09 de julho de 2026
Geral

Pais buscam recuperar tempo com filhos

Marcele Tonelli
| Tempo de leitura: 6 min

Fotos: Quioshi Goto
Gislaine procura dar o máximo de atenção aos filhos, Maria Luiza e Pedro, com ajuda da avós Maria Regina e Maria Moura

“Vó! Não... Mãe!” De imediato, a cabeleireira Bruna Sampaio, 28 anos, atende ao chamado, mas corrige o filho Leonardo, 5 anos. Já acostumada com a confusão, ri do engano e tenta reconquistar a atenção do menino. Com apenas 25 dias, Leo já ficava quase todo o período na casa das avós, para que a mãe e o pai, o comerciante Fabrício Teixeira, 31 anos, pudessem trabalhar das 7h às 18h, inclusive aos sábados. Situação que se reforçou com o nascimento de Giovanna, hoje com 1 ano.

A história se repete na casa da advogada Gislaine Moreira Bento, 38 anos. Viúva e com dois filhos, ela delega ao berçário os cuidados com sua filha Maria Luiza, de 1 ano, até 10 horas por dia. “Já aconteceu de eu ir pegá-la e ela não querer ir embora, já tem um carinho pelas tias”, lembra. O outro filho, Pedro, de 13 anos, assim como Leo, passa a maior parte da semana na casa das avós.

Com histórias distintas, mas situações em comum, as duas famílias possuem exemplos do que muitos chamam hoje de “filhos terceirizados”.

Criados e educados sob o cuidado de familiares, babás, professores, auxiliares de creche, entre outros, passam os primeiros anos de vida distantes dos pais ou responsáveis primários, que como forma de suprirem essa falta, muitas vezes se desdobram para aproveitar ao máximo o período com os filhos, na tentativa de estreitar a relação. Mas a forma como essa compensação tem sido praticada, no entanto, é o que tem chamado a atenção de especialistas.


 

Momento raro na casa de Bruna e Fabrício: Giovanna e Leonardo brincam com os pais e a mascote na sala da casa

Transferência

“Queria ser uma mãe mais presente na vida deles, me culpo por isso e até penso em maneirar o ritmo no salão de beleza, mas não posso porque quero dar a eles uma condição de vida confortável”, dispara Bruna. Com ritmo frenético de trabalho, inclusive aos finais de semana, a cabeleireira admite que, como forma de preencher sua ausência, também nunca nega um pedido dos filhos. “Acabo compensando o tempo perdido na compra dos brinquedos que eles pedem”, diz Bruna, brincando com os filhos no tapete. “Mas o que ela gosta mesmo é de brincar com as panelas quando me vê na cozinha. Fazem uma bagunça, mas eu deixo, nunca nego nada. Até brinco junto de vez em quando”, acrescenta.

Situação que gera um alerta da doutora em psicologia escolar e especialista em psicologia de ensino e aprendizagem e desenvolvimento humano, Marisa Eugênia Melillo Meira.

“A rotina das famílias está cada vez mais complexa, mas a transferência da formação é algo complicado. Filho é compromisso. Geralmente, os pais não presentes acabam não tendo controle sobre o limite dos filhos. E para compensar a ausência acabam não contrariando a criança ou então, muitas vezes, preenche de forma material. Isso é complicado, sem se dar conta, os pais acabam criando crianças tiranas”, observa a  psicóloga. Os pais precisam ensinar seus filhos os valores, a ética. Hoje é cada vez menos comum os pais sentarem com seus filhos para conversar”, completa.

Ao contar sobre o episódio no berçário, Gislaine, por sua vez, afirma que tenta compensar ao máximo a falta de uma convivência diária com os dois filhos em momentos de brincadeiras em casa. “O tempo em que estou com ela procuro dar o máximo possível de atenção. Minha sala é toda cheia de brinquedos”, completa.

E é no brincar que está um dos principais espaços de desenvolvimento, segundo a psicóloga Marisa Meira. “As famílias estão perdendo isso. A brincadeira do faz de conta, por exemplo, é um momento de desenvolvimento infantil fundamental. A família precisa ter o seu tempo com a criança para ensinar seus valores, fortalecer vínculos”, pontua.

