09 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

O jogo de xadrez e a política

Azis Neme
| Tempo de leitura: 3 min

Existe uma grave falha na minha formação. Não aprendi o jogo de xadrez, talvez o jogo mais fascinante jamais inventado. Claro, conheço as peças e sei movê-las. Mas, no xadrez, sou como um cego guiado por cão de guia. Não me dediquei à aprendizagem da totalidade. Eu perco sempre e rápido. Entendo que xadrez é um jogo de guerra. Ou de política. Porque política e guerra são a mesma coisa.


Xadrez: dois exércitos que se defrontam. O confronto só é possível porque há um espaço vazio. Se não houvesse esse espaço as peças ficariam imóveis, sem sair do lugar. O objetivo é mover as peças de tal forma que, ao final, o rei adversário fique sem saída e abdique. O que se chama xeque-mate. No tabuleiro estão presentes as forças, cada uma delas com um potencial de fogo diferente.


Assim, os bispos se movimentam sempre na diagonal. Os cavalos se movendo aos saltos. As torres, nas horizontais e nas perpendiculares. Os peões – infantaria – andam na frente, um passo de cada vez. Serão as primeiras vítimas na batalha. E a rainha, poder supremo que desliza nas horizontais, nas verticais e nas diagonais.


Com certeza, o inventor do jogo morava num país em que quem mandasse era a rainha, o rei sendo nada mais que um fantoche, um símbolo, uma simples bandeira, e que fica o tempo todo se escondendo por saber que o exército inimigo está atrás dele. Os jogadores tem liberdade para escolher o estilo, mas não tem liberdade para escolher as regras. Não é possível jogar o jogo de poder com ética. Porque o poder não conhece limites. É insaciável. Deseja ser absoluto. E a ética é um empecilho a essa pretensão.


Então que movimento fazer para derrotar o adversário?


Isso é verdadeiro para o jogo de xadrez, o jogo econômico e o jogo político. Maquiavel, Marx e Weber sabiam disso. A ética é sempre invocada pelos que estão perdendo. Não conheço caso de partido no poder que tenha invocado princípios éticos para colocar limites ao uso de seu poder. Transparência. (Que lindo princípio ético).


Somente um louco seria transparente! Ser transparente é ser vulnerável. E quem é vulnerável é fraco. O jogo de xadrez pode muito bem ajudar a entender o nosso momento político. Tudo se faz para “parecer ser”, e tudo se faz para evitar a transparência. Compreende-se o esforço do governo para preservar o rei. É preciso entender! Ninguém é culpado. Os jogadores não tem alternativas. Eles tem de se submeter às regras. Assim é a política. Sempre.


Lembro muito bem de um slogan que alguém escreveu num muro da Universidade de São Paulo, como sendo sua exigência política. “Queremos mentiras novas”. Quem o escreveu sabia das coisas. Sabia, também, que seria inútil pedir o impossível. Basta de mentias! Na política, apenas as mentiras são possíveis. Mas, acredito, ele já estava cansado das mentiras velhas, batidas, como piadas cujo fim já se conhece, e que diariamente aparecem nos jornais. Mentiras velhas são um desrespeito à inteligência daqueles a quem são dirigidas. Que mintam, mas que respeitem a nossa inteligência! Mintam usando a imaginação.


“Queremos mentiras novas”.