| Alex Mita |
| Mônica Barbosa estudou o tema em seu mestrado, na UFBA, transformando-o em livro |
Fruto de uma pesquisa de mestrado da Universidade Federal da Bahia (UFBA), o livro ‘Poliamor e Relações Livres: do amor à militância contra a monogamia compulsória’ foi lançado neste mês em Bauru, na abertura do 3.º Seminário Internacional Gênero, Sexualidade e Mídia, realizado na Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação (Faac), da Unesp, entre os dias 4 e 6 de novembro.
A autora é a jornalista Mônica Barbosa, formada pela Unesp/Bauru, que estudou a temática das relações não-monogâmicas entre 2009 e 2011, durante o mestrado em desenvolvimento e gestão social na UFBA. “O interesse surgiu da própria vida particular e das situações que vemos no cotidiano. Depois, já no mestrado, decidi pelo assunto ao ter a disciplina cultura e identidade, com o professor Leandro Colling”, relata a autora.
Colling foi o orientador de Mônica na pesquisa do mestrado e, no fim do ano passado, a dissertação foi transformada em livro, publicado pela Editora Multifoco. “Eu nunca considerei a exclusividade como algo importante na vida amorosa e, naturalmente, sempre encontrei dificuldade ao defender essas ideias. Então, eu pesquisava e vi que havia o movimento poliamor, que surgiu nos anos 90, nos Estados Unidos. Até que eu tive a aula de cultura e identidade na UFBA e aí percebi que a associação entre sexualidade e desenvolvimento é muito mais forte do que se imagina”, explica.
De acordo com Mônica, o conceito de heteronormatividade pauta a sociedade nos dias atuais. “É o conceito da família padrão, heterossexual, homem e mulher e filhos. Outros modelos não são aceitos, como os relacionamentos homoafetivos monogâmicos, e também relacionamentos não-monogâmicos, seja hétero ou homossexual”, resume.
Diferenças
Na dissertação de mestrado, que resultou no livro, Mônica analisa tanto o poliamor como o movimento relações livres. Este último surgiu em Porto Alegre, no início dos anos 2000. No entanto, apesar das semelhanças, até pela causa defendida por ambos, existem diferenças, que são pontuadas pela pesquisadora.
“Tanto o poliamor como o relações livres é a possibilidade de você ter relações afetivas, amorosas e sexuais entre mais de duas pessoas. O poliamor começou a se organizar nos anos 80, mas ganhou força e o próprio termo “poliamor” surgiu nos anos 90. Ele se organiza principalmente pela Internet. O relações livres começou no Rio Grande do Sul. Embora tenha a mesma proposta, o discurso é um pouco diferente”, comenta.
“No poliamor, não é uma regra, mas é possível estabelecer relações de polifidelidade, que é a relação entre grupos fechados, que só permite a entrada de uma nova pessoa se houver o consenso de todos que participam daquela constelação afetiva. Por exemplo, se houver quatro pessoas envolvidas, para entrar uma quinta, as quatro devem concordar”, detalha. “Mas isso não é uma regra, é uma das possibilidades apenas”, completa.
Já o relações livres não concorda com a polifidelidade. “Essa é a principal diferença. E no relações livres há uma militância contra o casamento. Veja bem, não é ser contra a união de duas pessoas. O movimento entende que as pessoas têm a liberdade de se relacionar da maneira como achar melhor, e isso, claro, inclui uma relação entre apenas duas pessoas. Mas não concorda com o casamento formal como temos hoje, com o envolvimento e a regulação do Estado”, cita. “E também não é usado o termo ‘poligamia’, porque isso é quando apenas uma pessoa da relação tem envolvimento afetivo com várias, as outras não. E no caso do relações livres e do próprio poliamor, todos os envolvidos podem se relacionar com outros”, acrescenta.
AMOR E SEXO
Um dos aspectos considerados no poliamor e no relações livres é que as relações não necessariamente precisam envolver sexo. “Tratam-se de relações afetivas. Pode haver sexo, como pode ser apenas afetividade, sem a necessidade do sexo. Uma das discussões importantes que esses movimentos trazem é a separação do amor e do sexo, algo que culturalmente são colocados no mesmo pacote. Amor e sexo podem ser coisas separadas”, destaca.
Preconceito
Segundo a pesquisadora, em uma sociedade em que a monogamia é o único modelo aceito, outras formas de relacionamento são vistas com preconceito. “Quando vou falar do livro, geralmente já é um público interessado, que tem algum conhecimento. Mas fora desses espaços, tem muito preconceito, porque as pessoas já associam diretamente com promiscuidade. Como em qualquer relação, pode haver promiscuidade ou não, porém, já se associa isso às relações não-monogâmicas”, aponta.
Na pesquisa, Mônica procura jogar o assunto à luz da ciência. Como embasamento teórico, ela utiliza principalmente o conceito de biopolítica, do filósofo francês Michel Foucault. “Ele fala da sociedade na qual se cruzam as normas de disciplina e relações sociais. É uma sociedade que trata de disciplinar os corpos individuais para extrair o máximo no aspecto econômico. Os discursos sobre sexo, a partir do século 19, são hierarquizados para que se tenha maior controle. O Estado começa a tentar controlar isso”, menciona.
A pesquisadora cita ainda os direitos sexuais, que só se desenvolveram a partir dos anos 90. “São direitos reconhecidos na Conferência de Pequim, em 1995. São direitos que protegem principalmente a mulher e que muita gente ainda não entendeu. A mulher, por exemplo, tem o direito a não querer ter sexo, nem mesmo com seu cônjuge. Isso sem falar em outras lutas, como o direito ao aborto. Nesse aspecto, instituições como a Igreja, e não só a católica mas outras religiões, acabam sendo um empecilho para que haja avanços e as pessoas possam gozar de seus plenos direitos”, argumenta.
Venda
O livro ‘Poliamor e Relações Livres’ está sendo comercializado pelo site da Editora Multifoco (https://www.editoramultifoco.com.br/loja), ao preço de R$ 40,00.
17 anos longe
Mônica viveu a infância e adolescência na Grande São Paulo e chegou a Bauru com 18 anos para estudar Jornalismo na Unesp. Após concluir a graduação, em 1998, voltou para São Paulo e trabalhou na Editora Abril. Em 2003, mudou-se para Porto Alegre, onde passou a atuar no setor de gestão e projetos sociais. Em 2010, já na metade do mestrado, Mônica fixou residência em Salvador, onde está até hoje.
Curiosamente, depois de terminar a faculdade, ela não havia retornado mais a Bauru. Convidada para lançar seu livro durante o 3.º Seminário Internacional Gênero, Sexualidade e Mídia, na Faac/Unesp, ela voltou à Cidade Sem Limites depois de 17 anos. “Deu para ver que bastante coisa mudou na cidade. Gostei de voltar aqui, até porque cada cidade tem seu jeito, seu cheiro. Nesta primeira impressão, após esses anos longe, percebi que Bauru parece estar mais arborizada também”, revela.