11 de julho de 2026
Nacional

Lava Jato investiga se ex-assessor da Casa Civil recebeu propina de Youssef

Estadão Conteúdo
| Tempo de leitura: 3 min

A Operação Lava Jato investiga se o ex-assessor especial da Casa Civil Charles Capella de Abreu recebeu R$ 2 milhões do doleiro Alberto Youssef em 2010. Esse valor, conforme as apurações em curso, pode ter abastecido a campanha presidencial de Dilma Rousseff naquele ano. 

Reprodução Internet
Esse valor, conforme as apurações em curso, pode ter abastecido a campanha presidencial de Dilma Rousseff naquele ano. 

Youssef, peça central da Lava Jato, afirmou em novo depoimento prestado à Polícia Federal no dia 29 de outubro último, que fez um pagamento com dinheiro em espécie no Hotel Blue Tree, na Avenida Brigadeiro Faria Lima, em São Paulo, a um emissário que ele não sabe dizer quem era. A suspeita dos investigadores recai sobre Capella de Abreu, que foi da Assessoria Especial da Casa Civil da Presidência da República e atuou nas duas campanhas eleitorais da presidente.

O Estado não conseguiu localizar ontem Capella de Abreu. Segundo informações do governo, ele não trabalha mais na Casa Civil da Presidência, de onde foi exonerado em dezembro de 2014

O nome "Charles" também aparece na delação premiada de Fernando Soares, o Fernando Baiano, como sendo um emissário responsável por receber R$ 2 milhões do esquema na Petrobras. É com base no cruzamento dos relatos de Baiano e de Youssef que a investigação aponta para Capella de Abreu. 

"Tal pessoa tinha pele branca, estatura média alta, sendo um pouco mais alto que ele (Youssef), que tem 1,71 m, compleição física normal, não se tratando de pessoa obesa ou de barriga saliente", descreveu Youssef à Polícia Federal.

O suspeito recebeu o doleiro em um quarto do hotel, relata o doleiro, que disse não se lembrar exatamente o mês, nem o dia, possivelmente "no período de junho a outubro de 2010". Segundo o doleiro, o dinheiro foi entregue a pedido do ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa, outra peça importante da Operação Lava Jato. "Os R$ 2 milhões determinados por Paulo Roberto Costa a essa tal pessoa foram entregues em uma ou duas malas pequenas, do tipo daquelas que se leva como bagagem de mão em voos comerciais", afirmou Youssef ao delegado Luciano Flores de Lima, da Lava Jato.

Foto

A PF mostrou uma foto de Charles Capella de Abreu para Youssef para saber se poderia ser ele o emissário que recebeu o dinheiro da propina da Petrobras. "(Youssef) Reconhece como sendo possível que a foto seja de tal pessoa referida acima, para a qual entregou os R$ 2 milhões em notas cuja maioria (cerca de 85%) eram em cédulas de R$ 100 por ordem de Paulo Roberto Costa", registra a PF. Youssef disse ter de "70% a 80% de certeza" de que se trata da mesma pessoa.

Questionado se conhecia Charles Capella de Abreu, Youssef respondeu que o nome não era estranho, mas não se lembrava se realmente o conhecia.

Acareação

O pagamento de R$ 2 milhões à campanha presidencial do PT em 2010 foi inicialmente apontado aos investigadores da PF por Costa, o primeiro delator da Lava Jato, em agosto de 2014. O ex-diretor relatou ter recebido um pedido, via Youssef, que teria falado no nome do ex-ministro Antonio Palocci, coordenador da campanha de Dilma em 2010. O doleiro negou ter sido ele o autor do pedido e revelou posteriormente que outro operador de propinas traria à tona tal demanda. 

Foi o que ocorreu. Fernando Baiano, acusado de ser operador de propinas, em depoimento no dia 15 de setembro, afirmou ter aproximado Palocci de Costa. Segundo Baiano, ele acompanhou Costa em um encontro com Palocci, em Brasília.

"No final da conversa, Antonio Palocci disse que havia uma pessoa que trabalhava com ele, possivelmente um assessor dele, que o estava ajudando nesta parte de arrecadação", afirmou Baiano às autoridades. "Pelo que se recorda, o nome dessa pessoa era Charles."

Costa foi colocado frente a frente com Baiano na quinta-feira e negou que tivesse participado de reunião. O ex-diretor diz ter ouvido de Youssef o pedido de R$ 2 milhões para a campanha do PT por solicitação do ex-ministro.