| Fotos: Alex Mita |
| Américo e a esposa hoje e, logo abaixo, a pose clássica do casamento em julho de 1950 |
O aniversário será nessa segunda-feira (21). Mas a comemoração em família já acontece neste domingo (20). Américo Beghini é um homem privilegiado. Completar 99 anos de vida não é para qualquer um. Muito menos chegar até aqui andando com as próprias pernas, com a cabeça boa, com ótimas recordações e ainda querendo fazer das suas. “A semana passada, quando o antigo posto de saúde aqui da Bela Vista pegou fogo, ele queria ir lá ver direito o que estava acontecendo ou ainda ajudar alguém”, conta a esposa Maria Aparecida Gigliotti Beghini.
E é ao lado dela, na casa onde vivem na Bela Vista, que fomos encontrar o aniversariante. Um homem de bem com a vida, bem-humorado e cheio de histórias para contar.
Jornal da Cidade – Vamos então começar pela história mais recente: quer dizer que o senhor queria ir lá no incêndio do antigo posto de saúde da Bela Vista...
Américo Beghini – Para ver se podia ajudar, sempre se pode fazer alguma coisa.
JC – Estou sabendo que o sr. já foi mesmo herói...
Américo Beghini – Isso foi lá atrás quando eu trabalhava na Granoplast (indústria de Bauru) e um dos companheiros ficou preso numa das máquinas elétricas, tomando um choque. Todo mundo viu ele se retorcendo, gritando, grudado e eu tive a perspicácia de correr desligar a chave do disjuntor, ele caiu, mas foi socorrido a tempo e se salvou. [Seu Américo conta isso mostrando a homenagem da empresa, onde, depois do episódio, tornou-se um dos responsáveis pela segurança dos trabalhadores].
JC – O senhor trabalhou muito tempo lá?
Américo Beghini – Foram 46 anos. O suficiente para tirar de lá meu sustento e o da família e ainda fazer muitos amigos. Em 1978 fui até indicado para a campanha de Operário Padrão. Aliás, fiz amigos em Bauru toda. Aqui na Bela Vista todo mundo me conhece. Só lamento que passam aqui todo dia, me cumprimentam e como estão no volante não dá nem tempo para a gente saber quem é... [risos]. Todo mundo tem muita pressa hoje em dia. Mas também fiz muitos amigos no futebol.
| Alex Mita |
| Américo Beghini mostra sua foto de quando foi campeão amador de Bauru com uniforme da então Liga Bauruense de Esportes |
JC - O senhor passa o dia na varanda?
Américo Beghini – É onde gosto de ficar, aqui me sinto livre. Antigamente andava o dia todo pelo bairro, mas hoje já fico com medo de cair, não tenho tanta firmeza. Mas gosto de passear. Saio com os filhos, com os netos. Aqui nesta mesa eu jogo carteado – além da mulher tem vários conhecidos que me acompanham no joguinho, por puro passatempo, ouço os passarinhos e vejo a vida passar. Estou nesta casa desde 1953. Entrei e nunca mais saí. De dia é aqui fora. De noite, na televisão.
JC – O senhor se casou quando?
Américo Beghini – Nós nos casamos em 1º. de julho de 1950. Tivemos quatro filhos, tenho sete netos e nenhum deles quer me dar um bisneto, estão demorando demais [risos]. Até hoje comemoramos nossa vida juntos e o Dia dos Namorados. [Aqui dona Cida interrompe a entrevista aos risos, brincando que se ganhasse “só um tostãozinho por cada ‘benhê’, ‘bem’ e ‘Cida’ que ele fala o dia todo, estava rica”). Minha mulher, Maria Aparecida Gigliotti Beghini, parente daquele lendário locutor de futebol, do “abrem-se as cortinas”, o Fiori Giglioti: eram primos.
JC – Falando em futebol: o senhor é o único vivo da primeira equipe campeã do futebol amador de Bauru.
Américo Beghini – Estou resistindo [risos]. E me orgulho disso. Também fico feliz porque fui homenageado pelo Troféu Ligado (que premia as personalidades do esporte bauruense) em 2012.
JC – Mas o senhor marcou uma época mesmo no futebol daqui, não é?
Américo Beghini – De fato, tive uma carreira marcante. Ameriquinho é como eu era conhecido. Joguei no Corinthians do Bela Vista e Canto do Rio, com o elenco que conquistou o primeiro campeonato varzeano de Bauru, em 1944. “Canto do Rio” porque era uma turma que morava num canto do ribeirão Bauru e tinha os outros que eram de clubes de bairros mais importantes. Nós éramos do cantinho [risos]. Foi o primeiro ano que foi disputado o Campeonato Varzeano de Futebol. Foram 13 clubes e fomos campeões invictos. E fui zagueiro.
JC – E o senhor é de estatura baixa.
Américo Beghini – Isso, tenho 1m62 e fui beque, beque central, como se falava na época. Mas eu compensava com a impulsão, subia muito mesmo. Então atacante achava que ia ganhar de mim, nas bolas cabeceadas, bolas altas, mas não ganhava, não. Além disso tinha um chute forte, potente de longe.
