08 de julho de 2026
Articulistas

A palavra e a ferida

Roberto Magalhães
| Tempo de leitura: 2 min

Martelada no dedo? Claro, na boca explodirá um palavrão. Algo terrível aconteceu? Do fundo da alma - “Valei-me, Senhor”- arrancaremos a frase suplicante. Vantagem num negócio? Adoçaremos as palavras, hora de o outro enrolar. Momento decisivo de uma paquera? Todo cuidado é pouco. Uma palavra infeliz e a esperança amorosa vira amarga frustração. Para cada situação, a palavra necessária. Para cada interesse, o verbo dissimulado. Como dependemos das palavras... Incrível, mesmo quando nada delas queremos, mais delas precisamos. Hora de conversar fiado, hora de jogar palavras fora. 

Nada contra jogar palavras fora. As mais corriqueiras e despretensiosas podem unir pessoas sem nada dizer. Lamentável, contudo, é o manuseio ardiloso da palavra-pedra com que nos especializamos para o outro ferir. O mundo outro seria se não nos maltratássemos tanto com palavras. Desentendimentos, conflitos e separações nascem, na maior parte das vezes, da nossa boca agressiva. Seja na miúda conversa doméstica, nos encontros com amigos, ou mesmo nos salões entapetados dos poderosos, continuamos insistindo em vocalizar a mesma intolerância, raivosas acusações. Milênios de verbalização, tudo inútil, sequer aprendemos a conversar. 

Neste exato momento, dou-me conta de que o terreno movediço das palavras começa a me punir. Quem as usa, sabe do risco que corre. Temo que, em razão da minha torta reflexão, esteja fazendo exatamente o que, agora, não deveria: jogando palavras fora. Afinal, palavras e abobrinhas andam sempre de mãos dadas. Escuso-me, paciente leitor, mas eu queria dizer bem menos e acabei dizendo bem mais. 

A minha intenção era apenas e tão somente comentar a aguda poesia de Emily Dickinson, quando, em magnifica hora, resolveu nos dizer: “ Uma palavra morre quando falada alguém dizia. Eu digo que ela nasce exatamente nesse dia.” É bem isso, a palavra não morre. Quem morre somos nós, exatamente como os peixes, pela boca imprudente. 

Depois da palavra proferida, vem o silêncio, o que não significa que a palavra tenha morrido. Ela continuará mais viva ainda, acarinhando ou machucando a alma de quem a recebeu. Falando o que não devíamos, não percebemos, muitas vezes, que deixamos no outro uma ferida aberta, difícil de cicatrizar. 

“Verba volant, scripta manent”, a expressão latina tão conhecida outra coisa não diz senão que a palavra dita pela boca voa e morre, enquanto a palavra escrita permanece e documenta. Bobagem. Cada um de nós sabe ainda o quanto dói a palavra com que, um dia, alguém cortou fundo a nossa carne. Por outro lado, nem sempre sabemos, em igual medida, o quanto já ferimos com a mesma faca.

 

O autor é professor de redação e membro da Academia Bauruense de Letras - ABL