10 de julho de 2026
Bairros

Samba-enredo marca festa de família

Dulce Kernbeis
| Tempo de leitura: 6 min

Uma festa com direito a samba-enredo, apresentação de sambistas ligados à Portela (do Rio de Janeiro) e 200 pessoas ostentando o sobrenome Seabra. Muitos até Alves Seabra, o nome de um dos pioneiros de Bauru: o coronel Manoel Alves Seabra.  Assim foi marcada a 4ª edição do Fest Seabra, realizada no feriado prolongado de 12 de outubro.

A reunião foi realizada na chácara Duas Irmãs, próximo ao Aeroporto Moussa Tobias. Já tradicional, a festa relembra o patriarca ilustre que foi vereador do município em 1903. Atualmente, uma vila e uma rua,  na região do Jardim Bela Vista, levam seu nome.

Maurício Alves Seabra, bisneto de Alves Seabra e membro da Comissão Organizadora da festa, faz parte da organização desde o primeiro encontro, ocorrido há 17 anos, quando a também bisneta Jéssica Seabra era um bebê. A jovem é uma espécie de “amuleto” de boas-vindas aos presentes e espera estar presente no próximo encontro, que já tem dada marcada: 2020, quando os descendentes se reunirão em Bauru e em Portugal.


Viagem
Já há uma lista de adesões para uma viagem a Paredes do Bairro, em Portugal, um vilarejo pequeno de onde a família veio. Em 2013, o vilarejo foi dissolvido como cidade e agregado à diocese de Aveiro, na região de Coimbra. Lá, ainda vivem 900 pessoas. A viagem, desta vez, não será pelo mar. Na época, em 1889, Alves Seabra levou 40 dias para atravessar o Atlântico num misto de vapor e à vela.   

Um dos inscritos na viagem é Manuel Alves Seabra Neto, 75 anos, neto do coronel, que conviveu com o avô até os 16 anos. “Estou confiante de que estarei em 2020 fazendo o trajeto Bauru-Portugal”, disse, animado. Sobre o avô, ele se lembra de um homem correto, austero: “Mas não tive contato tão profundo com meu avô, porque não era como agora, o contato era só em ocasiões especiais, porque a vida era mais difícil naquela época”.

Aliás, Manuel Neto é um dos motivos para que o encontro exista. No primeiro, há 17 anos, morreu um homônimo seu. Dado como morto, até que a confusão fosse desfeita, vários parentes da grande família choraram a morte do Manuel errado.  

Resultado: Maurício, que tinha sido um dos maiores disseminadores da notícia errada, e uma prima, tiveram a ideia de, então, para celebrar a vida, reunir os descendentes de sangue (e agregados direto) do coronel. “Precisávamos nos conhecer”, conta Maurício, que fez questão de perpetuar o Alves Seabra em seus filhos. “E espero que continue com meus netos”.

Samba-enredo
Foi com samba-enredo que a quarta edição do encontro recebeu parentes de todos os cantos do Brasil e até do Exterior. Todos eles, descendentes dos seis filhos de dois casamentos do Coronel, cinco homens e uma mulher. Assim, Mário Seabra, 71 anos, que saiu de Bauru aos 3 anos de idade, estava no encontro pela primeira vez. E gostou do que viu. “De tanto ouvir minha irmã Cacilda falar bem do encontro, eu tinha que vir”.

Já Cacilda veio como legítima representante dos Seabra do Rio de Janeiro. Ela, que também deixou a cidade novinha, hoje é professora e jornalista apresentadora de um programa de televisão em uma emissora de televisão digital, NGT - do Rio, onde valoriza o samba brasileiro e fala do Carnaval (por sinal também tem pós-graduação no assunto). A neta de Alves Seabra conseguiu que amigos contassem a história da família em samba-enredo, mostrado no encontro.