JC – Depois que parou de jogar foi árbitro...
Américo Beghini – Por mais de dez anos e ainda era dirigente da Liga Bauruense de Futebol Amador (LBFA), onde fiquei uma década.
JC – É verdade a história folclórica que o senhor anulou errado um gol e chorou por isso?
Américo Beghini – É uma passagem triste. “Fui apitar uma partida entre Corinthians do Bela Vista e Triagem. O irmão do Toninho Guerreiro, o Bi, jogava pelo Corinthians. Teve um escanteio e o Bi, que não tinha um braço, virou e matou a bola, que caiu no pé esquerdo dele e dali para o gol. Eu estava localizado nas costas dele e de onde estava anulei o gol, achando que ele tinha usado a mão para ajeitar para o pé. Eu invalidei o gol. Depois quando ele reclamou e vi direito senti, claro, que se ele não tinha o braço, como poderia ter ajeitado com a mão? Eu é que pensava que ele tinha posto a mão na frente, na bola. Nossa, fiquei tão chateado com o erro, pedi desculpas e o abracei. Até chorei mesmo.
JC – Mas não dava para voltar atrás?
Américo Beghini – Não, não, não. Já tinha invalidado, né? Mas no segundo tempo eles estavam perdendo de 1 a 0 e cavei um pênalti para ajudá-los. Marcaram o gol, recorda. E sabe que essa história virou folclórica. Todo mundo vinha tirava sarro em mim depois. Com o tempo absorvi o sentimento de culpa, passou.
JC – O senhor se comunica muito bem... Estudou o quê?
Américo Beghini – Não estudei nada, não. Só tenho o “grupo escolar”, feito no antigo e único grupo da cidade, bem no centro, onde hoje é o Colégio São José. Depois o meu pai já precisava de mim para trabalhar.
JC – O senhor nasceu onde exatamente?
Américo Beghini – Na Barra Bonita, na verdade numa fazenda, me criei numa localidade chamada Campos Salles que era da família daquele que foi presidente [Manuel Ferraz de Campos Salles]. Me recordo de um dia em que ele e sua família esteve lá e dormiu na fazenda. Foi uma festa grande.
JC – E, afinal, quando veio para cá?
Américo Beghini – Era meninote ainda. Em 1929. Éramos nove irmãos. Dois mais velhos já estavam aqui, daí mandaram buscar o pai, a mãe e outros cinco. Outros dois tinham ido para outras cidades. Acompanhei muito da história de Bauru. Vi esta cidade crescer. Bauru teve muita história, muita importância no cenário político. Mas tem uma coisa que ainda me marcou muito, lá na Barra, ao longo da estrada de ferro. Foi quando houve a revolução tenentista [movimento que começou em São Paulo contra o governo Arthur Bernardes]. Os militares passavam nos trens e jogavam balas de fuzis para quem ficava fora acenando para eles. Depois essas balas, compridas, eram talhadas pelos ferramenteiros e viravam cabos de faquinhas”.
JC – Aqui o senhor teve seus filhos e nunca mais saiu, né?
Américo Beghini – Infelizmente o mais velho, Edson Luiz, que teria 64, morreu aos 24 de acidente de carro. Mas deixou nora e neta. Sabe, eu não estudei muito, e acho que trabalhar não tira pedaço, mas o jovem hoje tem que estudar. Estudar e depois trabalhar. É muito importante isso, viver em linha reta, viver para a família. Eu nunca fui de ficar em boteco. Tem que andar direito.
JC – A essa vida regrada o senhor credita a longevidade? Ou é genético, de família mesmo?
Américo Beghini - De fato minha família é de viver bastante. Dos meus irmãos ainda tenho duas irmãs vivas, uma de 94 anos e outra de 96. Mas acho que ajuda andar muito, beber pouco. Uma cervejinha todo dia não faz mal a ninguém. Para mim é sagrado isso. Tomo todo dia. E tomo também um trago de Cinzano, o legítimo, antes do almoço, para abrir o apetite. Quando perguntam: “vai uma cervejinha?”, respondo: “Para mim cerveja não vai, vem”. [risos].
PERFIL
Nome: Américo Beghini
Local de nascimento: Barra Bonita
Esposa: Maria Aparecida Gigliotti Beghini
Filhos: Edson Luiz (falecido), Jorge Luiz (62 anos), Claudete Aparecida (58 anos), Américo Jr (54 anos) e 7 netos
Time: Palmeiras, sou descendente de italiano, né?
Gosta de: adoro esporte, vejo todos os jogos na televisão
Não gosta de: Novela, não. Ah! Gosto do Ratinho
Noroeste: espero que melhore em relação ao ano passado
Seleção: está mal, depois da Copa, então! Que vexame!
Para quem dá 0: para a política atual do PT. Para a mulher (a Dilma), que coisa!
Para quem dá 10: Se fosse vivo o padre Godofredo (da paróquia N. Sra. Aparecida). Como ele já morreu, para o atual papa, o Francisco.