11 de julho de 2026
Regional

Moradores da região enfrentam a crise trabalhando em outros setores

Rita de Cássia Cornélio
| Tempo de leitura: 11 min

O brasileiro, de modo geral, se move quando precisa resolver problemas, especialmente os financeiros. Procura um jeito de superar as crises, aliás já passou por tantas que está escolado. A inflação já esteve em 80% no mesmo período em que os salários não acompanhavam os aumentos no supermercado e nos demais setores comerciais. Criativo por natureza, o brasileiro tem ideias e as coloca em prática assim que a carteira começa a ficar vazia.

Usando seus dotes naturais, as pessoas desencadeiam ações para reforçar o orçamento ou complementar a renda. Os negócios individuais são alternativas para suprir algumas despesas. Individualmente são positivas, mas alerta o economista Adriano Fabri, coletivamente podem prejudicar o comércio formal, aquele que paga os impostos.

O consultor lembra que se o produto for bem feito e tiver mercado, o pequeno negócio pode se tornar formal. “Há inúmeros casos de empresas que começaram pequenas e hoje cresceram. Geram empregos e estão formalizadas.”

Na região de Bauru há pessoas trabalhando por conta própria após perderem o emprego. Usam seus dotes para fazer doces, decoração, crochê, montam móveis e fazem instalações elétricas para superar crises financeiras. O bom é que essas pessoas não vão ter que pagar juros de cheque especial e nem terão seus nomes cravados no Serasa.

Para a psicóloga, professora e orientadora da pós-graduação de psicologia da Unesp de Bauru, Carmem Maria Bueno Neme,  nada melhor do que usar o limão para fazer uma limonada. “Existem pessoas que conseguem fazer do limão uma limonada. Muitas delas fazem isso de forma brilhante, resistem mais bravamente, com mais recursos. Superam as adversidades, as crises da vida, até mesmo as mais graves. Temos que considerar que nem todos dispõem desses recursos.”

A palavra crise significa também oportunidades, frisa a professora. “Depende dos recursos pessoais de cada um. Numa situação de limite, a pessoa pode alavancar nela outros recursos dos quais muitas vezes nem ela achava que tinha. Ela pode passar a ser mais criativa, utilizar outras habilidades ou desenvolver habilidades que até então ela não teria acionado.  Ela pode sim nesse momento de crise mostrar superação naquilo que está sendo uma dificuldade.”

Ela ressalta que mesmo aquelas pessoas  que conseguem dar a volta por cima sofrem um estresse.

Mulher vende quitutes em viagem de ônibus

Gislene de Almeida descobriu que pães de mel e biscoitinhos têm boa aceitação e passou a vendê-los

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Gislene trabalha durante uma viagem entre Bauru-Pederneiras

Ela não gostava de cozinhar, mas os revés da vida fez com que ela se aproximasse das panelas e do fogão. Hoje, Gislene de Jesus Souza Batista de Almeida confessa que faz seus quitutes com muito carinho e gosto. A maneira dela vender e conquistar clientes pelo estômago é que é o seu diferencial. Ela vende durante a viagem que faz todos os dias de Pederneiras para Bauru onde trabalha em uma empresa. Seu colegas de trabalho também degustam suas delícias.

A história de Gislene Almeida com os quitutes começou por uma necessidade. “Eu precisava  ganhar um dinheiro a mais. Só com o salário mensal do meu emprego, estava complicado. Procurei outras coisas. Me candidatei a limpar casa, coloquei meu currículo em pizzarias, mas nada deu certo. Ninguém me chamou.”

A filha dela que mora em Rondônia sugeriu que ela começasse a fazer bolo. “Ela disse que lá estava uma febre muito grande de bolo no pote. Eu olhei receitas na Internet, supersimples. Primeira coisa que fiz no final de semana, peguei uma receita de bolo fiz umas duas. Trouxe para meu trabalho. Um comentou com outro e foi. Isso  já faz uns sete meses.”

O bolo de pote vendeu, mas a quituteira percebeu que tinha que variar para continuar vendendo e partiu para outras receitas. Pesquisou na Internet e levou para algumas pessoas experimentarem. “As pessoas começaram a sugerir outros quitutes. Comecei a fazer rosquinha de pinga, pão de mel, bolachinhas, sonhos. As pessoas que compravam me davam ideia. Eu percebi que conseguia fazer. Atualmente meu carro chefe são os pães de mel e biscoitinhos de nata que eu recheio com goiabada. As pessoas pedem e eu vou tentando fazer.” 

Ela conta que outro dia pediram sonho. “Eu jamais tinha feito sonho em minha vida. Sonho é frito e eu não queria fazer como todo mundo faz. Fui atrás de um sonho assado, ficou muito bom. O pessoal gostou. Antes de colocar à venda eu dou  para as pessoas experimentarem, só então coloco à venda, é uma estratégia que adotei. Foi tudo devagarinho. Na sequência coloquei etiquetas. O começo foi sofrido.”

