Na Declaração Universal dos Direitos Humanos, falta um direito. “Todos os seres humanos têm o direito de morrer sem dor”.
Haviam acabado de jantar. Pai velho e filho médico vão à sala de estar, para conversar. Conversa mansa, gostosa... De repente, o filho nota que o pai ficou silencioso, não mais reagia às suas palavras, a cabeça pendia para o lado... Médico, ele compreendeu imediatamente; seu pai morrera. Fez aquilo que lhe haviam ensinado e que fazia parte do seu automatismo médico: deitou o pai no chão, fez respiração boca-a-boca, massagem cardíaca, lutou contra a morte como é dever dos médicos. O coração recomeçou a bater. A respiração voltou. Seu pai voltou a viver. Mas houve sequelas. Ele perdeu o controle dos seus movimentos e ficou obrigado às humilhações e incômodos do fraldão. Assentado na sua cadeira, ele olhava o filho e lhe dizia: Por que você fez aquilo? Eu morri tão feliz, em meio à nossa conversa... Mas você me trouxe de volta e agora estou aqui. Por que você fez aquilo, filho?
A vida humana, diferente da vida dos bichos e plantas, se mede por sinais biológicos, e se mede também por possibilidade de alegria que ela contém. Quando essa possibilidade não mais existe, uma pessoa têm direito de exigir que sua vida não seja mantida por meio de aparelhos (a ideia de que a medicina é uma luta contra a morte está errada), porque cada pessoa é senhora de sua própria vida.
Há uma hora em que o corpo e a alma desejam partir, e, se assim desejam, não deve impedi-los por meio da força, mesmo que seja a força médica. Fazer isso seria uma crueldade que não se pode admitir. Somente aqueles que se tornam discípulos da morte sentem a doçura da vida. Quem não é discípulo da morte fica sempre achando que ainda há muito tempo e, com isso, não se dá conta dos morangos que há à beira do penhasco. Ele pensa que há um lugar onde chegar. Não há. Todos os caminhos levam ao mesmo fim. Na vida só há o caminho.
A sociedade finge que ela não existe e, quando acontece, perturba e transtorna. Claro que perder um ente querido é muito triste, mas fechar os olhos e negar a existência da continuidade da vida, é iludir-se à si mesmo.
Temos tendência a acreditar no que queremos. Normalmente, poucas pessoas se preparam para esse fato natural da vida. Não deveríamos ter pavor da morte, e sim entendê-la, pois se tivermos conhecimento, faremos essa mudança com mais facilidade e aceitação.
“Tolo é aquele que naufragou seus navios duas vezes e continua culpando o mar”.
Azis Neme