08 de julho de 2026
Geral

"Questão é hora do sono e não da aula"

Nélson Gonçalves
| Tempo de leitura: 6 min

Em discussão científica, nem tudo o que reluz é ouro. Em relação à proposta de estender o início das atividades escolares, pela manhã, o periodontista, especialista no estudo do sono e um dos poucos de Bauru membro da Associação Brasileira do Sono, Eduardo Rollo Duarte adverte: “Depende!”. Ele argumenta, antes de tudo, que a medida, mitigatória ou não para a ocorrência de sonolência no início das aulas no período da manhã, precisa ser encarada, antes, sob o ponto de vista da relação entre pais e filhos, obrigações e limites.

Ou seja, para Eduardo Rollo é preciso que a discussão, salutar, não descambe para o senso comum com o objetivo apenas de focar o adiamento do início das aulas, deixando, com isso, de atacar o problema originário: a falta de regras e limites, e as responsabilidades na educação a partir dos pais.

“Não procede, objetivamente, que deslocar o horário do início da aula resolva a questão. A higiene do sono desses jovens e adolescentes está completamente errada. E não discutir isso é começar errado. O ciclo do sono é fotossensível entre noite e dia. Isso envolve discussão de conceitos e pesquisa. Mexer no horário da aula é mais uma transferência do problema para a escola do que enfrentá-lo. O problema original está dentro de casa, na falta de regras, na educação e nos limites que os pais deixaram de estabelecer junto aos filhos”, pontua.

Para Eduardo Rolo o que influencia é a quantidade de horas dormidas e não necessariamente atrasar o início da aula. “Como questão essencial, vale pensar sobre a quantidade de horas para se dormir. Portanto, dormir antes da meia-noite para acordar às 7h, por exemplo, é o referencial. Ou seja, ir dormir às 22h para ter nove horas de sono à noite. E essa é uma tarefa que tem de ser realizada dentro de casa”, lembra.   

Para Duarte, não se pode deixar de levar em conta o ciclo do sono em relação ao fator noite-dia. “Não é simples esticar o horário de acordar, porque às 7h já temos a luz do sol e o relógio biológico humano tem a função hormonal regulada pela noite e pelo dia. Estes fatores incidem sobre o ciclo circadiano (período de 24 horas no qual se completam as atividades do ciclo biológico dos seres vivos) e a liberação da melatonina. Ou seja, a luz do sol já promove o despertar. Por isso não concordo com a hipótese de esticar o início da aula”, opina.  

Eduardo Rollo acrescenta que outros pontos estão envolvidos. “Vale mais é repetir sempre a mesma escala de horário de sono, dormir em quantidade de horas certa e ir dormir cedo, no mesmo horário de preferência, para acostumar o relógio biológico interno ao ciclo circadiano”.

Outro impacto fundamental nisso tudo é, claro, o uso de tecnologias. “Tudo isso altera o processo de liberação de hormônios e ainda acrescento que aquela ‘luzinha’, nos aparelhos que ficam na tomada, atinge a retina a noite toda. É um veneno em forma de luz que a maioria não elimina, tirando o aparelho da tomada”, adverte.  

Mas, independentemente da discussão em torno do início da aula pela manhã, Rollo deixa claro que, do ponto de vista médico, é preciso ter como eixo central na discussão que dormir faz bem e, respeitando-se os ciclos naturais dos períodos do dia e da noite, crianças e adolescentes precisam levar em conta os melhores horários para manter a rotina mais adequada para seu crescimento e do funcionamento orgânico. “Sono com qualidade e por tempo necessário é fundamental para a produção do hormônio do crescimento, para restabelecer energia, o processo cognitivo e o fortalecimento da defesa imunológica do organismo. E tudo isso ocorre durante o sono, à noite”, reforça.

Ou seja, manter disciplina do sono é mais importante do que esticar o início da aula, na visão de Rollo Duarte.


Processo começa em casa

Para a secretária municipal de Educação, Vera Casério, há razoabilidade na discussão sobre mudança no início do turno escolar pela manhã, mas, apesar disso, ela também manifesta que o hábito dentro de casa, com horários e limites, é o essencial.

“Entendo a importância do jovem dormir 9 horas por noite e reconheço que muitos estão sonolentos em sala de aula, mas isso é um processo que começa em casa. Esticar o início da aula não resolve se o adolescente e o jovem não tiver disciplina para ir dormir. Esse controle é fundamental e é questão de saúde para os jovens inclusive, mesmo eles resistindo”, posiciona.

Para Casério, não dá para afastar a questão da responsabilidade dos pais. “Se não tiver regra dentro de casa, para dormir e para outras formas de comportamento, a família está deixando de exercer seu papel. É preciso criar o hábito e mantê-lo. E isso é papel dos pais”, enfatiza.        

Como educadora, a secretária pontua que não há qualquer divergência sobre o papel fundamental do sono para todas as pessoas, com ênfase para os jovens. “Eles precisam dormir nove horas por noite, está claro isso. Mas isso só vai acontecer se forem dormir no horário adequado, que permita isso. A deficiência no sono afeta sim a produtividade do aluno e interfere em outros processos, é questão de saúde. E é um problema recorrente ter aluno cochilando ou dormindo mesmo nas primeiras duas aulas sobretudo. Mas esticar o horário isoladamente não me parece algo que venha para resolver”, cita.


Horas de sono insuficientes

Para o dentista estudioso do sono Walter Silva Júnior, está claro que o número de horas de sono cumprido pela maioria dos adolescentes não é suficiente. “Além de irem dormir mais tarde, acordam muito cedo para a escola. E essa relação acaba ficando desfavorável. O prejuízo cognitivo é um dos principais. A sonolência excessiva, causada pela quantidade insuficiente de sono, diminui sobremaneira a concentração”, lembra.

Por esta razão, ele é simpático à mudança e lembra que, em alguns países, a alteração já produz resultados. “O início das aulas pela manhã mais tarde ajuda no melhor aproveitamento por parte do estudante. O que temos hoje é que ele dorme menos e isso significa menor aprendizado, com a memorização comprometida. E isso acontece exatamente na fase da vida em que o jovem precisa de mais sono”, pontua.

Ele ainda adverte para que os pais observem se o filho está sofrendo com distúrbios obstrutivos do sono, como a apneia, muitas vezes precedidos pelo ronco. “É imprescindível uma avaliação por profissionais habilitados. Os pais devem observar como seus filhos estão dormindo”, sugere.


Mudança seria interessante

Para a doutora em psicologia escolar, Marisa Meira, a alteração no início do período escolar não deve ser encarado como tabu. “Sou favorável à alteração do horário porque os jovens das novas gerações não podem dar conta de todas as suas atividades e dormir tão cedo. Trata-se de um impedimento objetivo. É claro que os pais devem colocar limites em relação a horários, mas dentro de um padrão razoável”, pontua.

Mas, para ela, é preciso reconhecer, como ponto de partida, que há um problema a ser sanado. “O que temos visto é que os jovens chegam sonolentos e pouco motivados à escola e que, mesmo com grande esforço, os professores não conseguem manter um mínimo de interesse pelo menos nos horários iniciais. Começar e terminar mais tarde seria interessante”, acrescenta.

De qualquer forma, Marisa é adepta de outra concepção, a escola de tempo integral. “Desse modo, pode-se garantir mais tempo de sono para os alunos sem nenhuma perda de conteúdo, além da possibilidade de poder oferecer alimentação de qualidade e outras atividades interessantes, tais como esportes, ensino de línguas, música, grupos de reflexão sobre temas de interesse, orientação sexual, entre tantos outros projetos”, menciona.