Dependendo do quitute a venda se esgota dentro do ônibus, comemora Gislene Almeida. “Já aconteceu de eu chegar no meu trabalho e não ter mais mercadoria. É um reforço bacana no orçamento. Minha meta era pagar água, luz e telefone, um total de R$ 300,00 por mês. Estou conseguindo. Há meses que ainda sobra algum.”

Crochê pode dar novo rumo à vida de mulher de Pederneiras

Dona de casa tem 13 mil contatos na rede social e ela própria faz sapatinhos de crochê

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Sapatinho de crochê é produzido por Marisa Aparecida Alves

Um trabalho que Marisa Aparecida  Alves aprendeu com a mãe na infância pode dar outro rumo a vida profissional dela. Moradora de Pederneiras (26 quilômetros de Bauru) ela trabalhou por 20 anos em um supermercado. Perdeu o emprego e agora faz sapatinhos de crochê e vende pelo Facebook.

“Eu sempre gostei de fazer trabalhos manuais, faço desde criança. Minha mãe foi quem me ensinou. Eu trabalhava fora de casa, mas a empresa foi vendida e o novo comprador aplicou um golpe. Não pagou os funcionários. Estamos lutando na Justiça. Mas ela é lenta e isso aconteceu no começo deste ano. Sem opção, comecei a fazer sapatinhos para vender. Já fazia como terapia ocupacional.”

Os 13 mil contatos que Marisa tem na rede social, especialmente no Facebook, lhe garantem a venda dos produtos. Ela posta fotos dos modelos e não vence a quantidade de encomendas. “Estou tentando atender todo mundo. O preço é bom e a venda é facilitada por isso.”

Ela diz que é autodidata. “Crio meus próprios modelos. Faço tudo de crochê, mas como os pedidos dos sapatinhos são muitos, não tenho tido tempo de fazer tapetes de barbante, caminho de mesa, toca de bebê. Na época do frio fiz muitas toucas. Atualmente, os sapatinhos são o foco.”

Como ela é solteira e mora com a mãe está usando o faturamento para comprar produtos. “Eu vendo e invisto em mercadorias. Tiro pouco para mim. Tenho comprado pérolas e outros adereços para deixar os sapatinhos mais charmosos.”  

Ela acredita que encontrou uma nova forma de ganhar dinheiro. “Não vou mais procurar emprego. Vou investir nesse setor. A venda é feita no dinheiro e o cliente vem buscar. Já entreguei em Bauru. Nesses casos, quando vou buscar mercadoria, marco com a cliente e entrego.”

Para o futuro, ela projeta uma loja virtual.

Aniversário da filha deu ‘start’ para confecção de peças em madeira 

Venda é feita em duas cidades, após Adilson Antonio Alves perder emprego

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Jogos de mesinha e cadeirinha são peças vendidas por Adilson Alves

Construir peças de madeira, a partir de restos de madeira da serraria era uma brincadeira de infância para Adilson Antonio Alves, morador de Areiópolis (69 quilômetros de Bauru). Mas há um mês ele perdeu o emprego e resolveu investir na confecção de móveis e objetos infantis.

A ideia começou a ganhar corpo no aniversário de 15 anos de uma das filhas dele. “Eu sempre mexi com madeira. Meu pai trabalhava em uma serraria. Há um ano mais ou menos, quando minha filha fez aniversário, alugamos móveis provençais para a festa dela. Como eu já entendia de madeira, comecei a comprar material e fazer. Hoje tenho uma filha que também mexe com decoração de festas em Pederneiras e eu aqui.  A gente que está fazendo. Pesquiso na Internet o que está na moda e o que não está. Eu e minha mulher estamos tentando sustentar a família. Ela faz salgados e me ajuda aqui na fabricação de móveis.”

Ele lembra que, até um mês atrás, tinha um emprego em uma empresa que fabricava equipamentos para filmagens. “Eu já vinha trabalhando com madeira. Desde que perdi o emprego, decidi investir nisso. Tenho bastante encomenda. Faço divulgação no Facebook. Não tive mais tempo para postar fotos. Desde então já entreguei umas 10 peças mais ou menos. As peças mais vendidas são jogos de mesinha com cadeirinha que valem R$ 138. Eu não entrego fora de Areiópolis e Pederneiras.”

Alves pretende montar um negócio legalizado. “Tem um membro da minha igreja que tem ajudado bastante. Ele trouxe um palestrante do Sebrae e estamos pensando seriamente em montar o negócio.”

Além das vendas pela rede social, Alves tem o aluguel de móveis e decoração infantil na cidade de Pederneiras. No Facebook o contato é Ágape artefatos.

