Esta pergunta é a mais frequente entre os agentes econômicos e especialmente entre economistas, provocando, inclusive, sucessivas reuniões com os mais importantes diretores do Banco Central brasileiro. A pergunta, diria mais, a preocupação sobre o tema tem sentido. O mercado projeta inflação na casa dos 10% para este ano e 6,5%, que é o limite da meta de inflação, para 2016. Operar no centro da meta é atingir inflação máxima de 4,5% em 2017.
Como isso será possível? A primeira aposta do Banco Central é que em ambiente recessivo o espaço para aumentos de preços fica reduzido. Assim, o pífio desempenho econômico, que pode atingir redução acima de 3% para este ano, com projeção de queda do PIB de 1% para 2016, pode jogar em favor da queda de preços. Outra variável importante e fundamental é o equacionamento do déficit nas contas públicas. Isso atacaria uma das causas da inflação e permitiria, entre outras coisas, gerar confiança no mercado, canalizar recursos para investimentos e ao mesmo tempo segurar o crescimento da dívida pública brasileira. Do jeito em que as coisas estão indo, não será tarefa fácil. A arrecadação, por exemplo, não para de cair.
O grande desafio de curto prazo é segurar a escalada dos preços. Nada garante, por exemplo, que o preço do combustível seguirá no patamar atual. Ainda há preços administrados que não tiveram totalmente suas recomposições, levando a índices inflacionários mais elevados. O fator exportação também deve ser considerado. Com dólar mais favorável os preços internos passam a seguir a lógica do mercado exterior em detrimento ao comportamento dos consumidores internos.
Devemos lembrar que cerca de 60% dos preços que compõem o IPCA (inflação oficial do governo) seguem de alguma maneira a lógica da indexação, quer porque são reajustados anualmente por força contratuais, quer porque seguem o mecanismo de preços internacionais indexados ao dólar. Inflação alta agora, projeção de inflação alta para o ano que vem.
Estruturalmente falando deveríamos ter um choque de oferta. Com mais vendedores no mercado, os preços não teriam espaço para subirem na dimensão atual. Mas isso se dá no longo prazo, principalmente com recursos para investimentos. Vale lembrar que mais de 60% das empresas não financeiras tiveram margens achatadas e não estão com excedentes para investimentos. A própria Petrobrás deixou de investir no mercado, entre outros importantes players que atuam no segmento de infraestrutura. O fato é que os investimentos no Brasil estão na casa de 18% do PIB quando seriam necessários no mínimo 25%.
Será, sem dúvida, um grande esforço para equipe econômica e a autoridade monetária em especial fazerem com a inflação recue em níveis que seja possível afrouxar a política monetária. Serão ações firmes na direção do que se pretende com a inflação nacional. Sem a redução dos juros, liberação de recursos para consumo e ampliação da oferta, não haverá geração de riquezas, portanto, a economia brasileira continuará se enfraquecendo. Como uma coisa leva a outra, será necessário um bom projeto de recuperação da economia para que as coisas voltem operar na normalidade.
Enquanto isso não ocorre, as empresas vão se afundando na crise e quem está sofrendo mais fortemente as consequências são os trabalhadores que observam sua renda diminuir e os postos de trabalho minguarem. Indicar com ações concretas de como será o combate à escalada de preços pode ser o sinal que o mercado precisa. Por enquanto, aguarda-se, no mínimo, esclarecimento de qual é a estratégia engendrada pelo Banco Central brasileiro. Seria um bom começo.
O autor é economista e articulista do JC