11 de julho de 2026
Economia & Negócios

1,4 mil famílias a mais já buscaram serviços sociais por conta da crise

Cinthia Milanez
| Tempo de leitura: 5 min

Quioshi Goto
Danatielly Aparecida de Oliveira Tavares, 24 anos, procurou o Cras porque está com dificuldades de encontrar um emprego e relatou os obstáculos encontrados para a secretária Darlene Tendolo

O aumento do desemprego provocado pela crise econômica levou 1.484 famílias a mais neste ano a procurar o Centro de Referência em Assistência Social (Cras) de Bauru. De janeiro a agosto de 2015, 26.573 famílias foram acompanhadas pelo órgão, o que equivale a uma elevação de 6% em relação ao mesmo período de 2014.

O contexto impacta também, mesmo que de forma indireta, no Centro de Referência Especializado de Assistência Social (Creas), que, do início de 2015 até o momento, teve demanda maior de 12%, se comparada com o ano passado inteiro.

Segundo a titular da Secretaria do Bem-Estar Social (Sebes), Darlene Tendolo, o Cras é responsável por atender as necessidades básicas da assistência social, tais como promover cursos de formação profissional e fortalecer os vínculos familiares. Já o Creas atende pessoas em situação de emergência, como nos casos de violência doméstica. A secretária afirma que a crise afetou drasticamente ambos os serviços.

Em relação ao Cras, a secretária explica que a maior demanda está no encaminhamento ao trabalho e na doação de gêneros alimentícios. “Os dados são preocupantes, porque as pessoas estão perdendo os empregos por conta da crise, que desencadeou o fechamento dos pequenos negócios. Além disso, o aumento dos preços limitou o poder de compra dos cidadãos”, esclarece.

Esses dois fatores, conforme revela a secretária, também geram um “efeito dominó” na demanda do Creas. “Quando uma pessoa perde o emprego, sente que perde a dignidade e a situação de empobrecimento a leva à depressão ou ao uso abusivo de álcool e drogas. E isso, muitas vezes, leva à violência”, conta. Prova disso é que, no ano passado inteiro, 1.714 pessoas foram atendidas pelo órgão, sendo que, de janeiro deste ano até o momento, foram 1.917, um aumento de 12%.

Em busca de emprego

Danatielly Aparecida de Oliveira Tavares, 24 anos, procurou o Cras da região do bairro Nove de Julho, porque perdeu o emprego há três meses. Criada por uma família humilde, a jovem viveu boa parte da vida em um barraco, localizado na extinta favela do Jardim Maria Célia. Ela dividia o pouco espaço disponível junto aos pais e aos dois filhos.

Mesmo diante de todas as dificuldades, Danatielly não desistiu. Ela conseguiu terminar o ensino médio e partir para o mercado de trabalho. Ela já foi operadora de caixa, auxiliar de cozinha e, até mesmo, servente de pedreiro. “O que me pedem para fazer, eu faço direitinho”, destaca.

Há três anos, a vida de Danatielly seguiu outro rumo, já que ela foi morar no Residencial Buriti, graças à demanda dirigida do Minha Casa Minha Vida (MCMV). Quando parecia estar tudo dando certo, a jovem perdeu o emprego. “Eu tive de procurar o Cras, porque não estou conseguindo arrumar emprego sem ajuda”, diz.

Ela atribui essa dificuldade em encontrar trabalho à crise econômica. “Ninguém está contratando”, desabafa. Por enquanto, Danatielly faz “bicos” em um buffet, mas espera retornar à formalidade.

Se alguém quiser “presentear” Danatielly ou outros com uma proposta de emprego, basta entrar em contato através do telefone da Sebes, que é o (14) 3227-8624.

Cozinha comunitária

Para criar algumas oportunidades a mais no atual contexto conturbado, a Sebes está envolvida em um projeto de construção de uma cozinha comunitária, que proporcionará 300 refeições diárias, além de uma escola de formação de profissionais da área de alimentação, e de hortas urbanas no Jardim Ivone, no Jardim Europa, no Pousada da Esperança e no Ferradura Mirim. “O objetivo é fazer com que as famílias se reestruturem o mais rápido possível”, aponta Darlene Tendolo.

Aumento na demanda do Creas também preocupa

Conforme teoriza a Sebes, a falta de estrutura básica influencia em todo ciclo, inclusive no aumento da violência, o que preocupa bastante a pasta. Os usuários do Creas são acompanhados após sofrerem diversos tipos de violência. No caso dos idosos, a mais frequente é o abandono. Tanto que, dos 375 atendimentos feitos neste ano, 240 estão inclusos nessa modalidade, o que equivale a 64% do total. Em segundo lugar, está a negligência, seguida da violência psicológica, da violência física e há até um caso de violência sexual.

Quanto às mulheres, os 736 casos registrados neste ano estão relacionados única e exclusivamente à violência doméstica. Já crianças e adolescentes assistidos pelo Creas são, na maioria das vezes, vítimas de negligência, seguida de violência psicológica, abandono e violência sexual. Por fim, as pessoas com deficiência sofrem, em primeiro lugar, negligência, que perde apenas para o abandono.

Para enfrentar a situação, a secretária Darlene Tendolo afirma a saída é a emancipação. “Nós procuramos agir de imediato para evitar situações que levem ao abuso de álcool e drogas e, consequentemente, à violência. Diante disso, procuramos criar condições de ganho de vida às pessoas, incentivando a saírem da informalidade e oferecendo diversos cursos de capacitação profissional”, ressalta.

Individualizados

Quando se trata de atendimentos individualizados do Cras, os números são mais expressivos. Conforme dados divulgados pela Sebes, de janeiro a agosto do ano passado, 32.406 pessoas foram atendidas pelo órgão, sendo que, no mesmo período de 2015, foram 40.648, o que corresponde a um aumento de 25%.

Darlene Tendolo diz que todos os serviços sociais seguiram esse caminho. Inclusive, das nove unidades do Cras, a do Nove de Julho, que contempla o Parque Jaraguá e o Parque Santa Edwirges, é a mais procurada. “São locais com maior incidência de pessoas em situação de vulnerabilidade”.