Casal vende bolo nas ruas

Francislene Cardoso, conhecida em Arealva (41 quilômetros de Bauru) por Fran e seu marido perderam o emprego há menos de um ano em Jaú. Mudaram para Arealva e ela está fazendo bolo de aniversário para superar a crise. “No começo deste ano, minha filha teve uma crise de diabetes e não tivemos como mandá-la para a escola. Perdi o emprego em função disso. Na sequência, meu marido ficou desempregado. Temos que sustentar a família e como eu fazia bolo para os parentes e todos gostavam, resolvi pôr a mão na massa.”

Fran explica que faz bolos e vende nas ruas da cidade. “A divulgação é no boca a boca, ela não usa as redes sociais. As pessoas fazem as encomendas e eu procuro atendê-las da maneira que elas gostam. Faço bolo recheado com o recheio que elas solicitam. A cobertura também é a gosto do cliente.”

A boleira comenta que como seus pais e demais parentes moram na cidade, a divulgação foi rápida. “Não vendo muito, tá todo mundo sem grana. Meu marido ajuda nas entregas. Tenho feito cinco bolos mensais. Rende pouco, cerca de R$ 300. Não dá para sustentar a família, mas ajuda nesse momento. O segredo do meu bolo é a experiência em fazer. Sempre fiz, desde criança. As novidades eu pesquiso na Internet.”

Divulgação
Baú de madeira é feito artesanalmente

Fora do horário

Luis Fernando Martins Rubio mora em  Arealva (41 quilômetros de Bauru) e viu uma oportunidade de reforçar o orçamento, apesar de não ter perdido o emprego. “Meu sogro é eletricista e montador de móveis. Ele trabalha no mercado também. Fora do nosso horário de trabalho estamos fazendo pequenos serviços.”

A intenção dos dois é ganhar um pouco mais, um valor que possa ajudar nas despesas fixas. “Eu ajudo meu sogro e nós ganhamos um pouco mais. Trabalhamos nas horas de folga. Fazemos instalações elétricas e montagem de móveis. O reforço não é muito, mas dá para pagar a continha de água e energia.”

Reforço no orçamento vira opção

Consultor Adriano Fabri afirma que o empreendimento individual é uma saída para a crise financeira, mas o aumento da informalidade é ruim para o comércio

 Neide Carlos/Arquivo
Economista  Adriano Fabri conta que o negócio individual acaba sendo uma saída para muitas pessoas

O mar não está para peixe. Viver está mais caro. A receita e os débitos não entram em acordo e deixar dívidas para pagar depois não é um bom negócio, tem juros. Reforçar o orçamento ou complementá-lo é uma das opções para quem quer se livrar  de dores de cabeça. O economista e consultor Adriano Fabri acha que individualmente é uma saída.

“Sem dúvida que essas ações ajudam a reforçar o orçamento daquelas pessoas que precisam e desejam ganhar mais. Ou até mesmo para aquelas que estão endividadas. Seria mais interessante que isso fosse pautado na observação de uma oportunidade. Ou seja da pessoa  trabalhar em algo que ela tenha o dom e que falte em seu bairro, na região onde mora, no seu convívio.”

Ele explica que todas as vezes que uma pessoa empreende, inicialmente como informal, isso pode ser feito de duas formas. “Porque a pessoa observou uma oportunidade ou por necessidade. O que é mais viável e normalmente sobrevive mais é quando se percebe uma oportunidade e não por necessidade. Porque ai ela estará atendendo uma necessidade que existe naquela comunidade.”

Na opinião dele, as ações são positivas tanto para completar a renda ou para abater dívidas. “O brasileiro está bastante endividado. As ações podem dar origem a um negócio no futuro. A  formalização de um negócio se tornará realidade se a pessoa está fazendo algo bem feito e que atende uma necessidade local. Muitos negócios estabelecidos atualmente começaram informalmente. A pessoa pode partir para uma micro empresa limitada.”

Mas, nem tudo é maravilhas no mundo do negócios, alerta o consultor. “Temos que ponderar. Do mesmo jeito que individualmente as ações  ajudam as família, prejudica a economia formal. Se eu estou fazendo um bolo para complementar a renda, estou tomando espaço da padaria, da confeitaria, do supermercado que tem um negócio e que paga todos os impostos. Essas ações em grande quantidade pode prejudicar a economia no futuro. Começa a ter muitas saídas informais para a crise e a economia formal acaba sentindo ainda mais.”

Para ele, a compra da matéria prima para confeccionar um bolo, por exemplo, move a economia numa velocidade muito baixa. “Move menos. O empreendedor informal  acaba concorrendo com quem paga impostos. O preço dela é melhor porque não há incidência de impostos sobre o produto.”

De acordo com ele, os vendedores ambulantes informais é um problema visto sob  duas óticas. “Se as autoridades combatem, a pessoa acaba não tendo emprego. Ao mesmo tempo, se não combate,  prejudica o comércio local. Tem  esse contraponto que precisa ser destacado. Mas a iniciativa em si é empreendedora. A pessoa que observa uma oportunidade e desenvolve, analisa, viabiliza e coloca em prática é um empreendedor. Mesmo que informalmente ele está empreendendo.”