09 de julho de 2026
Articulistas

Muda o poema, permanece o problema

Roberto Magalhães
| Tempo de leitura: 2 min

O pequeno vagalume inveja o brilho da distante estrela, que inveja o lume grandioso da lua, que inveja a escancarada luminosidade do Sol, que, cansado de gerar tanta luz, inveja a liberdade e o descompromisso do  pequeno vagalume. Eis uma pequena síntese do poema Circulo Vicioso, do genial Machado de Assis.


De maneira solar, ele nos mostra que é comum não valorizarmos o que temos para desejar apenas o que do outro é. Pergunto-me por que somos assim? Por que  achamos que a luz do outro  brilha mais? A grama do vizinho, por exemplo, é sempre mais verde; a galinha do vizinho, mais gorda e a mulher do vizinho..., bem a mulher dele é só dele e o assunto está encerrado.  


Sofrendo por estar esquecido na sombra do anonimato, a pessoa comum inveja o brilho das celebridades, a fama, o sucesso midiático. Outra, contudo, é a inveja dos famosos. Na mira dos fãs e das lentes perseguidoras dos “paparazzi”, gostariam de poder ir à padaria sem assédio ou constrangimento, exatamente como faz qualquer pessoa comum. Eis o círculo vicioso.


Olhos temos para o que é do outro,  aquilo que nos falta e nos faz infelizes. O que  é nosso verdadeiramente, isso pouco vale. Nossos olhos cobiçosos gostam mesmo é  de vitrines. Ainda que nos custe os olhos da cara, às vezes conseguimos ter o que outro tem. Resolvido? Nada resolvido. A fome continuará, sempre haverá um prato irresistível na mesa que não é nossa. Sempre haverá alguém com brilho maior, o que significa sofrimento constante por não sermos ou  não termos. Assim é o  homem, o eterno insatisfeito, pisando  movediço solo. A cada desejo, mais se atola.


Larguei Machado, fui ler Drummond. “João amava Teresa que amava Raimundo que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili que não amava ninguém”. Novo círculo vicioso? De uma certa forma sim. Mudou o poema, permanece o problema. De novo, cada um de olho no  que não tem. João queria Teresa, mas Teresa queria Raimundo e, assim, a vida vai enfileirando desencontros. Mundo complicado  este nosso vasto mundo e, o pior, Raimundo é  apenas uma  rima, nunca solução.

E a Lili que não amava ninguém foi a única que  se casou. E, interessante, com J. Pinto Fernandes, que não fazia parte da história. Para não deixar escapar  o humor sutil de Drummond, tenho que enfrentar a pergunta difícil: afinal, o que tinha esse J. Pinto que os outros homens do poema não tinham? Não havendo malícia, a resposta é bem simples: Lili, sabida como era, casou-se com um sobrenome. E não foram felizes para sempre.


O autor é professor de redação e membro da Academia Bauruense de Letras - ABL