09 de julho de 2026
Articulistas

Em direção oposta

Paulo Cesar Razuk
| Tempo de leitura: 3 min

Em razão de deficiências de toda ordem, mas principalmente em educação, coube aos países periféricos se concentrarem na produção de commodities para exportação, a fim de obter divisas. Essa ênfase na exportação de colheitas, carnes e minérios está levando estes países ao rápido esgotamento dos seus recursos naturais.


Como assinala a dra. Vandana Shiva, física e ativista ambiental da Universidade de Punjab, em “The world on the edge”, o impacto da instabilidade climática e a destruição da camada de ozônio agora crescem desproporcionalmente ao Sul do planeta. Por outro lado, nos países desenvolvidos ao Norte, os lobbies do petróleo e do carvão bloqueiam todas as tentativas para o desenvolvimento de uma política coerente sobre o clima e a energia. Assim, os recursos naturais se movem dos países pobres para os ricos e a poluição se move dos ricos para os pobres.


A descoberta mais recente e mais alarmante foi a de que as emissões de gases, causadores do efeito estufa, estão provocando um aquecimento mais acelerado do Ártico por dois efeitos que se retroalimentam. O primeiro acontece porque à medida em que o gelo derrete, ele expõe o oceano mais escuro que fica por baixo dele e que absorve o calor em vez de refleti-lo de volta para o espaço. O segundo, também, tem a ver com a refletividade ou o efeito albedo do gelo. Dados transmitidos por satélite mostram um escurecimento progressivo do gelo causado principalmente pela fuligem das chaminés e pelos incêndios florestais espalhados pelo mundo.


Não há como evitar, já que a moderna sociedade industrial depende fundamentalmente de um fornecimento contínuo e cada vez mais abundante de energia: para o processo de produção de alimentos e de produção industrial, para iluminação e climatização, para o funcionamento das redes mundiais de transporte e comunicação. Tudo hoje é sustentado por maciços fluxos de energia. Se os nossos suprimentos globais de energia forem reduzidos, ainda que parcialmente, toda nossa infraestrutura entraria em colapso.


Sinistros são os múltiplos impactos ambientais resultantes do ilusório crescimento econômico ilimitado, acionado pelos combustíveis fósseis: desmatamento, erosão do solo, escassez de água, ondas de calor de intensidade nunca vista antes, megainundações e tempestades cada vez mais violentas. Enfim, pode-se concluir que tudo isso é resultado do mercado global que é, na verdade, uma rede de máquinas programadas de acordo com o princípio: ganhar dinheiro deve ter precedência sobre qualquer valor humano. Cabe salientar que a questão crítica aqui não é a tecnologia, mas a ética e a política.


Uma vez que a concepção sistêmica da vida abrange as dimensões biológica, cognitiva e social, sob este ponto de vista os direitos humanos deveriam incluir o direito a um ambiente saudável, a alimentos seguros; o direito e o acesso à educação de qualidade, às liberdades de opinião e expressão. Na dimensão social, enfim, há uma vasta gama de direitos humanos – desde a justiça social até o direito a uma reunião pacífica. Hoje, seria preciso combinar esses direitos humanos com a ética da sustentabilidade que não é uma propriedade individual, mas envolve toda a humanidade. Infelizmente não caminhamos nessa direção.


O autor é professor titular aposentado do Departamento de Engenharia Mecânica da Faculdade de Engenharia da Unesp - câmpus de Bauru