09 de julho de 2026
Articulistas

Aqueles que a gente não vê

João Pedro Feza
| Tempo de leitura: 2 min

O comentarista Ricardo Boechat passou os últimos dias praticamente pedindo desculpas a seus ouvintes e telespectadores da Band por não conseguir sair do disco riscado da politicagem brasileira. Ele se sente preso ao tema único dos escândalos nacionais. Por dever de ofício, segue analisando a inesgotável sucessão de reveladores episódios.

Boechat e outros comentaristas bebem da fonte farta de terríveis desmandos e tenebrosas suspeitas a desafiar nossa democracia. Invariavelmente são notícias envolvendo movimentação ilegal de milhões e milhões (e milhões) de reais.

Um aspecto, contudo, a mim causa especial apreensão: longe das câmeras nos épicos momentos das prisões, quem serão os criminosos de terno e gravata que estão quietinhos nos seus cantos? Na moita e na maior, só confabulando nos bastidores, conspirando... Na torcida para que a onda moralizante não possa atingi-los. Quem e quantos são?

E em que instância da vida pública (e também da privada) se escondem os peixes médios do mar de lama? Aqueles que mordem menos que os tubarões, mas igualmente trituram a lei? Santos do mal no baixo clero; intermediadores de negociatas; espertinhos e oportunistas fora do alcance do grande público; safados sem holofotes em suas caras de pau.

Dá para imaginar quantos não foram, e nem serão, denunciados? São vidas inteiras dedicadas a usurpar, a mentir, a fingir, a rir dos honestos de reta trajetória. Às vezes, até parece que vivemos uma inversão do que se conhecia até então: grandes criminosos de gabinetes no cárcere, o que é ótimo, mas tantos outros menores soltos por aí - e em plena ilícita atividade.

O que é errado precisa ser exposto, os protagonistas do horror devem ser punidos, mas o saneamento todo tem um efeito curioso: joga na nossa cara limpa que, talvez, nunca tenhamos ido mais do que uma pífia republiqueta. Espero estar errado. Tudo isso reverbera como um efeito colateral do tranco ético que balança nossas estruturas, e precisa mesmo balançar. Até que para algo novo possa surgir no lugar: algo mais sólido, respeitável, digno e elogiável.

Que o País siga com firmeza no encalço dos larápios de grana e esperança, mas que não nos esqueçamos dos fingidores intermediários. Aqueles que, como ETs na Terra, ainda não foram identificados, mas existem e operam e não largam o osso. Gatunos de unhas afiadas que sabem mais do que arranhar discos. E que, se seguirem livres, forçarão o Brasil a ficar

preso no seu tema único: a roubalheira de sempre

O autor é editor executivo do JC