08 de julho de 2026
Geral

Maus-tratos, abandono e violência

Tisa Moraes
| Tempo de leitura: 6 min

Uma população que continuará crescendo em ritmo acelerado e que requer atenção cada vez maior do poder público responde por números preocupantes em Bauru. Somente de janeiro a agosto deste ano, 375 idosos foram vítimas de maus-tratos na cidade, considerando apenas as ocorrências que chegaram ao conhecimento da Secretaria Municipal do Bem-Estar Social (Sebes). Trata-se de uma média de 47 casos por mês.

Quase sempre, são vítimas que sofrem dentro de casa, por conta de negligência (138 casos), abandono (79), violência psicológica (139) ou física (19). Os dados foram revelados ontem, em evento que abriu a Semana Municipal da Terceira Idade (leia mais ao lado).

E justamente por seus algozes serem, na maioria das vezes, parentes próximos, há dificuldades para as denúncias chegarem ao conhecimento das autoridades. 

“Há situações em que o agressor é o próprio filho. Às vezes, o vizinho denuncia e, quando as equipes vão checar, o idoso fala que é bem tratado. Por mais que ele esteja sofrendo, o vínculo afetivo não se encerra e este idoso teme que o familiar seja preso”, observa a titular da Sebes, Darlene Tendolo.

Ela destaca, contudo, que o volume de casos que vêm à tona é, por si só, “assustador”, já que as denúncias chegam todos os dias. Uma das mais recentes, ainda não incluída nesta estatística, foi a de uma mulher de 88 anos, que possui problemas de saúde e foi negligenciada pelo filho, com quem mora em um imóvel do Jardim Flórida. Ela só foi socorrida após a Polícia Militar receber denúncia de vizinhos.

Conforme o JC noticiou, a idosa foi encontrada suja de fezes, situação também constatada em alguns cômodos da casa. Encaminhada ao Pronto-Socorro Central, a vítima segue internada no Hospital de Base e já está sendo acompanhada por equipes da Sebes.

Darlene afirma que a pasta possui diversos serviços para atendimento e até acolhimento de idosos que sofrem maus-tratos. Mas, quando há necessidade de abrigamento, uma das dificuldades é convencer o idoso a sair de casa, uma mudança que transforma completamente sua rotina.

“Não é um procedimento tranquilo de conduzir ou que pode ser feito de uma hora para outra. Muitos idosos, afastados da família, podem ter sintomas de depressão intensificados e até morrer. Por isso, tirá-los de casa é sempre o último recurso”, pontua.

Acolhimento

 

Uma das alternativas é procurar familiares que possam acolhê-los. Mas trata-se de um desafio difícil de superar, já que idosos, mesmo com os avanços da medicina, requerem cuidados especiais devido aos comprometimentos físicos e mentais que começam a aparecer nesta fase de vida. 

Quando outras saídas não são encontradas, as vítimas podem ser encaminhadas para abrigos como a Vila Vicentina e a Associação Beneficente Cristã (Paiva), para uma das quatro residências inclusivas que recebem pessoas da terceira idade com deficiência mental leve, para uma república de idosos ou ainda para a Casa Lar de Idosos, para abrigados que possuem deficiência neurológica ou mobilidade reduzida. O número de vagas, contudo, não é elevado e a administração municipal já se mobiliza para ampliar os serviços, devido ao crescimento acelerado da demanda. 

“No ano que vem, pretendemos inaugurar a Vila Dignidade, um condomínio com 18 residências no Núcleo Rasi que irá receber idosos em situação de vulnerabilidade. O serviço será gratuito e terá acompanhamento de equipes técnicas de assistência social e saúde”, completa Darlene. Os profissionais, assim como o terreno, serão disponibilizados pela prefeitura, enquanto a construção dos imóveis será financiada pelo governo do Estado.

Semana

Foi aberta ontem, no Teatro Municipal, a 17.ª Semana Municipal da Terceira Idade. O evento terá 11 dias de uma extensa programação, que será desenvolvida em diversos endereços da cidade. 


