse que um país sem planejamento e um orçamento rigoroso precisava encontrar, urgente, um novo condottiere. Nem que seja para pior. Esse sentimento está cada vez mais forte.
O autor é jornalista e articulista do JC