Por paradoxal, a presidente Dilma pode até ser lembrada, no futuro, como um marco na modernização na maneira de governar o país. Não pela consciência de como deve agir um estadista no mundo globalizado e na sociedade em rede, mas pelo revérbero que seus erros terão gerados. Ao anunciar a eliminação de oito ministérios e corte de 10% dos salários dos ministros – e do seu também – além de cortes nos gastos com veículos, energia, eletricidade e viagens, a presidente começa a atender o desejo nacional de diminuir o tamanho do Estado.
O PT irá encolher nas próximas eleições, mesmo com Lula de volta à linha de frente para tentar cuidar da imagem do partido e da sua própria. Praticamente, Lula reassumiu o governo já que a sua pupila não dá conta do recado. Ele cogita publicamente concorrer à presidência em 2018. O ex-presidente ainda deve passar pelo constrangimento de ser ouvido na Operação Lava-Jato. Prosseguindo: Dilma teve que dispensar Guido Mantega, o ex-ministro da Fazenda autor das “pedaladas” para artificializar o superávit fiscal, colocando no seu lugar Joaquim Levy, um economista da Escola de Chicago, das mais ortodoxas. E a Petrobras, depois de todos os escândalos não evitados por Dilma, sairá do episódio mais magra, eficiente e ágil sem os parasitas que a sugavam. Finalmente a Petrobras livrou-se do governo para poder operar nas regras do mercado.
A presidente criada para ser a “mãe do povo”, poderá decretar o fim do lulismo. Quem sabe esteja nascendo uma espécie de Margareth Thatcher tapuia, para acelerar as privatizações com a finalidade de produzir receitas. A refundação do PT – na própria falange prega-se o Novo Partido – ficará cada vez mais distante, mesmo porque a roda da história não gira para trás. O Partido dos Trabalhadores, hoje, não é de esquerda e nem de direita. Quer jogar em todas as posições e afunda-se na dependência do PMDB, partido sem ideologia, tocado pelas regalias do poder, sua moeda de troca. À classe C, nascida com Lula, já não bastam uma televisão, geladeira e um carro de segunda mão. Nada disso mais seduz com os juros altos, o desemprego batendo às portas e o poder aquisitivo corroído pela inflação. No governo ninguém mais defende os trabalhadores. Até o PC do B, que deveria ser partido de “esquerda”, no governo apoia cortes na saúde, nos programas de moradia e reduz recursos do Pronatec, criado para dar qualificação profissional aos jovens pobres.
O novelo se emaranha cada vez mais. O Tribunal de Contas da União, concluiu terem existido “irregularidades graves na gestão fiscal” de Dilma Rousseff. Rejeitou a defesa da presidente para 12 dos 15 indícios de irregularidades. O julgamento das contas foi agendado para quarta-feira, e a tendência é ser aprovada a rejeição. Mas a palavra final será dada em votação do Congresso. Dilma espera que o poder recém-loteado garanta maioria para o arquivamento do parecer do TCU. Este tipo de Tribunal não sentencia. É um simples auditor auxiliar do Legislativo.
A estabilidade política pode ser alcançada com a velha fórmula da cooptação dos partidos, para obter maioria no Congresso e governar em paz. Felizmente, para o governo Dilma, o desafeto principal, o presidente da Câmara Eduardo Cunha, caiu em desgraça com a revelação das suas contas na Suíça. Já não tem moral para mandar à plenário os pedidos de impeachment que armazena na gaveta.
Agora só falta o PT desconjurar a “maldição da Casa Civil”, com a ida de Jacques Wagner para o lugar de Aloízio Mercadante. É o sétimo ministro-chefe da era petista. Antes dele, José Dirceu foi condenado e está preso; Dilma Rousseff responde pelas pedaladas; Erenice Guerra é acusada de pertencer a uma quadrilha que cancelou R$ 19 bilhões em impostos e multas, num órgão recursal do Imposto de Renda; Antonio Palocci, o primeiro de Dilma, enriqueceu com suas milionárias consultorias e está envolvido no Lava-Jato; Gleisi Hofmann teria levantado dinheiro ilegal no Ministério do Planejamento, então dirigido pelo marido Paulo Bernardo. O recém-saído Aloízio Mercadante é investigado por ter recebido R$ 500 mil para a sua campanha ao governo de São Paulo, segundo delação premiada. A crise política pode estar bem encaminhada sob a aura de Lula. O difícil é debelar a crise econômica e, sobretudo, ética.
O autor é jornalista e articulista do JC