Missão ingrata essa de substituir alguém. Porque imediatamente à substituição vem a comparação – e a cobrança. Essa quase automática situação fica ainda mais evidente na música. Para os fãs, um ídolo sempre será insubstituível. Mas a roda gira, o novo sempre vem, etc. etc. Se nada mudou, no fim da noite de ontem a Legião Urbana se apresentou em São Paulo com André Frateschi, 40 anos, ator e músico paulistano. Imagine a posição do cara: à frente dos legionários fundadores Dado e Bonfá, segurando o microfone no pedestal com as duas mãos, sabendo que aquele posto foi (ou sempre será) de outro cara: Renato Russo. Baita pressão.
Recentemente, quem precisou se impor, a seu jeito, e diante da multidão planetária, foi Adam Lambert – vocalista do Queen. Do Queen! A pessoa olha o palco é quer ver Freddie Mercury. Não importa se está morto desde 24 de novembro de 1991. A produção que dê seus pulos. Foi o que tentou fazer, em novembro de 2013, a produção de show de homenagem a Cazuza ao inserir no palco, ao lado de músicos reais, o holograma do artista. Na verdade, não ao lado, mas ao fundo, o que causou certa estranheza. É bem provável, contudo, que a tecnologia avance rapidamente e esse detalhe, que fez toda a diferença, seja corrigido em breve.
Coincidentemente, Renato, Freddie e Cazuza têm em comum o motivo de suas ausências: a famigerada Aids, um mal incomparável que ainda está por aí. E que deve merecer atenção total, especialmente de toda uma geração que não tem a dimensão do problema como outros tiveram nos anos 80 e 90. Não vale substituir saúde por prazer inseguro, mas muitos ainda parecem não assimilar a clareza do risco. Aliás... quem nunca? Fato é que essa doença sequer teve piedade ao causar desfalques – e, na música, deixou o rojão nas mãos dos substitutos de plantão.
Mas, para encerrar numa boa, não poderíamos deixar de falar da Calypso, é claro. Que agora tem nova vocalista: Thábata Mendes, 30 anos. Uma fã escreveu em rede social: “Espero que não seja um ‘xerox’ da Joelma”. A “Barbie de Mossoró”, como é conhecida na cidade do RN onde tem loja de moda, não pareceu se intimidar e foi logo pedindo “respeito”. Afirmou que ocupa “espaço”, não “lugar”, da antecessora. Substitutos: ao trabalho. Vocês realmente podem tirar a sorte grande ao ganhar tal chance, mas o páreo é duro. Por falar nisso, e para não perder a viagem, já deixo um pedido aos futuros substitutos de grandes cargos na política: não sejam ingratos. Na política, sim, ninguém aguenta mais tanto disco riscado, tanta música ruim.
O autor é editor executivo do JC