15 de junho de 2026
Ciências

O que farás com o seu corpo morto?

Alberto Consolaro
| Tempo de leitura: 4 min

Reprodução
Vigor e beleza são consumidos pelos vermes, bactérias, fungos e parasitas

Quando se fala “vermelho” lembro dos vermes pequenos que emprestaram o nome à linda e rubra tonalidade da vida no sangue das carnes, na flor e dor de amor escorrendo na face envelhecida e virtual dos amantes teimosos!

Vermes são pequenos insetos que nos museus limpam os esqueletos recém chegados a ser montados para exposições e análises. Não tem quem limpe tão bem os ossos melhor do que os vermes e formigas. Em poucos dias comem os resquícios de carnes que possam ter ficado nas reentrâncias e fissuras ósseas deixando tudo pronto para montar o esqueleto. Um ratinho enterrado no jardim, depois de algumas semanas, estará pronto para ser lavado. Depois coloca-o esqueleto em caixa de plástico sobre o solo para ser finalizada a limpeza. Os insetos comem tudo, no mínimo detalhe, restam os ossos!

Em cubas de vidro, um crânio humano sai limpinho com os dentes reluzentes pronto para ser estudado, mas tem que ser por alguns dias, e ainda assim, nesta cuba com apenas uma espécie de verme ou inseto. Debaixo da terra, um cadáver vai sendo perfurado por todos os meios e lados pelos insetos e outros seres subterrâneos. “Ca-dá-ver” vem do latim ‘carne dada aos vermes’.

Depois de 2 a 3 anos, em muitas situações diferentes, a família é convocada para acompanhar a realocação de um cadáver de um ente querido. Em geral se troca a urna onde estava o morto e seus restos mortais são agrupados em um pequenino saco plástico para ser deixado em cantinho do túmulo familiar. Todo o corpo neste período foi consumido pela intensa vida da terra que recebeu o corpo.

Se pode perguntar: mas o que fazer? Em vez de dar seu corpo para os vermes, se pode queimar ou incinerar. Será tudo mais limpo e as cinzas jogadas no ar, na água, enterrada ou guardada na casa dos entes queridos. Além de comida de vermes ou virar cinzas se tem uma terceira opção: doar o corpo para se estudar a anatomia e pesquisar nas faculdades de medicina e outras áreas biomédicas. Ou doa para transplantes!

Na Flórida e outros estados virou moda cursos para cirurgiões e outras especialidades treinarem procedimentos em corpos recém mortos ou “cadáveres frescos”. Tal como se o “paciente” estivesse na mesa cirúrgica, o profissional corta, sutura, opera, muda a face, tira os ossos e depois de finalizado o treinamento se recoloca as coisas no lugar e devolve o corpo para a família 48h depois. O que a família e o morto ganha? Tudo do funeral, sem qualquer inconveniente, será providenciado e pago pela empresa.

Um fato me levou a escrever sobre este assunto. A paciente chegou para o aluno na faculdade e disse: gostaria de falar com o professor. - Olha, já tentei várias vezes doar o meu corpo para a faculdade para que possam estudar e pesquisar, mas ninguém me dá crédito. O senhor pode me ajudar?

O professor encaminhou a mulher para os procedimentos burocráticos e necessários para a doação. Uma vez cumpridos os trâmites, a mulher disse: amanhã trago uma amiga que quer fazer o mesmo! Depois procurou o professor e expressou sua gratidão imensa por ter mostrado o caminho para a doação!

Na volta pra casa o professor, ainda no carro, não conseguia parar de pensar: o que faz um ser humano ter o desprendimento de doar o seu corpo para ser estudado anatomicamente e de forma experimental para vários procedimentos, sem qualquer benefício para si ou para seus descendentes?

Talvez sejam pessoas que verdadeiramente acreditam no corpo apenas como morada de alma, espírito ou ser etéreo, e que na morte se desprende e despede-se para seguir nova etapa no caminho evolutivo. Taí, esta deveria ser uma prova de fogo de fé: se acreditas em espírito e alma, deves doar o corpo depois da morte, já que o mesmo representa apenas instrumento e morada transitória! Pelos menos doem órgãos para transplantes!

Abaixo da terra nosso corpo não descansará em paz, os vermes não deixam! Se viramos cinzas, não adubaremos e nem mudaremos o planeta. Mas, se doarmos, muitos aprenderão e treinarão, em nossas carnes funestas, como fazer para salvar outras vidas ainda presas a esta coisa efêmera que chamamos de corpo!

Reflita: você doaria seu corpo para estudo e pesquisa em uma Faculdade de Medicina? Por que não?

OBSERVATÓRIO
Comparem! –
Depois de 5 concursos públicos um professor titular das universidades paulistas pode ter salário com 21 mil de teto, enquanto nas federais é de 33 mil, apesar da carreira ser bem menos exigente. O corte atinge os méritos obtidos a cada 5 anos. O êxodo para federais e empresas já começou! A referência-teto é o salário do governador que não inclui as mordomias do cargo: casa, carro, empregados, comida, roupas, etc.

Mórbidos – Cadáveres humanos têm multiusos: testes de balísticas para testar armas de fogo, simulações de acidentes com carros para aumentar a segurança, estudar como os corpos se comportam depois de crimes e acidentes aéreos. Tudo isto é descrito em detalhes por Mary Roach em seu livro

Alberto Consolaro é professor titular da USP - Bauru. Escreve todas as segundas-feiras no JC.

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