08 de julho de 2026
Geral

Racismo covarde brota na rua e na web

Nélson Gonçalves
| Tempo de leitura: 5 min

Mensagens de ódio nas redes sociais e insultos de conteúdo racial ganham dimensão, alimentam “batalhas virtuais” entre simpatizantes “ideológicos” contrários e ganham o protagonismo do impulso da ignorância comportamental. O chamado cyberbullying, definido como ofensa, discriminação ou ameaça digital, também ganha força, embora a prática leve a indenizações de até R$ 30 mil. Para especialistas, não falta mais “noção de conteúdo e consciência” em relação ao crime de racismo no Brasil, mas o aumento dos casos revela a sensação de impunidade, de um lado, o preconceito institucional na apuração e punição a esses tipos penais e o desmascaramento do preconceito, antes “protegido” pela ação velada, junto à sociedade.

Vítima de crime racial na porta do banheiro do câmpus da Unesp, o professor de jornalismo Juarez Xavier resiste ao insulto para tentar disseminar a discussão pública sobre as origens do comportamento covarde. “A produção de material a respeito do tema pela mídia comercial, insistindo em um tema que pode ser chamado de chato pra alguns, é um bom sinal de que vale apostar no caminho do uso do veneno da prática como impulso para um novo paradigma de compreensão e comportamento social. Ao invés de ficar na estampa do caso racista factual, essa discussão ajuda a martelar, aprofundar. É o caminho”, defende.

Objetivamente, para não repetir o eixo apenas do diagnóstico para os fatores socioculturais do racismo entre nós, Xavier propõe quatro ações. “A experiência internacional feita pela Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) é um bom referencial para agir. Primeiro, o debate consciente com a sociedade civil pra o entendimento do tema e suas dimensões; segundo a aplicação de mecanismos para dissolver o preconceito, conforme previsto em lei; terceiro a ampliação de políticas públicas concretas de inclusão; e o quarto eixo o combate ao ato racista levando ao pé da letra que este ato é contra o estado democrático de Direito,  contra a sociedade e não só o vitimado ou a minoria atingida”.

De outro lado, ainda no esforço de ação contra apenas a reflexão necessária do preconceito, Juarez Xavier acrescenta elementos que, em sua visão, materializam a segregação. “O pensamento conservador é histórico, intrínseco também, e não será combatido em uma fração de tempo. A visão de menor valia na presença do negro na sociedade precisa de reação, porque isso contaminou a sociedade nas várias formas de relações. A ausência de negros em núcleos importantes da representação social e áreas estratégicas de inserção social também colabora nesse sentido, de manutenção desse quadro”, amplia.

ATAQUE GRATUITO
No ponto de vista mais acadêmico da questão, o professor insiste na “ambiência conservadora”, em todos os níveis, que sustentam e mantém a prevalência do racismo. “O professor Cortella (o educador e filósofo Mário Sérgio Cortella) aponta com razão para a visão do Paulo Freire de que o racista não tem capacidade de argumentar e, por isso, vai para o ataque gratuito. Quem não é covarde vai para o debate, porque faz reflexão. Mas o racista ataca pura e simples, de forma grotesca, porque nada tem a oferecer além de sua ignorância no espaço social”, aborda.     

Juarez fala em tom que, para o pessimista, pode parecer paradoxal. “O impulso dos ataques covardes, nas redes sociais, são apenas a derrubada do que era velado, mas que só confirma que o preconceito é disseminado. Mas aproveitar essa onda de ataques e insultos é fundamental. É chato o meio de comunicação discutir isso? Não. Ainda vale o ditado: água mole em pedra dura... então vamos mover esse ranço”, convida.                   


Crespas e cacheadas

Aqui e acolá, o despertar da consciência contra o racismo promove ações de leveza comportamental, mas recheadas de simbolismo de posicionamento social.

Em Bauru, por exemplo, mulheres se reuniram em eventos de arte, beleza e cultura, ‘batizando’ o núcleo de Movimento das Crespas e Cacheadas. Para a jornalista Ivana Santos, uma das integrantes do grupo, não é só uma questão de opção por modo de vida.  “É uma forma social, integrada, de demonstrar para os demais que o chamado cabelo natural, todo cacheado, é não só lindo, mas nossa maior expressão. Nada contra a chapinha ou produtos químicos, mas contra o modismo e a favor de nossa maior expressão de ancestralidade. E isso começa pela aceitação entre cada um”, replica.


Anonimato? Autor sempre deixa seu rastro na rede

Atuando como delegado federal e, em especial, na investigação de crimes de racismo e pedofilia nas redes sociais, o professor José Fernando do Amaral Júnior, afirma: “É preciso reforçar que o autor de um crime virtual sempre deixa rastro”.

Contudo, na avaliação do delegado aposentado, é exatamente a sensação de estar escondido em um site - e aparentemente acobertado por um provedor – que estimula o anonimato do crime. “A maioria dos usuários não tem domínio do básico sobre o uso das redes, mesmo as páginas mais objetivas como Facebook. E esses usuários acham que basta criar uma conta com apelido que está tudo falso, tranquilo, anônimo. E não é assim. A polícia rastreia, identifica e chega a esses criminosos”, garante.

“Cada vez que você publica algo em uma rede social deixa um rastro que a polícia consegue buscar com as ferramentas tecnológicas disponíveis. O que falta ao Estado brasileiro hoje é maior aparato, amplitude. Mas identificação não é mais problema”, reforça.

José Fernando classifica o crime de racismo como “odioso, porque é exatamente a covardia do anonimato aparente que serve de estímulo para que essas pessoas o pratiquem. O falso anonimato cria essa falsa sensação de segurança”.

Por fim, o professor universitário sugere que o País tem de ampliar acordos internacionais sobre provedores para avançar na investigação. E, nesse ponto, há um conflito. “Os maiores provedores, como o Google, o Facebook, todos hospedados nos EUA, ameaçam deixar o País se o governo endurecer. E isso causaria sérios problemas de comunicação. O marco regulatório hoje é muito genérico e não resolve isso”, finaliza.