A onda de desemprego ainda vai se agravar, mas, até o final do ano que vem, a inflação terá queda e o País não voltará a registrar crescimento negativo. A possibilidade de recuperação da economia, contudo, só deverá começar a desenhar a partir de 2017, conforme avalia o presidente da Ordem dos Economistas do Brasil e professor doutor da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (FEA-USP), Manuel Enriquez Garcia, que esteve nesta semana em Bauru.
Em entrevista concedida ao Jornal da Cidade, ele analisou a estratégia de crescimento adotada pelo governo federal ao longo da última década e destacou que, mesmo diante do atual cenário de recessão, os ajustes fiscais são necessários para recobrar a confiança no País. Leia, abaixo, os principais trechos da entrevista.
JC - O que levou o País a este momento de recessão?
Garcia - Em seu primeiro governo, a presidente Dilma continuou adotando um modelo de crescimento baseado fortemente no consumo das famílias. E, para isso, era muito importante a atuação dos bancos públicos. O Tesouro Nacional se tornou captador de recursos de dívida do governo. Estes recursos seriam captados a 14,25% ao ano, mas repassados para o BNDES, Caixa Econômica Federal e Banco do Brasil a uma taxa de juros de longo prazo de 5,5%. Ou seja, um subsídio de crédito muito grande. E este sistema continuou ao longo de 2012, mesmo o governo sendo alertado sobre o erro desta forma de financiar o consumo das famílias. E ele começou, ainda, a abrir mão de uma série de tributos, como o IPI de automóveis e produtos de linha branca, ao mesmo tempo em que fez desonerações da folha de pagamento, também reduzindo a arrecadação federal, como forma de aumentar a capacidade de produção e vendas da empresas e de manter o nível de emprego. Desde 2002, o modelo é o mesmo: incluir uma parcela grande da sociedade no consumo para inseri-la na classe média.
JC - Promover o crescimento por meio do consumo se comprovou um equívoco?
Garcia - Faltou o investimento governamental, que poderia ter sido feito em 2006, 2007, por meio de parcerias público-privadas, por exemplo, já que o governo tinha uma capacidade muito pequena de investir. A manutenção de um modelo econômico baseado exclusivamente no consumo se esgotou em 2011. E, ao mesmo tempo em que abriu mão de receitas, o governo aumentou gastos com programas sociais que, em sua origem, tem uma concepção interessante, mas se mostram ineficazes, porque não há um controle efetivo sobre quem realmente deve e precisa continuar recebendo o subsídio.
JC - O setor privado, neste contexto, teria condições de alavancar o crescimento econômico?
Garcia - A partir do segundo trimestre de 2013, houve uma contração brutal do investimento privado em relação ao Produto Interno Bruto, provocado por dois motivos fundamentais. O primeiro é o aumento dos salários no setor industrial muito acima da inflação e dos ganhos de produtividade, o que gerou elevação de custos e consequente redução nas margens de lucro das empresas. A segunda é a taxa de câmbio. Em agosto de 2014, o dólar estava a R$ 2,20, o que tirava competitividade das indústrias, que não tinham como exportar. Na época, estudos apontaram que mais de 60% delas ficaram sem capacidade de realizar novos investimentos. Ficamos no pior dos mundos.
JC - A reação do governo foi tardia?
Garcia - Por meio do Tesouro Nacional, o governo começou a fazer empréstimos junto a bancos privados, as chamadas pedaladas fiscais, para cobrir o rombo dos programas sociais e do Programa de Aceleração do Crescimento. Foi um processo bastante lento, mas com muita capilaridade destrutiva. Em 2014, crescemos 0,10% e, em 2015, na melhor das hipóteses, iremos crescer -3%, com uma inflação estimada em 9,72%. É um quadro que não se desenhou de repente. É um processo que se instalou desde o primeiro governo da presidente Dilma, com uma continuidade da política de aumento de consumo das famílias, com milhões de famílias totalmente endividadas. Outro agravante foi o fato de não haver nenhuma alavancagem do setor externo, que existia no governo Lula com a alta dos preços das commodities, a balança comercial extremamente favorável e o financiamento de bancos estrangeiros.
JC - Hoje, com a alta do dólar, as únicas empresas que têm algo a comemorar são as exportadoras?
Garcia - As empresas estão recuperando lentamente as margens de lucro. Com o dólar indo a R$ 4,00 - patamar que deve se manter pelos próximos dois, três anos, com tendência a subir -, é uma alegria para as exportadoras, bem como para as que produzem bens de capital, já que o custo para a importação de maquinários fora do País aumentou consideravelmente. No setor externo, temos boas notícias. A balança comercial deve fechar em US$ 15 bilhões positivos, com previsão de encerrar 2016 com o dobro disso. A conta corrente, que é a necessidade de financiamento do setor externo, que estava em torno de US$ 80 bilhões negativos, deve chegar a US$ 45 bilhões negativos no ano que vem. Significa dizer que não há pressão sobre o câmbio e isso é um alívio.
JC - As incertezas sobre como e por quem o País será conduzido nos próximos anos protelam uma eventual retomada do investimento por parte do setor privado?
Garcia - Não sabemos se a presidente sofrerá impeachment ou se vai renunciar. Sem ter alguma certeza sobre o futuro político do Executivo nacional, não sabemos o que irá acontecer com o ajuste fiscal. O ministro (Joaquim) Levy tem boas intenções, com um programa fiscal que tem a única finalidade de resgatar a confiança nas ações do governo federal. Mas os empresários seguem sem saber o que fazer. O ideal seria que esta questão política (impeachment), pelo sim ou pelo não, fosse resolvida o mais rapidamente possível. Já estamos há quase um ano nesta agonia.
JC - Com este cenário de incertezas, a expectativa é de que a onda de desemprego se agrave ainda mais?
Garcia - O desemprego ainda não atingiu o seu máximo, infelizmente. Acredito que só em agosto do ano que vem, se tudo andar bem do ponto de vista político, poderemos encontrar melhores condições de olhar para frente. Até o final de 2015, deveremos ter 2,5 milhões de postos de trabalho perdidos. Muita gente se realoca, mas com diminuição dos salários. Não é, contudo, o ajuste fiscal que está causando o aumento do desemprego, mas sim a falta de confiança nos atos do governo, que gera esta inércia da classe empresarial, também afetada pela ausência de dinheiro para fazer investimentos, já que a fonte de recursos, o BNDES, está fechada.
JC - O senhor avalia que os ajustes fiscais, mesmo diante de um quadro de recessão, são a única saída para contornar a crise?
Garcia – São medidas que buscam resgatar a confiança. Continuar concedendo crédito não vai fazer a economia girar e não adianta o governo se endividar para salvar o emprego, se não há confiança de que ele conseguirá equilibrar suas contas.
JC - A possibilidade de retomada de confiança, investimento, produção, nível de emprego, oferta de crédito e consumo é prevista para quando?
Garcia - A tendência da taxa de inflação para 2016 é declinante em relação a 2015. Em razão da demanda reprimida pela queda no consumo, a previsão é que o índice feche em 6,2%, com ‘não crescimento de 1,2% no ano que vem. Mas, a retomada gradual, na prática, só deve vir a partir de 2017.