10 de julho de 2026
Geral

Aos 30 anos, Ceeja tem histórias de superação e mudança de perfil

Marcus Liborio
| Tempo de leitura: 4 min

Quioshi Goto
Luiz Alberto de Oliveira ministrou palestra nesse quinta-feira (22), em comemoração aos 30 anos do Ceeja

Com 33 anos, Luiz Alberto Frederico de Oliveira está bem perto de concluir mestrado em engenharia de produção na Unesp de Bauru. Ele deseja ir ainda mais longe. “O próximo passo é pleitear o meu doutorado”, projeta o analista de controles internos. Quem o vê hoje não imagina que, aos 16 anos, Luiz trocou a escola pelo trabalho. Logo, a “ficha” caiu: sem estudos e sem grandes chances na vida. “Perdi as melhores oportunidades”, lembra.

E foi no Centro de Educação para Jovens e Adultos (Ceeja) Presidente Tancredo Neves, em Bauru, que ele, cinco anos depois, viu acender uma paixão que perdura até hoje: a de apreender. “O Ceeja tem uma característica de nos ensinar a ser autodidata. Adotei o hábito de estudar e decidi que não ia mais parar”, destaca o rapaz, que concluiu os ensinos fundamental e médio em um ano.

Neste mês, a instituição completa 30 anos com mudança de perfil: a faixa etária dos estudantes diminuiu – idades entre 18 e 25 anos (leia mais abaixo). Com 4.500 alunos, o Ceeja é uma escola estadual no método supletivo de presença flexível de ensinos fundamental (de 5.ª a 8.ª série/6.º ao 9.º ano) e médio (antigo colegial).

As comemorações das Bodas de Pérola começaram ontem com palestra ministrada pelo próprio Luiz e lançamento do novo logotipo da instituição, elaborado por outro ex-aluno, atualmente professor de educação artística na Unesp, Ailton Cesar Ribeiro. Hoje, as festividades seguem com apresentações dos corais “Luzes” e “Sons de Bauru”, às 19h30.

Superação

Na 7.ª série do ensino fundamental, Luiz Alberto abandonou os estudos. “Foi por opção. Achava que tinha que trabalhar”. Ele partiu para o comércio e arrumou emprego em um mercado. “Perdi as melhores oportunidades como na área da indústria, que pagava bons salários”, pontua. “Percebi a falta que estava me fazendo os estudos”. Já com 21 anos, Luiz procurou o Ceeja com o propósito de concluir os ensinos fundamental e médio. Lá, ele descobriu que poderia ir além. “A vida me motivou e não parei mais de estudar”, destaca.

Com o salário de motoboy, na época, o recém formado no 2.º grau garantiu o curso de sistema de informação na Faculdades Integradas de Bauru (FIB). Nesse meio tempo, as oportunidades apareceram.

Ele conquistou o cargo de consultor de tecnologia da informação em uma empresa de Bauru, trabalhou em outras áreas na função de gestão da qualidade e também atuou em um hospital da cidade como analista de sistema de gestão integrada sênior.   

Na área da saúde, Luiz concluiu duas pós-graduações: projeto (voltado à medicina do trabalho) e gestão ambiental pela Unesp de Bauru. “Na segunda pós, eu conheci a minha orientadora, a professora doutora Roseli de Castro, que me incentivou a fazer o mestrado”, contou.

Ele até começou a cursar banco de dados na Faculdades de Tecnologia (Fatecs) do Estado de São Paulo, mas precisou trancar o curso para se dedicar ao mestrado. “A carga de estudo estava muito alta e tive que fazer uma opção”, explica o mestrando.

Hoje, já com vistas no doutorado na área de educação, uma vez que já lecionou em universidades e tem o objetivo de ser professor universitário, Luiz deixa o recado para quem pensa em desistir  dos estudos. “Você está preparado para a oportunidade que bate à sua porta? Será que a oportunidade vai querer você? Precisamos estar preparados, sempre”.

Quioshi Goto
José Eugênio diz que alunos do Ceeja conseguem ingressar em cursos técnicos e universidades

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José Eugênio Chibébe, diretor do Ceeja há 15 anos, conta que a idade dos alunos tem reduzido de adulto/idoso para jovem. Segundo pesquisa apresentada pela instituição, na década de 1990, o maior número de alunos tinha idades entre 26 e 40 anos e maioria era do sexo masculino. Em 2013 (não foi apresentada estatística mais recente), a faixa etária caiu: entre 18 e 33 anos (maioria até 25 anos) com maior número de alunos do sexo feminino.

Eugênio não explicou o motivo da mudança, mas o JC apurou que pode ter relação com a evasão do ensino médio para ingressar ao mercado de trabalho e o retorno rápido aos estudos em razão do escasso quadro de empregos com salários melhores, para quem não concluiu o 2.º grau. 

Eugênio ainda ressalta que vários dos estudantes que concluem o ensino médio no Ceeja conseguem ingressar em cursos técnicos e até universidades públicas, como a Unesp. “Muitos entram sem curso preparatório ao vestibular”, aponta.

Serviço

O Ceeja fica na rua Carlos de Campos, 5-10, na Vila Souto, região da Vila Falcão, em Bauru. O telefone para contato é (14) 3238-7075.