08 de julho de 2026
Polícia

Idosa morre após ser "prensada" em elevador com a neta

Cinthia Milanez e Vinicius Lousada
| Tempo de leitura: 5 min

Samantha Ciuffa
Uma mulher de 85 anos morreu depois de ficar “prensada” com a sua neta, de 34 anos, na parte inferior do elevador de acesso

Uma mulher de 85 anos morreu após ser “prensada” entre o chão e a plataforma do elevador de acesso da 21.ª Subseção da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) de Bauru, na Vila Universitária, ontem à tarde. Maria da Silva estava com a neta Priscila da Silva Lima, 34 anos, que chegou a fraturar as pernas. Elas não eram advogadas e procuravam a ouvidoria do órgão (leia mais abaixo).

Para ter acesso ao piso superior, avó e neta acionaram o elevador, inaugurado há menos de duas semanas. Contudo, elas não perceberam que o equipamento não estava no piso térreo, onde ambas se encontravam. Por motivos a serem apurados, a porta abriu e as vítimas entraram. Em seguida, a mesma porta travou e as duas ficaram presas enquanto a plataforma continuava descendo.


Um funcionário do órgão e outro homem que passava pelo local conseguiram retirar as vítimas debaixo da plataforma do elevador. O Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) prestou os primeiros socorros às mulheres, que foram encaminhadas ao Pronto-Socorro Central (PSC). Lá, a idosa não resistiu aos ferimentos e morreu. Informações do próprio PSC dão conta de que Maria sofreu um trauma no tórax e uma fratura exposta na perna.

Samantha Ciuffa
Vítimas ficaram ‘prensadas’ entre o chão e a plataforma e foram socorridas pelo Samu

Já a neta Priscila sofreu luxações nas pernas, porém, foi liberada ainda ontem, após receber atendimento médico. O delegado plantonista Roberto Cabral Medeiros se deslocou até a área do acidente e ao hospital. Ele registrou o caso como homicídio culposo e lesão corporal culposa (leia mais ao lado). A Polícia Científica também esteve na sede da OAB de Bauru para realizar o trabalho de perícia técnica.

O corpo de Maria da Silva começou a ser velado no fim da noite de ontem, na capela Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, que fica na rua Odil Pires da Silva, 2-56, no Parque Real. Até o fechamento da edição, a família não tinha informações sobre o sepultamento da idosa.

‘Tudo novo’

 

O presidente da OAB-Bauru, Alessandro Biem Cunha Carvalho, lamenta o que ocorreu com avó e neta, mas garante que a entidade dará toda a assistência necessária às vítimas. Inclusive, o diretor-tesoureiro do órgão as acompanhou até o hospital. 

O elevador liga o térreo ao primeiro andar e é usado para a acessibilidade de idosos e deficientes. “Desde a instalação, o elevador, que proporciona acessibilidade ao piso superior, não apresentou qualquer problema. Só a perícia irá constatar se houve falha técnica”, frisa Biem.

Ele argumenta que o elevador foi inaugurado no último dia 10 e, semanalmente, uma equipe de manutenção tem ido checar qualquer irregularidade que envolva o equipamento. “Se realmente for um problema técnico, a gente vai resolver. Caso contrário, o elevador continuará funcionando, mas, no início, a ideia é deixar alguém para orientar os visitantes”, pontua.

Porém, desde ontem, por conta das investigações, o equipamento está lacrado. 

Homicídio culposo

O caso foi registrado como homicídio culposo (sem intenção de matar), já que a idosa morreu após ser “prensada” entre o chão e a plataforma do elevador de acesso da OAB de Bauru, e também como lesão corporal culposa, porque a neta da mulher machucou as pernas. É o que alega o delegado plantonista Roberto Cabral Medeiros, que chegou a ir até o local do acidente.


O delegado explica que só a perícia constatará as reais causas desta fatalidade. Inclusive, as hipóteses, conforme o JC apurou, são de que houve uma pane elétrica que não travou a porta ou ela não havia sido completamente fechada da penúltima vez em que o elevador foi usado.

‘Fomos tiradas de lá quase esmagadas’, conta neta

Após perder seu companheiro, morto em janeiro deste ano, Maria da Silva morava com a neta Priscila, a sobrevivente da tragédia. As duas viviam sozinhas em uma casa no Parque Real. Ontem, na OAB, buscavam por justiça. 

Há cerca de um mês, elas já haviam procurado a entidade, denunciando um advogado que teria se apropriado indevidamente de cerca de R$ 20 mil referentes ao benefício assistencial ao idoso, ao qual o marido de Maria tinha direito e fora conquistado na justiça de forma retroativa. 

As duas foram chamadas, ainda na quarta-feira, à sede da Ordem, já no prédio definitivo, onde receberiam uma posição e um retorno sobre o caso. A audiência estava marcada para as 15h30 e elas chegaram com uma hora de antecedência. Mas não deu tempo...

Jornal da Cidade - Como aconteceu o acidente? 

Priscila Lima - Quando a gente chegou à OAB, a atendente perguntou se podíamos subir para o primeiro andar pelas escadas. Respondi que não, por causa das limitações da minha avó. Então, a funcionária nos levou ao elevador e abriu a porta. Disse que não tinha como errarmos o caminho. A gente entrou, só que não tinha botão nenhum para apertar lá dentro. Eu estranhei, mas quando me dei conta, o elevador já estava descendo e a porta, travada.

Aceituno Jr.
Priscila teve luxações nas duas pernas e ferimentos no braço

JC - O que fez a partir desse ponto?

Priscila - Foi tudo em segundos. Quando percebi o que estava acontecendo, tentei abrir a porta. Fiquei até com uns machucados no braço. Como não consegui, comecei a gritar desesperada. Nós fomos tiradas de lá já quase esmagadas. A altura da plataforma até o chão era muito pequena. Minha avó já tinha batido o rosto no chão e estava com o nariz sangrando.

JC - Como conseguiram sair de lá?

Priscila - Um outro funcionário quebrou a porta chutando ao ouvir meus gritos. A porta era de vidro, mas ele só conseguiu no terceiro pontapé. Daí ele me puxou, eu gritei que minha avó estava lá e, em seguida, a resgatou. Mas ela saiu inconsciente. Já era muito idosa. Não tinha como suportar a pressão, que chegou a quebrar o pé dela. Demorou para chamarem o Samu, mas eu sei que o pessoal da emergência fez o que podia. 

JC - A que atribuiu o ocorrido?

Priscila - Foi negligência pura. Mas eu não vou deixar impune. Não vou conseguir trazer minha avó de volta porque Deus a poupou de um sofrimento muito grande, só que eles vão ter que pagar. Para piorar, antes do socorro, uma mulher que trabalha na OAB começou a gritar, dizendo que eles não tinham responsabilidade. O policial que chamou atenção dela e falou que aquilo não era prioridade para o momento. Também não deixaram meu irmão fotografar o elevador porque estão tentando abafar o caso.