08 de julho de 2026
Bairros

Paisagem movimentada para "distrair a cabeça"

Aline Mendes
| Tempo de leitura: 4 min

Fotos: Quioshi Goto
Dona Clarice é fã da avenida Castelo Branco: 

“Deus me livre sair daqui! Adoro ver o movimento”

Sentada na varanda de sua casa, Clarice Maria Pereira descansava dos afazeres domésticos olhando o intenso ir e vir de veículos na avenida Castelo Branco, região da Vila Independência, como se fosse uma paisagem bucólica.

Moradora do local há 48 anos, de fato, para ela esse é um cenário tranquilo. “Aqui é muito gostoso de morar, Deus me livre sair daqui! Adoro tomar um ar na varanda e ver o movimento, distrai a cabeça”.

E o barulho, que já estava deixando a equipe de reportagem atordoada, não incomoda? “Menina, nem escuto mais!”, diz com um restinho de sotaque mineiro. Ela, que é de Belo Horizonte (MG), passou por Lins e Cafelândia, chegando a Bauru ainda criança. Sua idade e as datas ficam em segredo, para ninguém fazer as contas!

Cheia de vitalidade, só vê vantagens na localização da sua casa. “Tem tudo pertinho, farmácia, padaria... E em 15 minutos estou no Calçadão da Batista”. De circular? “Nada, vou a pé! Andar é vida, faz bem para a saúde”, lembrando que vai às paróquias do Centro da cidade caminhando por gosto, não por penitência!

Sem medo
Acolhedora, dona Clarice fez questão de mostrar o quintal, onde tem várias frutas, flores, plantas medicinais e hortaliças, todas plantadas e colhidas por ela. E as partes da residência, ampliada aos poucos. “Aqui criei três filhas! Elas brincavam na rua e nunca aconteceu nada”.

Quando comprou o terreno com o marido, já falecido, a avenida não tinha tanto movimento, mas um dos vizinhos estava ali, bem pertinho: o cemitério São Benedito. Quase em frente a sua casa, há também um velório.

“Tenho tanta fé que não tenho medo de nada! O negócio é rezar e plantar aqui para colher depois”, ensina com sabedoria.

As mortes que lhe impressionam são outras. “Já vi tanto acidente nessa Castelo Branco... Mas sabe por quê? O pessoal não obedece o trânsito”.

Nem de ladrão dá medo? “Já apareceram uns por aqui. O último caiu no bueiro e a molecada não deixou ele sair. Esse mandei pra delegacia”, recorda orgulhosa. Então a vizinhança é boa? “Não tenho vizinhos dos lados, mas tem o pessoal do comércio, que é muito amigo. À noite, se escuto um barulho fico atenta para ver se tem algo errado nas lojas. A gente tem que se ajudar, não é mesmo?”.


 

Malavolta Jr.
Mesmo com o aumento do trânsito em frente de sua casa, dona Nilza não pensa em se mudar: “A gente se apega à casa e às lembranças”

Avenida dos circulares: ‘Daqui vamos para qualquer lugar’

Em 1966, quando Nilza Capelo Souza se mudou com o marido e o primeiro filho para a quadra 13 da avenida Rodrigues Alves, já moravam por ali alguns familiares.

Na casa, construída pelo seu pai na década de 1940, ela teve depois um casal de gêmeos. Com os filhos das irmãs e de uma cunhada, suas crianças brincavam na calçada. “A gente ficava de olho porque já tinha movimento, só que não era como hoje. Agora, todos descem a avenida como loucos, por isso acontecem os acidentes”, observa. Atualmente, a vizinhança é menor. Só restou uma das irmãs. “A gente conversava no portão e ia andando com as crianças para a praça Rui Barbosa, ver as bandas no coreto. Meus filhos estudaram no Colégio São José e iam caminhando também. Não tinha perigo”, relembra.

Os passeios a pé ficaram no passado. “Depois que o semáforo foi colocado na esquina, ficou fácil sair de carro, mas tem que arrumar estacionamento... Então, eu e o marido usamos muito circular. Daqui vamos para qualquer lugar”.

Dica para ver TV
Com a sala bem na frente da casa, dona Nilza admite que o som da avenida atrapalha sim. “No dia a dia, nem presto atenção no barulho, mas fica difícil ouvir a novela. Quando entra o comercial, aumenta o volume, não dá. Então, colocamos legenda na televisão”, ensina com tanta naturalidade, que faz a equipe de reportagem cair na risada.

Curioso também é que mesmo com a invasão da poeira preta e os ruídos que vêm da avenida, a moradora nunca pensou em se mudar dali. “A gente não acostumaria em outro lugar. Acho que se apega à casa e às lembranças”.

Uma delas é um tanto polêmica. “Ficamos chocados quando a avenida Nações Unidas explodiu. Até hoje achamos que foi sabotagem”, comenta sobre o acidente em 1976 que levou pelos ares parte da via, logo após a passagem do então presidente Ernesto Geisel.

As investigações concluíram que o combustível derramado após o tombamento de um caminhão-tanque e um cigarro aceso causaram a explosão.