09 de julho de 2026
Geral

Entrevista da semana: José Carlos dos Santos

Ana Paula Pessoto
| Tempo de leitura: 7 min

Fotos: João Rosan
José Carlos dos Santos passou a integrar o CVV em 2014; hoje ele é tesoureiro e coordenador dos cursos de admissão e seleção de voluntários
Em 1984, Zé montou a tradicional sorveteria Creola, que ficou com as portas abertas por duas décadas 
José Carlos é casado com Dinéia há 44 anos; na foto, os dois no início do namoro, aos 16 anos de idade

Ele nasceu em Presidente Prudente, viveu em Campinas e São Paulo até chegar a Bauru, um tanto por acaso. Mas foi aqui que o personagem deste domingo (15), José Carlos dos Santos, conhecido como Zé da Creola, conquistou o seu maior patrimônio, como ele mesmo diz: “Meus amigos. Toda porta que eu bato se abre, e isso não tem preço”.

Depois de 20 anos, a sorveteria Creola fechou as portas, mas o comerciante continua a vender, agora no ramo do aquecimento solar, ele garante que o contato com as pessoas é o que o realiza. Há pouco mais de um ano, ele passou a integrar a equipe do Centro de Valorização da Vida (CVV), onde ocupa os cargos de tesoureiro e coordenador dos cursos de admissão e seleção de voluntários.

“As pessoas que procuram o CVV são solitárias, depressivas, angustiadas... com uma carga de sofrimento muito grande. Elas precisam ser ouvidas. Normalmente são pessoas que se fecharam, tentaram se comunicar e não foram compreendidas. E quando você se fecha, vem a solidão, o medo e todos esses fantasmas. Ela precisa esvaziar esse copo. Falar sem receber críticas. Desabafar”, comenta. Leia mais, abaixo.

Jornal da Cidade – Quando você chegou a Bauru?
José Carlos dos Santos – Eu vim para Bauru no fim de 1982 para montar a sorveteria Creola. Eu trabalhava em São Paulo com automação industrial e não conhecia Bauru, mas um amigo de trabalho tinha uma namorada aqui e queria morar na cidade. Compramos a sorveteria do irmão dele em São Paulo. Nesse meio tempo, ele se casou e nós decidimos que montaríamos a sorveteria em Bauru para ele tocar. Eu ficaria em São Paulo, mas foi o contrário.

 

JC –  O que mudou o percurso dos planos de vocês?
José Carlos – Fizemos os trâmites para abrir a sorveteria em Bauru, mas ele foi demitido do emprego em São Paulo e a esposa estava grávida. Então eu pedi demissão da metalúrgica, comprei a parte dele e vim para Bauru, sem conhecer ninguém.

JC – Foi um começo difícil?
José Carlos – A nossa sorveteria foi uma inovação na época. Tivemos dois endereços: rua Bandeirantes e rua 13 de Maio, esquina com a Cussy Júnior, na frente do cinema. Em 1984, praticamente só havia sorvetes nos sabores de creme, nata, chocolate, abacaxi, limão e ameixa. Nas taças: vaca preta, banana split, sundae, milk shake, colegial. Nós chegamos com tudo isso e mais 21 taças confeitadas de maneiras diferentes. Fiz cursos em São Paulo e trouxe um cardápio italiano. Eu produzia o sorvete com muito carinho e cuidado nos ingredientes. Fizemos a campanha publicitária no Jornal da Cidade: “O que é que a Creola tem?”, com desenhos das taças. A sorveteria ficou cheia. Se eu fazia 40/50 taças em um domingo, passei a fazer 200. Eu fiquei com a sorveteria durante 20 anos. Foi minha marca registrada. Até hoje, aonde quer que eu vá, eu sou conhecido como o Zé da Creola. Meus clientes são meus amigos até hoje.

JC – Por que a sorveteria fechou as portas?
José Carlos – Em 1999, eu me aposentei. O sorvete por quilo e os potes de sorvete no supermercado surgiram aos montes e o sorvete artesanal foi desvalorizado. A família inteira trabalhava todos os dias. Não tínhamos tempo para a família, que estava toda em Campinas. Eu me aposentei e cada um de meus filhos foram fazer outras coisas.

JC – Depois da aposentadoria?
José Carlos – Na verdade eu voltei para o comércio, para a representação comercial, que é o que eu gosto de fazer. Gosto de ter contato com as pessoas. Nós temos uma revenda de aquecedor solar na avenida Nossa Senhora de Fátima. Eu me sinto realizado oferecendo produtos de qualidade às pessoas. Minha vida profissional começou cedo. Meu primeiro emprego foi como escriturário e trabalhei com automação industrial em grandes empresas multinacionais. Viajei por todo o Brasil com a automação. Nasci em Presidente Prudente, depois fui para Campinas. De lá, fomos para São Paulo e, em seguida, Bauru.

