09 de julho de 2026
Articulistas

Ninguém nasce mulher

Luciano Olavo da Silva
| Tempo de leitura: 3 min

No último Enem (10/2015) foi citada a ativista social e filósofa francesa Simone de Beauvoir: “Ninguém nasce mulher, torna-se mulher”. Foi a deixa para que piadistas descolados, que sabem rir de tudo, menos dos próprios preconceitos e lacunas intelectuais, criassem todo tipo de piada de mau gosto e as espalhassem pelas diversas mídias e redes sociais. Por incrível que pareça, havia também mulheres jovens entre esses arrojados humoristas!


O que se intui a partir das piadas é que acharam inusitado alguém dizer que uma pessoa não nasce mulher, mas é transformada em mulher pelas forças sociais que moldam as sociedades. Os criativos humoristas não compreenderam, ou não lhes pareceu conveniente compreender, que obviamente não se falava da condição biológica de ser macho ou fêmea por conta da distribuição cromossômica herdada, mas sim das significações sociais que ser macho ou fêmea pode assumir em uma sociedade que inventa distinções antinaturais para hierarquizar pessoas segundo o gênero, a etnia, a raça e a preferência sexual, impondo a elas, por conta disso, a mais injustificável privação do direito fundamental à igualdade, além do martírio de uma vida de humilhações, violências, falta de oportunidades e servidão.


Não foi dito no texto que uma pessoa torna-se fêmea ao longo da vida, foi dito que ela, a fêmea humana, torna-se mulher ao longo da vida, assumindo para si, sem qualquer possibilidade de reação, os significados sociais de ser mulher (não de ser fêmea).


É claro que a fêmea humana torna-se mulher segundo o que isso significa na sociedade onde está inserida! Fêmeas humanas nascidas no Canadá, na Dinamarca, no Irã, na Índia ou na Síria são, do ponto de vista biológico, apenas fêmeas, iguais em suas potencialidades. Por outro lado, uma fêmea nascida em quaisquer desses países, do ponto de vista social, transformar-se-á em uma mulher totalmente diferente. Ou será que alguém minimamente lúcido é capaz de dizer que ser mulher na Índia, no Irã e na Síria é o mesmo que ser mulher no Canadá ou na Dinamarca?

Se há diferenças (e há), então essas diferenças foram criadas socialmente, culturalmente, e as fêmeas humanas se transformaram naquilo que suas sociedades hierarquizadas lhes disseram para se transformar, no intuito de que atendessem a interesses que não eram os seus.  Elas se transformaram nas mulheres que permitiram a elas ser, segundo o que significava ser mulher onde viviam, suportando dolorosamente todas as consequências: da burka ao apedrejamento, do desemprego à mutilação genital.


Infelizmente, os pseudo-humoristas, talvez por não compreenderem a profundidade dessa dor, preferiram tratar a questão com a superficialidade do riso irresponsável, ao invés de proporem uma reflexão apropriada à condição humana que eles, arrojados piadistas, dividem com as mulheres de que zombam.


O curioso desse episódio é que as piadas produzidas servem exatamente para confirmar o mal que elas não reconheceram: a má distribuição dos bens sociais nas sociedades hierarquizadas. Enquanto alguns gozam de liberdade para pensarem, dizerem e serem qualquer coisa, com licença até mesmo para serem os inconsequentes que transformam uma proposta séria de reflexão em uma piada de 5ª categoria, outros, ou outras, sequer têm liberdade para serem as mulheres que desejam ser, e, pelo simples fato de serem fêmeas, serão necessariamente as mulheres que suas culturas permitirem a elas ser, assumindo seus lugares na hierarquia perversa das sociedades onde estão inseridas e se conformando com as oportunidades disponíveis e autorizadas, ou com a falta delas. De fato, isso é muito engraçado.


O autor é analista judiciário, especialista em Direito Eleitoral.