Para quem está na fila de espera, receber um órgão é a esperança final de voltar a ter uma vida normal, e acima de tudo, sobreviver. Para quem está nesta situação, todas as outras possibilidades de tratamento já foram esgotadas ou não são possíveis. O transplante é a única chance de prolongar a expectativa de vida.
Aos 51 anos, Jeferson Terenciano convive há quatro anos com uma doença renal crônica chamada rim policístico. “Ela é hereditária, meu pai teve também. Os rins aumentam de tamanho, a um ponto em que precisam ser retirados, no meu caso isso aconteceu no começo deste ano. A hemodiálise para filtrar o sangue tem de ser feita três vezes por semana, e cada sessão dura quatro horas”, explica.
Morador de Piratininga, Terenciano vem às terças, quintas e sábados ao Hospital Estadual de Bauru para a hemodiálise, alterando completamente sua rotina. Instrutor de autoescola, ele está afastado das atividades profissionais justamente para tratar da saúde, convivendo ainda com restrição alimentar. “Temos que manter um controle do que comemos, não pode ter nada com muito fósforo e sódio, e também controlar a ingestão de líquidos, pois como não tem urina, sai tudo na máquina. Cada sessão de hemodiálise tira cerca de quatro quilos de líquido. Se você abusar e tiver que tirar mais do que isso, vai sentir, dá dor de cabeça, náusea, mal estar. Sempre tem oscilações, não se sente bem o tempo todo. Já aconteceu de tirar sete quilos em um dia, é um volume alto, acaba forçando mais”, pondera. O paciente também acaba evitando praticar atividades físicas, por conta do esforço.
Quanto à possibilidade de um transplante, ele mantém-se confiante, mas sabe que não dá para prever quando isso pode ocorrer – ele está há três anos na fila de espera. “É difícil falar, porque depende de um doador compatível. Para aumentar as chances, seria necessário que mais gente tivesse essa consciência de autorizar as doações de um parente próximo que faleceu. Eu tive duas irmãs que poderiam ser doadoras em vida, mas não eram completamente compatíveis, aí os médicos descartaram, porque tem que estar tudo perfeito. Até o fim do ano passado, eu fazia diálise peritoneal, em casa, mas, desde então, tive que vir para a hemodiálise aqui no hospital”, relata Terenciano.
“Como essa doença é hereditária, eu sabia que ia desenvolver e, desde 2011, estou tratando. Meu filho, aos 19 anos, já sabe que tem também, mas só vai manifestar entre a quarta e a quinta década de vida, como foi o meu caso”, completa.
Sobrevida
O tempo que uma pessoa pode viver após receber um novo órgão varia muito. Por se tratar de um procedimento complexo, de alto risco, o pós-operatório é delicado. É necessário observar ainda a questão da rejeição – exames detalhados são realizados antes do procedimento, mas sempre há este risco.
“As taxas variam muito. Há algum tempo, o Hospital Albert Einstein, de São Paulo, falava em 70% de sobrevida nos transplantes de fígado, ou seja, que sete em cada dez pacientes estavam vivos um ano depois. Hoje, esse índice, inclusive, já deve ser maior”, cita o médico Bruno Rosa Hercos, do Hospital Estadual de Bauru. Em transplantes bem sucedidos, há registros de inúmeros pacientes que vivem ainda por muitos anos e até décadas, sempre com acompanhamento médico periódico. “Tem gente que vive 15, 20 anos bem. A gente vê muito isso em pessoas que receberam um rim. A melhora da qualidade de vida já é nítida pelo próprio fato de ela não fazer hemodiálise”, avalia.
Medula óssea
O transplante de medula óssea é o único em que o doador tem que ser exclusivamente uma pessoa viva. Existe um cadastro nacional de doadores de medula, e os interessados em se tornarem potenciais doadores podem ir ao Hemocentro de Bauru (rua Monsenhor Claro, ao lado do Hospital de Base), local que faz este cadastro na região.
Decisão da família
Optar pela doação ou não de órgãos é de responsabilidade da família do paciente. O trabalho junto aos familiares é desenvolvido por profissionais, de maneira interdisciplinar, envolvendo médicos, enfermeiros, psicólogos e assistentes sociais, entre outros.
A enfermeira Daniela Arruda dos Santos Leite, da Comissão Intra-Hospitalar de Transplantes do Hospital de Base de Bauru, destaca que a abordagem às famílias sempre respeita as diferenças de opinião. “É sempre um momento delicado, pois a família está naturalmente abalada por um falecimento que acabou de ocorrer. O que fazemos é explicar como funciona a doação dos órgãos, mas é uma decisão que realmente cabe aos familiares”, cita.
O médico Alexandre Fabro ressalta que o trabalho junto às famílias é explicativo, sem interferência na decisão. “A gente não pode convencer o familiar a autorizar a doação. O que a gente faz é explicar como funciona o processo, mas a gente não pode interferir nisso”, comenta.
Doações em vida
Três órgãos podem ser doados ainda em vida: rim, fígado e pulmão. O caso mais comum é o dos rins, quando o doador – geralmente alguém próximo do paciente que vai recebê-lo – cede um dos dois rins. No caso do fígado, transplanta-se uma parte do órgão do doador, uma vez que ele se regenera. O pulmão, apesar de não se regenerar, também permite doação em vida. Porém, nos casos de fígado e pulmão, por se tratarem de procedimentos bastante complexos, os médicos autorizam as doações em vida apenas em situações bem específicas.
| Malavolta Jr. |
| Esperança: Jeferson Terenciano está há três anos na fila de espera por um novo rim |