08 de julho de 2026
Articulistas

Falar de improviso

Alfredo Enéias Gonçalves d?Abril
| Tempo de leitura: 3 min

Uma das turmas de formandos em Direito da ITE da década de 80 convidou para paraninfo o advogado Ibrahim Abi-Ackel, então deputado federal por Minas Gerais em sete legislaturas e ministro da Justiça por cinco anos do governo João Batista Figueiredo, o qual acedeu ao convite e compareceu na solenidade da formatura realizada no antigo salão de festas do Bauru Tênis Clube. Ficou ao desconhecimento de muita gente o porquê do convite se direcionar a uma pessoa estranha ao corpo docente dos formandos, quando a praxe aconselhava à comissão de formatura das turmas de Direito que submetesse o paraninfo à escolha dos colegas do nome de um professor que tivesse ministrado aulas durante o curso. Mas, enfim, escolhido em desconformidade com o habitual e aceito o convite, na noite festiva da formatura ali estava o paraninfo compondo a mesa das autoridades.


O protocolo impunha que o paraninfo usasse da palavra para saudar os formandos num discurso escrito, evitando discorrer de improviso porque seria indesculpável para o orador cometer deslize durante a fala, tropeçando em palavras pronunciadas de modo inadequado, alheias ao contexto, recheando uma frase construída por um raciocínio desordenado. Mas o paraninfo quebrou o protocolo, levantou-se e iniciou a saudação com as mãos limpas, alinhado num elegante terno marrom escuro, sem nenhum escrito a orientá-lo silenciando a tagarelada platéia ansiosa pelo começo da solenidade. O majestoso silêncio durante o discurso revelou a boa receptividade do público que atento o escutava. Ouviu-se um discurso de quem se mostrava familiarizado no bom trato das palavras e convivente com situações semelhantes, notadamente de pessoa vocacionada pela virtude de falar em público sem a necessidade de planejar por escrito o que teria de dizer.


Discursar em público de improviso e corretamente não é obra para qualquer mortal. É preciso ter o domínio das palavras bem escolhidas e conectadas pela destreza de um indefectível e ligeiro raciocínio. O homem público que titulariza uma função de comando, geralmente se acautela num assessor que cuida com antecedência do discurso sobre o tema que irá discorrer em alguma solenidade. Ninguém gostaria de ser pego de surpresa por um equívoco facilmente evitado se as palavras fossem lidas e não livremente pronunciadas. Tomado esse cuidado, elimina-se a possibilidade de gafes e vexames. Mas nem sempre é assim.


São raros os discursos de nossa presidente da República que primam pela transmissão de idéias límpidas e conexas. A maioria de seus discursos é de improviso seguindo-se a facilidade de descrever passagens confusas e hilárias. Mesmo quando a oratória é lida, como foi na ONU, às vezes deixava de ler e improvisava descrições absurdas, como aquela dita ao presidente dos Estados Unidos que a “pasta quando sai do dentifrício não volta mais ao dentifrício”. Os colecionadores de suas “pérolas” relacionaram várias delas na internet.

Eis algumas, dentre tantas mencionadas em tom jocoso: “Nós não vamos colocar uma meta. Nós vamos deixar uma meta aberta. Quando a gente atingir a meta, nós dobramos a meta”; “A autossuficiência do Brasil sempre foi insuficiente”; “O meio ambiente é sem dúvida nenhuma uma ameaça ao desenvolvimento sustentável”; “Eu quero adentrar pela questão da inflação e dizer a vocês que a inflação foi uma conquista desses dez últimos anos do governo do presidente Lula e do meu governo”; “A avaliação nossa é que houve, de dezembro a fevereiro, um fenômeno em cima da Bolívia, entre a parte sul, se eu não me engano, centro e a parte norte ou sul, a centro eu tenho certeza, a sul eu esqueci se é sul ou se é norte”; “Em Portugal, o desemprego beira 20%, ou seja, 1 em cada 4 portugueses estão desempregados”.

Este último trecho avulta a conveniência do discurso ser preparado com antecedência. Nas 12 palavras e nos 3 números empregados, a presidente cometeu atentado ao vernáculo numa gritante incorreção de concordância e elementar erro de cálculo. Mas ela está apenas na fase de aquecimento, porque não haverá renúncia ou bom resultado no processo de impeachment desejado por quase 90% dos brasileiros. Até 2018 a presidente provocará muitas agressões ao idioma, estimulando boas gargalhadas.


O autor é professor universitário, aposentado