Adolescentes e jovens fazem bocejo só de pensar em acordar pela manhã para ir à escola. Entre professores, alunos e pais é maciça a ideia de que o período escolar faz a moçada “acordar muito cedo”. Dependendo da distância entre a residência e a escola, ir à aula significa romper a madrugada antes mesmo da aurora, sem exagero. Para alento desse contingente, que vai se deitar tarde e acorda cedo e, por isso, dorme durante a aula, médicos defendem que o período escolar seja modificado.
Não há convergência entre os profissionais a respeito. Mas o tema está na rua e, claro, no bate-papo eletrônico entre jovens. Alguns médicos, sobretudo especialistas no estudo do sono, mantêm a posição mais na linha de comportamento, argumentando que o problema não é a quantidade de sono e o horário de início da aula em si, mas a hora em que esses adolescentes e jovens estão indo dormir. Muitos, têm razão os adeptos dessa corrente, chegam a invadir a madrugada quase todos os dias em casa (e até na rua), sem qualquer limite observado por pais omissos.
De outro lado, entretanto, estão os que compreendem as dificuldades dos pais em conseguir que seus filhos se recolham para dormir, por exemplo, às 21h, situação impraticável para milhares de famílias, seja em razão da mudança na rotina dos próprios familiares, seja, entre outros fatores, pela mudança de hábitos associadas ao uso de tecnologias, por exemplo.
O fato é que muitos dos pais já não dormem cedo. E, tal qual os filhos, acordam com alteração no humor, cansados e sonolentos. Entre os jovens, é reconhecido que há dificuldade na memorização e no nível de atenção logo pela manhã. Para quem tem aula com início às 7h, a tarefa de se manter acordado na primeira aula é uma briga com o corpo.
Controvérsias à parte, o fato é que, consultada, a moçada não só gosta da ideia de que a primeira aula tenha início mais tarde como promete fazer campanha junto aos pais e suas unidades escolares para que a medida seja adotada.
Entre os pesquisadores, sobretudo neurocientistas e profissionais do sono, há razões ligadas ao funcionamento do organismo, o relógio biológico, sobretudo do jovem, para amparar a defesa pelo início mais tarde do período escolar.
Especialista em medicina do sono, o professor John Fontenele Araújo é um deles. Ele combate a tese de médicos de que não há um tempo de sono ideal para cada pessoa. Fontenele reconhece que a maioria se satisfaz com sete ou oito horas por noite dormindo. Mas pondera que essa relação muda para adolescentes e jovens.
“Os adolescentes costumam dormir bem mais do que sete ou oito horas. E isso acontece não somente porque permanecem até tarde em jogos eletrônicos, no telefone celular ou vendo televisão. No adolescente. há uma explosão da liberação de hormônios, sobretudo ligados ao crescimento. E essa liberação acontece exatamente durante o sono. Por esta razão, eles precisam de mais horas de sono”, argumenta.
Médico formado pela Universidade Federal do Piauí, com mestrado e doutorado em psicologia na área de neurociências e comportamento pela Universidade de São Paulo (USP), ele considera natural a adequação do início da jornada escolar para os jovens.
A discussão é disseminada pelo mundo. O neurocientista Russel Foster, da Universidade de Oxford, assina artigo recenta na New Scientist, reiterando que a ciência comprova que os jovens precisam de mais tempo de dono do que adultos. A qualidade do sono tem relação diretamente proporcional com questões como a memorização. E se os jovens dormem ou ficam sonolentos durante a primeira aula na escola, discutem as pesquisas, a capacidade de memorização é prejudicada.
Por isso, escolas inglesas e americanas têm postergado o início das aulas para, pelo menos, uma hora mais tarde, pela manhã, para minimizar os efeitos da mudança de rotina em relação ao sono e, com isso, buscar melhora no desempenho entre os alunos. Em Londres, a UCL Academy foi apelidada de “Escola do sonhos” por “radicalizar” com o início das aulas às 10h. Em Portugal, o debate “socializou” no seguinte sentido: o início das aulas nas escolas foi estabelecido pensando na dinâmica e rotina dos adultos e não dos jovens!
Nos EUA, que assim como em vários países da Europa adota diferentes horários para início da aula pela manhã, levantamento da Universidade de Minessota demonstra que o rendimento dos alunos é melhor entre os que começam a estudar mais tarde. Os depoimentos revelam, na pesquisa, que a medida reduziu a incidência de jovens cochilando na sala de aula, ao menos. O fato é que a alteração, ou não, no início do período escolar é um tema ligado não somente ao rendimento dos jovens na fase de aprendizagem dos conteúdos mais densos, mas um fator de saúde.
