08 de julho de 2026
Esportes

Projeto Social: presentão

Wagner Teodoro
| Tempo de leitura: 5 min

Pisar em um gramado de Copa do Mundo é uma experiência que nem todos os jogadores profissionais podem se gabar de ter. Mas o jovem Maicon Vinícius Alves Flausino, de 13 anos, morador do Núcleo Fortunato Rocha Lima, em Bauru, pode se orgulhar da façanha. No dia 27 do mês passado, o garoto, que frequenta aulas no projeto Criança no Esporte é Vida, do Ressaca Futebol Clube, entrou no campo da Arena da Baixada, em jogo do Atlético Paranaense contra a Ponte Preta, pelo Campeonato Brasileiro, carregando a faixa do projeto do time bauruense, que tem parceria o clube de Curitiba com o Projeto da Escola Furacão.

A timidez natural da idade não conseguiu esconder a emoção de Flausino de se sentir parte do espetáculo futebol. Ao mesmo tempo que realizou um sonho, conhecendo um dos estádios mais modernos do País e tomando contato com a realidade do futebol de alto rendimento, a visita abre perspectivas para outro sonho. “Foi muito bom, dá até esperança de ser um jogador profissional”, comenta o zagueiro sobre a experiência de sentir o clima de um jogo de Brasileirão de dentro do campo. O projeto surgiu há três anos na vida de Flausino. “Eu tinha um amigo do Jaraguá que me chamou e comecei a ir”, relata.

Não saiu mais e ainda levou outros amigos, todos imaginando um dia serem ídolos com a bola nos pés. É o caso de Alessandro Henrique Pereira Canato, também de 13 anos, que foi convidado a conhecer o Criança no Esporte é Vida por Flausino. “Moro perto da casa dele e o conheço faz tempo. Ele me falou do projeto e me interessei”, conta o também zagueiro, que elogia a estrutura que o projeto oferece, em comparação ao futebol de rua que praticava juntamente com o amigo no Fortunato. Ambos, hoje, uniformizados e, agora, acostumados ao gramado do Estádio Silvio Magalhães Padilha, onde treinam.

Canato, que frequenta as atividades do projeto há dois anos, também ficou empolgado com a visita ao Atlético-PR e encantado com a moderna arena do time curitibano. “O mais marcante de tudo foi acompanhar o jogo do time profissional no estádio. Aumenta o sonho de ser jogador e penso que um dia posso realizar este sonho”, acredita.

“Veterano” do projeto – frequenta desde que a nova fase teve início há quatro anos -, Matheus Dorsa Verri Canhos, de 12 anos, afirma que o que viu no Atlético Paranaense superou suas expectativas. “Surpreendeu demais. A estrutura deles é muito boa. Conhecemos o time e campo deles, onde eles dormem. Fomos à Arena da Baixada. Foi muito bom”, elogia o também zagueiro.

Social
Mais do que uma fábrica de craques, o projeto Criança no Esporte é Vida tem função primordialmente social e busca formar cidadãos, tendo o futebol como atrativo. “A ideia é alimentar o sonho deles. Se chegarem aos 17 anos e não virarem jogadores, pelo menos daquela fase crítica, dos 13, 14, 15 anos, em termos de drogas, eles já saíram”, avalia o coordenador Alexandre Previdello. O projeto é totalmente gratuito. “Não cobramos nada, só disciplina, escola, pontualidade, higiene... É um projeto social aberto ao público e muitos meninos estão se destacando”, aponta Previdello.

A parceria com o Atlético e a chancela do Projeto da Escola Furacão, firmada neste ano, rendeu mais do que uma simples visita ao clube paranaense. Os atletas do projeto do Ressaca conheceram o Centro de Treinamento do Furacão e assistiram ao jogo entre Atlético e Ponte Preta, fizeram amistosos contra times das categorias de base atleticanas e ficaram hospedados no alojamento do Furacão. “O mais legal é que o Maicon, morador do Núcleo Fortunato Rocha Lima, um bairro de vulnerabilidade total, entrou em campo. Ele saiu do Fortunato sem perspectivas quando começou no projeto. Agora entrou em uma arena, pisou no campo. Ele me falou: ‘da próxima vez eu posso ficar aqui?’ Eu respondi que depende dele”, brinca Previdello.


Lugar de menina, sim!

Única menina, por enquanto, a participar das aulas no projeto Criança no Esporte é Vida, Luana Teodoro da Silva, de 12 anos, espanta pela categoria com a bola nos pés. A garota afirma que, além da qualidade, a presença feminina no futebol ainda surpreende. “As pessoas ficam surpresas porque a maioria das meninas prefere ginástica rítmica, balé, do que futebol. Tem poucas meninas. E quando você vê uma menina jogando, se surpreende”, admite. Porém, seu futebol é elogiado por todos no projeto e Luana, que joga como meia, é tida com uma joia. Para ela, futebol é lugar de menina, sim. “Eu quero ser jogadora de futebol”, crava. A visita ao Atlético-PR só aguçou sua vontade de jogar profissionalmente. “Nunca pensei que ainda pequena conheceria um estádio desses. Um dia eu quero estar em um alojamento desses.”


Iniciativa atende mais de 250 crianças

O Projeto Criança no Esporte é Vida existe há mais de três décadas e é totalmente gratuito. Antes comandado pelo presidente do Ressaca, Jairson Carneiro, o Corcel, o projeto está sob coordenação de Alexandre Previdello, há quatro anos. Hoje, apoiam a iniciativa a Concilig, Beneficência Portuguesa, Arena Esportes, Greb, LC Plásticos, Tião Supermercados, JD Peças e Serviços, Casa da Sopa Vila Dutra, Sina Indústria, Stúdio Câmera 4, Escola Estadual Stela Machado e Escola Estadual Henrique Bertolucci. É acompanhado pela Secretaria Municipal de Esportes de Bauru e Secretaria do Bem-Estar Social. São mais de 250 crianças atendidas, que recebem alimentação, treinamento, material esportivo, além de palestras, cursos de formação, aulas de futebol de campo e futsal, vôlei social e vai abrigar, em breve, academia de boxe e muay thai.