Antes de ficar viúva, Gisele conta que dedicava quase que exclusivamente seu tempo ao filho Pedro. “Eu era do lar, mas depois, quando meu marido morreu, tudo mudou. Eu tive que começar a trabalhar para sustentar a casa. Depois, acabei engravidando novamente, mas dessa vez sem planejar nada”, conta Gislaine. De lá para cá, a situação se reforçou e a figura das avós das crianças, Maria Regina Bento, 60 anos, e Maria Caldeira Moura, 70 anos,  foi reforçada para ajudar Gislaine a cuidar dos filhos. “Se não fossem elas e o berçário não sei o que faria”, reflete.

Babá eletrônica
Mas estar presente nem sempre significa dar atenção. Tanto na casa de Bruna quanto na casa de Gislaine, assim como da maioria das pessoas, a TV, o computador, o celular e o videogame viram o centro das atenções, mesmo com a família reunida. “A terceirização não é estar fisicamente ausente. Mesmo presentes, muitos pais acabam se rendendo às chamadas babás eletrônicas, que tomam o lugar da convivência em família”, avalia a psicóloga. “É um fenômeno tão comum que o mercado percebeu e explora isso, a infância tem sido comercializada por meio de aplicativos, jogos...”.

“Esses dias me deparei com uma criança pedindo para que a mãe lesse um gibi. Ela simplesmente ligou um tablet e prendeu a atenção com um joguinho”, acrescenta. O resultado desta transferência e compensação equivocadas é o que preocupa, já que quase nunca as crianças saem ilesas. “Isso só contribui para formação de uma geração individualista, de pessoas despreocupadas com o coletivo. Os valores precisam ser ensinados, o comportamento e a ética são coisas que só se desenvolvem com a convivência entre pessoas”, finaliza.


 

Mãe em tempo integral: Elaine abdicou da carreira de advogada para dedicar-se à criação da filha Fernanda

Mãe deixa emprego para dedicar-se à filha

Na casa da advogada Elaine Luisa Moura Ferreira, 41 anos, a situação é inversa. Preocupada com a criação da filha e com o que teria que desembolsar para manter a menina em atividades o dia todo, fora a escolinha, enquanto trabalhava, ela decidiu abandonar a carreira até que a Fernanda, hoje com 8 anos, se torne independente.

“Eu ia pagar para trabalhar e teria que deixar minha filha com os outros. Preferi abdicar da profissão e virar mãe em tempo integral, para acompanhar o crescimento dela de perto”, diz Elaine, que antes de ser mãe morava em São Paulo e estudava para concursos públicos.

Hoje, em casa, elas leem, conversam, fazem as tarefas da escola juntas e até brincam. Mas não é todo o tempo que mãe e filha passam juntas. “Acho que não tem tanta diferença assim para uma mãe que trabalha. Mesmo em casa, não é toda hora que eu dou atenção a ela. Mas os momentos que passamos juntas procuro dar o máximo possível de atenção”, conta Elaine.


Escola X criação

Um dos grandes problemas enfrentados, atualmente, pelas escolas, tanto particulares quanto públicas, em todos os níveis de ensino, se dá justamente em virtude da terceirização do papel dos pais.

“Em bastante situações pudemos confirmar isso: os pais deixando única e exclusivamente para a escola essa formação. Em muitos casos tivemos até que recorrer ao Conselho Tutelar. Infelizmente, está cada vez mais frequente essa transferência”, comenta a pedagoga Vera Regina Casério, que, além de educadora, é secretária de Educação em Bauru. “Valores e princípios devem ser ensinados em casa. O trabalho pedagógico da escola é o de dar continuidade a esse processo apenas”, completa.

Fato que gera uma problemática que deságua na implantação do ensino integral no município. “Existem pais querendo deixar o filho em período integral na escola mesmo sem estarem trabalhando. Em alguns casos, quando notamos que há vulnerabilidade, somos o primeiro a aceitar a criança”, observa Vera.