O trabalho dos compositores Alma Negra e Luiz Henrique foi apresentado em CD, com direito a show para os presentes. Cacilda, agora, além do próximo encontro, sonha também com que esse samba seja encampado por alguma escola de Bauru e apresentado ao público bauruense. “Por que é uma história genuína merece ser celebrada. Imagina o que era chegar neste rincão no meio de índio e onça e desbravar tudo no peito”.

Bisnetos
Dos representantes dos bisnetas, Celisa Seabra veio direto de Orlando, nos Estados Unidos. Moradora daquele país há 12 anos, ela só lamenta não ter podido trazer seus filhos pequenos. E salientou que para estar aqui precisou se preparar com 1 ano de antecedência. “Mas é muito bom rever e conhecer tanta gente”, disse enquanto todos paparicavam o sorridente Theo Seabra de Oliveira, quatro meses, o mais novo representante da família.


Quem foi Alves Seabra

O português Manoel Alves Seabra nasceu em 8 de fevereiro de 1868 e chegou em Bauru em 28 de setembro de 1889. Foi casado duas vezes: primeiro com Luiza Fauzer, falecida em 9 de novembro de 1907. Um ano depois, casou-se com Maria da Glória Abrunhosa. Do primeiro casamento teve três filhos: José, Antônio e João. Do segundo, também três: Mário, Zilda e Oscar. Em  novembro de 1931, em sua residência na rua São Paulo, Manoel foi vítima de um atentado a tiro por um sócio de sua fábrica de macarrão, mas dona Maria da Glória, ao defender o marido, tomou o tiro e morreu.

Coronel da Guarda Nacional, ele foi um dos fundadores da Beneficência Portuguesa e seu presidente entre 1930 e 1932. Teve uma casa comercial na rua Araújo Leite e possuiu o Hotel Seabra. Foi o fundador da Vila Seabra, do Vila Seabra Futebol Clube e vereador na Câmara de Bauru, em 1903. Do serviço de telefonia montado pelo Capitão João Antônio Gonçalves, no início do século XX, ele recebeu o telefone número 1. Alves Seabra faleceu em 13 de setembro de 1946. 


Amigos também são família

É como dizem: “amigos formam a família escolhida a dedo”. Assim sendo, também é comum que grandes grupos de amigos se reúnam para celebrar a vida e a amizade. Um exemplo tradicional na cidade é o grupo Serpentário, que se encontra todos os anos para um almoço festivo, nas dependências do Bauru Tênis Clube (BTC), para comemorar a existência do grupo que, este ano, completará 35 anos.

Formado por profissionais de diversas áreas, como empresários, médicos, advogados, juízes, promotores de Justiça, procuradores.... Atualmente, o Serpentário conta com cerca de 50 integrantes. Faça chuva ou faça sol, o domingo é o dia dos amigos.   

Segundo Raduan Trabulsi (integrante e um dos fundadores) comentou ao JC na comemoração de 34 anos do grupo, tudo começou com cinco amigos que se encontravam em restaurantes e bares da cidade. A “equipe” adotou o BTC para os encontros e foi batizada de Clubinho. Mais tarde, ganhou novos membros e virou Serpentário em 2000.

Presente desde o primeiro encontro, Raduan disse que sente um prazer imenso com a amizade que os integrantes nutrem. “A amizade é leal, só traz alegria para os nossos dias. Além disso, outra realização é a continuação do grupo com os filhos, que já nos acompanham. Espero que eles perpetuem o time”.

De longa data
César Gobbi, o Gobinho, também um dos pioneiros, comenta sobre a “irmandade” existente entre eles. “Eu me reúno ao menos duas  vezes por semana com os mais próximos para tomar um café e colocar o papo em dia. Somos como irmãos”, diz.

Segundo Gobinho, as primeiras reuniões foram marcadas por jogos de basquete e aperitivos. “Com a idade, o basquete se foi, mas o aperitivo continua”, brinca. E tudo começou há pelos menos 50 anos, com a formação do primeiro time de basquete da Luso. “Eu e alguns amigos integramos essa equipe. E Raduam foi o nosso técnico. Então ele é como um pai pra gente”.