JC – Um bauruense de coração?
José Carlos - Posso dizer com toda a certeza que sou um bauruense de coração. Aqui, minha dedicação foi exclusiva ao sorvete, por 20 anos, como eu disse. Isso me trouxe muitos amigos. Clientes que se transformaram em amigos e ainda o são. Em Bauru, eu conquistei o meu maior patrimônio: meus amigos. Toda porta que eu bato se abre, e isso não tem preço.  

JC – Como teve início a sua história com o CVV?
José Carlos – Minha história com o voluntariado é antiga. Estou desde 1985 envolvido com o movimento espírita de Bauru e região. Construí e gerenciei a sede da Livraria Espírita e fui um dos idealizadores da Feiramor, já em sua 28.ª edição. Trabalhei com diversas instituições da cidade. No final da década de 1980, um dos fundadores do CVV veio palestrar em Bauru. E isso ficou dentro de mim. Fiquei encantado com a proposta, mas nunca tive oportunidade porque vivia muito ocupado. Fazia palestras espíritas e tudo mais.   

JC – Quando você abraçou a causa de vez?
José Carlos – Em agosto do ano passado, um amigo me procurou para fazer uma palestra e me disseram que o CVV estava precisando de voluntários. O CVV Bauru já teve mais de 40 voluntários, atendimento 24 horas por telefone e também presencial na rodoviária. No ano passado, havia apenas seis voluntários. Estava morto. Fiz o curso de voluntariado e começamos. Passamos por muitas dificuldades, como é sabido, mas tivemos a ajuda de amigos. Um deles nos cedeu a casa onde estamos instalados hoje, na quadra 1 da rua Nobile de Piero. Até o material da reforma nós conseguimos. O querido Davison de Lucas nos presenteou com cópias do seu livro “Simplifique”, o que nos ajudou a pagar a mão de obra. O JC também nos ajudou com a publicação de matérias mostrando nossas necessidades à sociedade. E reconstruímos o CVV. Hoje estamos com 21 voluntários e aumentamos uma faixa de horário. Agora atendemos das 7h às 11h e das 15h às 23h. Em breve teremos outro curso de voluntariado. Há uma lista de espera, inclusive.  

JC – Como funciona o atendimento?
José Carlos – As pessoas que procuram o CVV são solitárias, depressivas, angustiadas...com uma carga de sofrimento muito grande. Elas precisam ser ouvidas. Normalmente são pessoas que se fecharam, tentaram se comunicar e não foram compreendidas. E quando você se fecha, vem a solidão, o medo e todos esses fantasmas. Ela precisa esvaziar esse copo. Falar sem receber críticas. Desabafar. Às vezes, não conseguimos dar uma palavra. Eles falam, falam e falam. E agradecem pela paciência que temos em ouvir. São problemas financeiros, emocionais, existenciais, profissionais, com os filhos, marido, esposa, pai, mãe...Atendemos o retrato da vida. Recebemos cerca de 40 ligações por semana, o que ainda é um número baixo.

JC – Qual é a sensação de atender uma ligação como essa?
José Carlos – Olha, de início dá um frio na barriga, porque você não sabe o que virá. Fazemos um zeramento, ou seja, deixamos tudo para fora e nos conectamos com o trabalho do CVV. O nosso preparo é bastante grande. Temos um trabalho muito importante de apoio emocional. Estamos  fazendo treinamentos para atendimentos via VoIP, Skype e e-mail. Há fila de espera para atendimento por e-mail. Também realizamos palestras sobre a prevenção de suicídios. O CVV teve início em São Paulo há 53 anos com um grupo de jovens espíritas, em meio a um surto de suicídios. Em Bauru, tudo começou há 33 anos.

PERFIL

Nome: José Carlos dos Santos
Idade: 61 anos
Local de nascimento: Presidente Prudente (SP)
Esposa: Dinéia Toninato dos Santos
Filhos: Marcelo, Patrícia, Aline e Cléber 
Livro de cabeceira: “O Profeta”, de  Khalil Gibran
Filme preferido: Gosto de filmes de suspense e espionagem 
Hobby: Tocar violão e ouvir música, além de leitura
Time de futebol: Noroeste
Estilo musical preferido: MPB
Para quem dá 10: Para os que trabalham com voluntariado
Para quem dá 0: Aos que ainda vivem no individualismo 
E-mail: jcreola@ig.com.br e contato@baurusolar.com.br