09 de julho de 2026
Articulistas

A República, pelo avesso

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 4 min

Longe da “história oficial”, a República não se proclamou “no berro”, nem deu Deodoro um grito parecido ao também suspeito grito do Ipiranga. A República do Brasil não fora proclamada, mas aclamada por uma elite de latifundiários e profissionais liberais. Aqueles, descontentes com a libertação dos escravos; os bacharéis, inspirados pela possibilidade de uma aventura nos trópicos, homóloga a da Revolução Francesa com seu ideário libertador. O povo assistia a tudo sem entender: “O que deu no Deodoro?”.


O comandante das forças imperiais, era imperialista. Além de doente. Com uma “forte dispneia”, o militar que aparece nos livros de história sequer tinha ânimo para montar o cavalo. A situação se precipita por causa de um erro estratégico do governo monárquico, de chamar o gaúcho Silveira Martins para presidir o Conselho Ministerial. Martins era inimigo de Deodoro no Rio Grande do Sul. Dizem que amavam a mesma mulher. Ferido no seu orgulho de macho, o marechal decidiu sair da cama, reuniu forças físicas e foi para o quartel com a finalidade de forçar a destituição do novo Conselho, e não o imperador.


Houve um mal - entendido e os oficiais subalternos aproveitaram para banir a família imperial. Conta a pesquisadora Lilia Schwarcz (As barbas do imperador), que o major Frederico Sólon Sampaio Ribeiro, encarregado de entregar o documento que participava a destituição do Ministério e do próprio imperador, cometeu a “gafe” de chamar duas vezes d. Pedro de Vossa Majestade. No meu imaginário teria sido alguma coisa parecida com: “Lamento comunicar que Vossa Majestade não é mais Vossa Majestade”. Nas antevésperas do 15 de Novembro, a República estava longe de parecer consolidada.


Machado de Assis, em “Esaú e Jacó” conta o caso engraçado do dono da Confeitaria do Império. Seu Custódio mal terminara de encomendar uma nova tabuleta para a sua tradicional Confeitaria do Império, quando soube que a monarquia corria riscos de cair. Pediu, então, ao pintor que interrompesse o trabalho, que a essa altura estava na seguinte situação: “Só algumas das palavras ficaram pintadas, - a palavra Confeitaria e a letra “d”. A letra “o” e a palavra “Império” estavam só debuxadas a giz”.


Contudo, para desespero do sr. Custódio, o trabalho foi concluído. Em vista da necessidade de uma nova placa, Custódio procurou o conselheiro Aires, o qual sugeriu que o nome passasse para Confeitaria da República. Temeram, no entanto, que em poucos meses pudesse haver outra reviravolta e novamente o nome do local tivesse que ser alterado. O conselheiro propôs, então, Confeitaria do Governo, que se prestava a qualquer regime. Mas depois concordaram que qualquer governo tem oposição, e que essa bem poderia quebrar a tabuleta. Aires arriscou que Custódio mantivesse o nome original – Confeitaria do Império – e só acrescentasse “fundada em 1860”, a fim de dirimir quaisquer dúvidas.


O proprietário, porém, achou que o tom o ligaria a tudo o que “é antigo”. O que naquela época de modernidade não soava muito bem. Decidiram, enfim, pôr no estabelecimento o nome do próprio dono: Confeitaria do Custódio. E assim terminava a complexa conversação: “Gastava alguma coisa com a troca de uma palavra por outra. Custódio, em vez de Império, mas as revoluções trazem sempre despesas”.


Uma vez instalado o novo regime, os republicanos correram a apagar tudo aquilo que lembrasse a monarquia. Símbolos nacionais, como a bandeira e o hino, teriam que ser rapidamente modificados. O hino conservou a melodia imperial. Só mudou a letra. A bandeira manteve as cores dos Bragança e Habsburgo, mudando-se, porém, as explicações das mesmas. O verde passou a representar as nossas matas, e o amarelo, o ouro e outras riquezas. Como aprendemos no Grupo Escolar. O distintivo da monarquia foi substituído pela abóbada estrelada, cortada pelo lema positivista de Auguste Comte: Ordem e Progresso. A frase correta começava com Amor. Cortaram o Amor. Uma pena. Durante o movimento dos hippies, de 1960 em diante, teria feito enorme sucesso.  


Depois de 126 anos de aclamada, a sensação que temos é que a República ainda não amadureceu. D. Pedro II, pelo menos, sempre foi um cidadão íntegro. Sequer aceitou a pensão que Rui Barbosa mandou lhe pagar. Morreu pobre, num pequeno hotel, em Paris. Virou mito. Morre o rei, mas não morre a realeza. Getúlio Vargas mandou resgatar os seus restos mortais em 1939, para dar-lhe o solene descanso final no Mausoléu da Catedral de Petrópolis. Jaz o lado de d. Teresa Cristina. Na morte, a vitória da celebração.

    

O autor é jornalista e articulista do JC