08 de julho de 2026
Articulistas

As duas faces do Brasil

Pedro Grava Zanotelli
| Tempo de leitura: 3 min

Na década de 1930, o famoso prefeito de Nova York, Fiorello La Guardia, veio ao Brasil e foi hospedado pelo conde Francisco Matarazzo. Para mostrar São Paulo, o conde o levou até o topo do Edifício Martinelli, o mais alto da América Latina, na época. Ao mostrar-lhe a região da Penha e da Mooca, teria dito: “Qui se lavora” e, virando-se para o lado dos jardins, completou: “Qui se mangia”. Essas também são as duas faces do Brasil: os que labutam diuturnamente, no campo e nas cidades, produzindo para mantê-lo de pé e os que, conduzidos por eles para o necessário governo da nação, em grande maioria, dissipam a riqueza arduamente produzida, por desmandos e para enriquecimento próprio e de seus apaniguados.


Excluindo, necessariamente, as exceções, essa é a imagem de toda a República, dos municípios a Brasília. Com uma carga tributária considerada das maiores do mundo, falta recurso para atender o mínimo das necessidades da população nos municípios e nos Estados. Usando a técnica de espetar alfinete colorido nos mapas, poucos deles seriam suficientes para apontar as cidades, incluindo as capitais, onde não haja denúncia de corrupção e ou má gestão. A era ‘lulopetista’ está chegando ao fim de um sonho que começou dourado e se transformou numa tragédia. O deputado pernambucano Jarbas Vasconcelos, que foi prefeito de Recife, governador e senador, da ala rebelde do PMDB, em entrevista à Folha (26/10), desabafou: “Estou na política há mais de 40 anos e nunca vi nada parecido, um momento de degradação e deterioração, uma tempestade. Crise política arrastando crise econômica, moral e ética. E o mais grave é que não chegou ao fundo do poço, porque a crise não terminou nem vai terminar agora”.


Estamos no final do primeiro ano do segundo mandato da presidente Dilma e o que tomou mais tempo do governo até agora foi o esforço para negar que a crise, que despontou logo no início, era consequência do modelo de gestão seguido no mandato anterior. A candidata sabia que a situação vinha piorando, como provam as ‘pedaladas fiscais”, mas mentiu para se eleger. No íntimo sabia que o novo governo enfrentaria enormes dificuldades para pagar os erros, mas para não dar o braço a torcer, mesmo a contra gosto, nomeou o ministro Joaquim Levy, para fazer aquilo que ela dizia que, se o Aécio fosse eleito, seria feito pelo ‘bicho papão’  Armínio Fraga. O restante do tempo tem sido para tentar a aprovação do ajuste fiscal e para se blindar ao impeachment.


A presidente perdeu credibilidade, não consegue mais governar e enquanto a cúpula alojada em Brasília se perde em discussões egocêntricas, o País está parando. A arrecadação está caindo e o governo ainda quer criar novos tributos, o que agravará mais a crise. Enquanto se discute se a Dilma e o Cunha caem ou não caem, os empregos com carteira assinada, o ‘leitmotiv’ da esquerda, estão indo para a cucuia. E não é fazendo artesanato ou vendendo salgadinho que o Brasil voltará a crescer. Esses são recursos para salvação individual e o crescimento do país depende de empreendimento de impacto, com investimentos que gerem empregos. Foi dentro desse ambiente hostil ao empreendimento que a “Endeavor”, uma organização internacional sem fins lucrativos, realizou, no último dia 22, o se “CEO Summit SP” (Chief Entrepreneur Officer)”, um encontro de altos executivos, para inspirar e trocar experiências com quem também acredita no potencial do empreendedorismo para mudar o Brasil.


Entre os empreendedores presentes estava Jorge Gerdau, que tem tentado ajudar o governo, infrutiferamente. Sua opinião é que “O desafio atual exige reforma política, mas a solução está na sociedade civil, que ainda está omissa”. Para Pedro Luiz Passos, da Natura, “Há falta de liderança  capaz de construir consensos, uma visão de futuro para o Brasil. Sem isso as coisas não mudam”. “Se dimensionarmos a empresa para a crise, corremos o risco de estarmos desambientados para o futuro brilhante que esse país nos promete”, disse Flávio Rocha, presidente executivo da Riachuelo. Essa foi a tônica dos debates e só assim seria possível mudar a face do Brasil formada pela turma que apenas  ‘mangia’.


O autor é ex-presidente da Ordem dos Velhos Jornalistas de Bauru.