Para especialista do sono, medida é produtiva
Para o especialista em medicina do sono, Carlos Henrique Ferreira Martins, o adiantamento do horário de início da aula coincide com a alteração das atividades entre jovens. “Acho que estender o início da aula pela manhã é uma medida produtiva não só para jovens e adolescentes, mas para crianças também”, opina.
Para o médico, “é preciso reconsiderar o início da aula às 7h em razão das evidentes mudanças no chamado relógio biológico dos jovens. O adiantamento de fase acontece muito entre adolescentes. O fato é que eles dormem tarde e empurram suas atividades a partir do vespertino e isso empurra atividades do dia para a noite. E essas mudanças atingem o organismo, inclusive a produção de hormônios”, pondera.
Carlos Henrique lembra que, grosso modo, as pessoas precisam considerar, na produção de hormônios pelo corpo, que a melatonina é o marcador do sono e o cortisol o marcador da vigília. “É evidente que a qualidade do sono noturno continua valendo para todos. Mas a partir da adolescência é complicado conciliar. Regra geral, para adultos, oito horas de sono são suficientes. Mas, para adolescentes e jovens, isso muda”, complementa.
Na visão do médico, ajustar o início da atividade escolar, pela manhã, ajuda na regulação entre o funcionamento biológico do corpo humano para jovens e o melhor aproveitamento da atividade educacional. “Estender o início da aula em uma hora, para mais tarde, ajuda nesse processo e também colabora para ajustar melhor a situação pelo organismo. Agora respeitar o horário de sono é fundamental para esse processo”, pondera Martins.
As pesquisas em torno da mudança do relógio biológico entre jovens estão em curso. Todas elas levam em conta a situação original básica: de que a partir do “clarear do dia”, pela manhã, há a liberação de cortisol para estabelecer a situação de alertas nas pessoas. E, ao anoitecer, por outro lado, a melatonina aparece para preparar o organismo para o descanso. O pesquisador pelo Departamento de Adolescência da Sociedade de Pediatria de São Paulo, Carlos Alberto Landi, aponta, por exemplo, em um de seus textos, que, a partir da adolescência, há deslocamento na liberação desses hormônios para mais tarde.
Esta seria a razão, segundo Landi, para que o adolescente demore mais para acordar, com manifestação de muito sono nas primeiras horas da manhã. Pelo mesmo raciocínio, a modificação na regulação da ação inversa, à noite, justificaria o aparecimento do sono mais tarde. Ele adverte que essas modificações biológicas são pouco conhecidas pelos pais e professores.
O tema, longe da academia ou não, existe como problema social a ser encarado. Algumas linhas de pesquisa defendem que, a partir da puberdade, há a necessidade de nove horas e meia de sono por noite. Para esse contingente de pesquisadores, há contrassenso em exigir atenção dos jovens no horário em que estão mais sonolentos, pela manhã.
O que acham os jovens?
Jornal da Cidade - O que acha da aula pela manhã começar mais tarde?
Sarlac Jabur Perini: Acho uma ótima ideia. Mas é claro que o aluno deve fazer sua parte de dormir no horário correto.
Laura Meyer Talon: Acho ótima essa ideia!
JC - Você tem dificuldade em acordar cedo? Qual sua rotina pela manhã antes de ir à escola?
Sarlac: Dificuldade pra acordar não tenho, mas também não é algo muito “confortável” de se fazer. Primeiro, eu tomo meu banho, depois escovo os dentes e passo desodorante. Depois disso, me visto e arrumo a mochila e tomo um remédio todo dia por causa de um problema de tireóide que eu tenho.
Laura: Tenho muita dificuldade de acordar cedo. É horrível. Acordo às 6h50, tomo café, faço minhas higienes matinais e me arrumo. E saio de casa por volta de 7h30.
JC - Você tem alguma rotina para ir dormir?
Sarlac: Sim. Eu durmo normalmente às 22 horas.
Laura: Não tenho muita rotina. Tem dia que fico estudando para a prova do dia seguinte e vou dormir de madrugada.
JC - O que faz, à noite, antes de dormir?
Sarlac: Antes de dormir, normalmente estou jogando games no computador. Mas, em época de provas, costumo estar estudando mesmo. Dias de semana, sempre durmo às 22H.
Laura: Depende do dia também, normalmente estudo ou leio e uso o meu celular. Nos dias da semana em que não preciso estudar, costumo dormir umas 23h30, no máximo. Se tenho prova no dia seguinte, não tenho hora para dormir.
JC - Faz sentido vincular a eventual mudança do início da aula com a missão de dormir em horário correto?
Sarlac: Sim. Ajuda se a aula começar mais tarde, mas isso depende de manter o costume para a hora de dormir.
Laura: Na minha opinião, ajudaria desde que dormíssemos no mesmo horário que dormiríamos antes da mudança...