08 de julho de 2026
Geral

Projeto escolar sobre assédio busca conscientizar e encorajar denúncias

Tisa Moraes
| Tempo de leitura: 4 min

Conscientizar os meninos de que assédio não é brincadeira e estimular as meninas a expor os seus traumas para, assim, fortalecê-las. Com esta meta, o professor Matheus Piai Pimentel, 24 anos, está desenvolvendo um projeto para discutir o tema “assédio sexual” com alunos do oitavo ano da Escola Estadual Ada Cariani Avalone, localizada no Núcleo Mary Dota, em Bauru.

Depois de exibir reportagens sobre o assunto em sala de aula e propor reflexões, ele pediu para que os estudantes, de maneira anônima, escrevessem sobre suas experiências de assédio. Ao todo, cerca de 130 alunos entre 12 e 14 anos de quatro turmas participam do projeto e, para surpresa do docente, mais de 40 já revelaram ter sofrido algum tipo de violência sexual.

“E os alunos ainda estão entregando seus relatos. É bem provável que existam mais”, destaca. Segundo Matheus, a esmagadora maioria das vítimas é do sexo feminino, mas, pelo menos dois alunos também revelaram já ter sido alvo de assédio ou mesmo abuso sexual.

“As histórias são diversas. Teve quem foi ‘cantado’ na rua, quem foi observado por um adulto que se masturbava na rua e quem foi molestado sexualmente por parentes ou pessoas próximas da família. Há casos em que estes adolescentes tinham oito, nove anos de idade. É muito triste”, lamenta, destacando que chegou a conversar individualmente com as vítimas dos casos mais graves. “Um aluno já havia contado para os pais e procurado a polícia, mas o agressor acabou não ficando preso”.

Na semana passada, o professor começou a digitar os depoimentos para impedir a identificação dos alunos por meio da caligrafia e, nas próximas semanas, os textos serão expostos em cartazes a serem afixados nos corredores da escola. O objetivo é propor ampla reflexão sobre o assunto. 

“Quase sempre, o assédio é entendido como algo inofensivo e, justamente por isso, a maioria das vítimas se cala. Também por medo, vergonha e até mesmo culpa, elas jamais irão pedir ajuda. E oferecer a elas esta possibilidade de falar sobre o assunto pode ser um caminho para derrubar alguns tabus e mudar comportamentos, inclusive por parte dos homens (que assediam)”, analisa. 

Campanha

 

O professor decidiu levar o debate para a sala de aula depois que as redes sociais foram movimentadas, no final do mês passado, por uma onda de relatos acompanhados da hashtag “meuprimeiroassedio”. Ao todo, foram mais de 82 mil depoimentos, em sua maioria vindos de mulheres que decidiram compartilhar suas histórias, muitas delas pela primeira vez depois de décadas. 

A mobilização foi provocada pela campanha “primeiro assédio”, lançada pelo coletivo feminista Think Olga em resposta a comentários abusivos que se propagaram também nas redes sociais sobre uma participante de 12 anos do reality show culinário “Masterchef Junior”, da Band. Em 2013, o Think Olga já havia criado a campanha Chega de Fiu Fiu, contra o assédio sexual em espaços públicos. 

Dias depois, o Enem trouxe como tema da redação “A persistência da violência contra a mulher na sociedade brasileira”. “Houve uma conjunção de fatores que me levou a propor este projeto na escola. E o resultado, apesar de triste, foi muito positivo. A partir desta leitura crítica sobre o tema, já recebi a promessa de pelo menos um aluno, que se comprometeu a não assediar mais as meninas depois de entender que isso é algo que as oprime e as agride”, completa o professor.

‘Comoção tem efeito duplamente positivo’

Para a historiadora Lídia Maria Possas, a comoção coletiva iniciada pela ONG Think Olga, que extrapolou os limites das redes sociais e gerou debates em páginas de jornais e revistas, mesas de bar e até em escolas possui um efeito duplamente positivo, também destacado pelo professor Matheus Piai Pimentel: por um lado, o de encorajar as vítimas e fortalecê-las para impedir novos casos de assédio; e, por outro, o de tornar os potenciais agressores mais sensíveis e atentos sobre os impactos que este tipo de violência pode provocar – muitas vezes ao longo de toda uma vida.

“É algo que afeta principalmente as mulheres, de maneira generalizada, de todas as classes sociais, profissões, tipos físicos e idades. E é algo que não dá mais para ser tratado como normal. Não é algo que a mulher escolhe. Não é algo que ocorre somente dentro de casa. A mulher está vulnerável a todo momento, mas, agora, está percebendo que não está sozinha”, observa Lídia, que é professora doutora e coordenadora do grupo de pesquisa “Cultura & Gênero”, da Unesp de Marília.

Ela diz que este encorajamento recente é resultado, sim, de um impulso coletivo, mas também reflexo de um movimento iniciado no século passado, que levou a mulher a serem mais ativas na construção da história em todas as esferas da sociedade. “Elas participam mais das tomadas de decisões, reagem diante da tentativa de retirada de direitos já conquistados e vão às ruas em busca de uma forma mais harmônica de homens e mulheres se relacionarem. O feminismo, com isso, só se fortalece”, completa.