Entre as atividades previstas, estão palestras, aulas de zumba, show de talentos, show de prêmios, caminhada, baile, mesa-redonda, capacitação profissional e os Jogos Bauruenses dos Idosos (Jobi), com várias modalidades. A semana é uma realização da Prefeitura Municipal de Bauru, por meio da Secretaria Municipal do Bem-Estar Social, em parceria com o Conselho Municipal da Pessoa Idosa (Comupi). 

Famílias ‘desajustadas’ preocupam

Obviamente, famílias de baixa renda não amam menos os seus idosos do que as com maior poder aquisitivo. Mas, quando há disponibilidade de recursos financeiros, solucionar as demandas dos parentes que envelheceram é sempre uma tarefa mais simples.


Contratar um cuidador em tempo integral, deixar o familiar sob os cuidados de um parente que não precise trabalhar ou interná-lo em uma clínica bem estruturada são algumas das soluções possíveis. Contudo, quando o ambiente doméstico é desajustado, a falta de recursos pode ser o estopim para o início de conflitos com idosos, que demandam atenção especializada.


“A violência raramente é física, já que pode ser facilmente comprovada. São mais frequentes, por exemplo, os casos em que o familiar mantém o idoso em casa para se apropriar de sua aposentadoria e o deixa abandonado, humilhado, sem qualquer suporte”, pontua a secretária Darlene Tendolo.

Comupi destaca a necessidade de ampliar serviços de abrigamento

Bauru possui diversos serviços para fazer o idoso movimentar o corpo e a mente, mas, na avaliação do Conselho Municipal da Pessoa Idosa (Comupi), faltam vagas para abrigar os que estão em situação de vulnerabilidade, abandonados ou negligenciados pela própria família. “A demanda é muito grande e, possivelmente, nem mesmo com a inauguração da Vila Dignidade será possível suprir a necessidade de Bauru. Precisaríamos de mais”, aponta a presidente do órgão, Ana Maria Benjamim.


Ela lembra, contudo, que as casas de passagem e o abrigo para mulheres vítimas de violência também acolhem pessoas idosas, embora não tenham sido criadas especificamente para elas. Da mesma forma, serviços como o Centro de Referência Especializado de Assistência Social (Creas) e Centro de Referência de Atendimento à Mulher em Situação de Violência também prestam atendimento e encaminham moradores da Terceira Idade para os serviços existentes na cidade.

Entre eles, estão os 11 centros de convivência  específicos para idosos, que desenvolvem programas e atividades culturais, sociais, intelectuais e de lazer para esse público. O 12º, no Jardim Redentor, deve ser inaugurado até o ano que vem.

No ano passado, o município instituiu o Centro de Convivência Intergeracional Paz e Bem, localizado no Jardim Auri Verde, que promove a interação entre crianças e idosos. Há, ainda, o Serviço de Proteção Social Especial para Pessoas com Deficiência, Idosos e suas famílias (Seid), o Programa Municipal de Atenção ao Idoso (Promai) e outros desenvolvidos por entidades assistenciais voltadas para a terceira idade. 

Na cidade, os idosos podem encontrar opções de estímulo mental e físico na Universidade Aberta à Terceira Idade da Universidade do Sagrado Coração (Uati/USC), no Serviço Social do Comércio (Sesc), Serviço Social da Indústria (Sesi) e Associação dos Aposentados. Até o ano que vem, o município pretende inaugurar, ainda, o Centro-Dia, no Núcleo Mary Dota, que funcionará como uma “creche” e terá a construção cofinanciada por Estado e município.

Em ritmo acelerado

A população de Bauru, assim como a brasileira, está envelhecendo em ritmo acelerado. Com a queda das taxas de natalidade e o aumento da expectativa de vida, os idosos respondem por um percentual cada vez maior da população da cidade.

No último Censo realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2010, eles já somavam 44.941 habitantes, o equivalente a 13% da população. Enquanto o número geral de habitantes cresceu 8,8% entre 2000 e 2010, o de idosos avançou 36,8% no mesmo período.