| Alex Mita |
| Gabriel Victor de Bessa Camareiro: “Não é porque eu sou pobre que deixo de ter oportunidades” |
Por trás dos longos cabelos de músico descolado, está o desejo de subir na vida. Gabriel Victor Gonçalves de Bessa Camareiro, 16 anos, não nasceu em berço de ouro, mas conquistou uma riqueza que poucos têm: aquela vontade incessante de aprender. Morador de Bauru desde que “se conhece por gente”, ele sempre estudou em escola pública e agora é semifinalista do Programa Jovens Embaixadores, que leva os adolescentes de baixa renda aos EUA.
Gabriel nasceu em São José do Rio Preto, mas, aos seis meses, mudou-se para Bauru junto à mãe Leila Gonçalves Leão de Bessa, 52 anos, após o abandono do pai. Aliás, essa mágoa aparente não impediu que o garoto sonhasse alto, pelo contrário, deu ainda mais forças a ele. Contudo, quando mãe e filho chegaram à cidade, nem tudo deu certo. “Nós morávamos em uma edícula situada no Mary Dota e nossas refeições se resumiam a arroz e água”, narra.
Essa vida difícil não o fez desistir de tentar mudá-la e o rapaz deu início aos estudos na Escola Estadual Professora Ada Cariani Avalone. Aos 7 anos, tornou-se integrante do projeto Guri, que incitou o desejo já borbulhante pela música. Quando completou 10 anos, Gabriel começou a ajudar em casa. Junto à mãe, que estava desempregada, o então menino dedicava noites a fio ao artesanato.
“Levávamos duas horas para montar um caixa que era vendida por, no máximo, R$ 6,00, fato que garantia a comida sobre a mesa”, revela. Entre uma caixinha e outra, Gabriel encontrou tempo para se dedicar à música e ao curso de inglês, que fazia via Internet. Aliás, a facilidade de compreender o idioma o fez descobrir outro talento: construir instrumentos musicais usando materiais recicláveis. E a ideia realmente funcionou.
Recompensa
Desde então, Gabriel participa de um projeto do Serviço Social da Indústria (Sesi), onde dá assistência aos alunos de música e conserta os instrumentos. “Não é porque eu sou pobre que deixo de ter oportunidades”, reforça o garoto. E esforço parece ter sido recompensado: ele e a mãe conseguiram, neste ano, um apartamento do programa Minha Casa Minha Vida (MCMV) via demanda dirigida.
Como a escola onde estudava é longe da nova casa, o jovem passou a estudar na Escola Estadual Professora Carolina Lopes de Almeida, no Jardim Godoy. Atualmente, ele está na 2.ª série do ensino médio e descobriu, sozinho, o programa Jovens Embaixadores, antes que a própria escola chegasse a divulgá-lo. Inclusive, se for selecionado na última etapa, o rapaz pretende seguir carreira na diplomacia.
Quem está toda orgulhosa é a mãe. “Se o Gabriel for selecionado, terei de ficar três semanas longe do meu filho, mas sei que é para o bem dele”. Leila não é a única a sentir orgulho. Inclusive, a vice-diretora da Escola Estadual Professora Carolina Lopes de Almeida, Ana Maria Belotti, diz que Gabriel é um exemplo a ser seguido pelos demais estudantes.
Rumo à embaixada
O programa Jovens Embaixadores existe desde 2002 e é uma iniciativa da embaixada americana, mas conta com a parceria das secretarias estaduais de Educação de todo o País, além de algumas escolas de idiomas. Ele ocorre anualmente e só é destinado aos estudantes de escolas públicas estaduais entre 15 e 18 anos. Os jovens têm de ter fluência oral e escrita em inglês, se engajar em atividades voluntárias, ser de baixa renda, entre outros pré-requisitos.
As inscrições são feitas via Facebook. A partir daí, se aprovado, o candidato terá de passar por uma prova dissertativa e outra oral, mas tudo em inglês. Cada Estado tem direito a número limitado de vagas e, em São Paulo, são apenas duas. Gabriel, de Bauru, e outra aluna de São José dos Campos estão representando o Estado, porque já passaram por quase todas as etapas. Só falta o resultado do final dos exames, que sairá no dia 23 de outubro.
No total, 50 jovens brasileiros embarcarão em uma viagem de três semanas até os EUA. Lá, conforme explica o coordenador do Núcleo Pedagógico de Língua Estrangeira Moderna da Diretoria Regional de Ensino (DRE) de Bauru, Fabio Angelo Aguiar, eles levarão uma pitada da cultura brasileira ao Exterior. “O Gabriel tem o perfil que o programa procura, ou seja, um jovem que faz trabalho voluntário e está preocupado com a própria educação”, finaliza.