Sem enrolar ou inventar histórias. É assim que deve agir quem fica incumbido de informar alguém sobre morte ou qualquer outra perda. Quem dá o conselho é a psicóloga Alessandra de Andrade Lopes, que ministrou uma palestra sobre o assunto, no Hospital Estadual de Bauru (HEB), aos assistentes sociais das unidades da Fundação para o Desenvolvimento Médico e Hospitalar (Famesp).
Embora as palavras de Alessandra tenham contemplado os profissionais da área que têm de dar a notícia de morte aos familiares de pacientes, segundo a psicóloga, o procedimento tomado pelas demais pessoas não foge tanto à regra. “O recomendado é que a pessoa que dê a notícia tenha um vínculo afetivo maior com a que vai recebê-la, se coloque no lugar dela e não traga para si toda a responsabilidade”, aconselha.
Por telefone, nada de inventar que a pessoa não morreu e dar a notícia assim que o receptor chegar ao local, orienta. Em relação a crianças e idosos, muitas vezes poupados desse tipo de comunicação, a psicóloga orienta que eles devem saber, sim, mas com um modo especial de se falar. “Quem der a notícia precisa explicar o que aconteceu e o que vai mudar na vida dessas pessoas, sempre reforçando que tudo foi feito para que o ente querido sobrevivesse, mas não teve como evitar”, argumenta.
Ainda sobre os idosos, Alessandra frisa que eles têm de ter a opção de decidir se querem participar do velório e quanto tempo pretendem permanecer por lá. “O mais importante é abrir um espaço de discussão depois que o pior acontece. Quando você fala sobre o assunto com alguém, passa a entendê-lo e acaba recebendo ajuda. Inclusive, essa é a segunda das quatro tarefas para lidar com o luto”, explica.
Essas tarefas fazem parte de uma disciplina denominada educação para a morte. O tema é abordado pela psicóloga também junto aos alunos do 6.º ano do ensino fundamental à 3.ª série do médio, na Escola Estadual José Aparecido Guedes de Azevedo, há dois anos. “Eles contam as experiências que tiveram e eu os ensino a lidar com o luto”, pontua. As tarefas nada mais são do que aceitar a morte, falar sobre o tema, avaliar os pontos positivos da situação, como a maior proximidade da família, e estabelecer um projeto de vida na ausência do ente querido.
Evento
Mesmo sendo parte da rotina dos assistentes sociais que atuam na área de saúde, comunicar uma morte não é uma tarefa fácil para eles. O cuidado com as famílias é essencial e o luto costuma ser doloroso. Diante disso, a comissão organizadora do 1.º Simpósio de Serviço Social das unidades da Famesp escolheu o tema para conduzir o evento, capacitando os profissionais da área para lidar com todos os trâmites necessários.
Segundo a assessoria do órgão, a iniciativa contou com minicurso, realizado há pouco mais de uma semana, além de palestra e mesa redonda. Rosana da Rocha Pinto Gimenes é supervisora da equipe de serviço social do HEB e participou do evento. Há 12 anos na área, ela guarda para si muitas histórias. Embora a comunicação da morte seja de responsabilidade dos médicos, os assistentes sociais já passaram por situações difíceis. “Quando ligamos para a família e ela quer saber se o paciente morreu, não dá para mentir”, diz.
Rosana esclarece que procura perguntar se a família está ciente de que o paciente está internado ou em estado terminal e depois dá a notícia. Contudo, a maioria quer ouvir dos médicos, uma vez que a morte tem relação com o diagnóstico clínico. Embora não tenha revelado uma situação específica, a supervisora narra que costuma se emocionar quando há morte de crianças.
“Procuro me colocar no lugar das famílias e nunca chorar diante delas, mas em alguns casos, tive de correr para o banheiro”, revela. Todavia, Rosana reforça a importância do serviço social para dar suporte após a comunicação da morte. “Oferecemos providências com funerais e orientações acerca de documentos, mas temos a sensibilidade de compreender o sentimento do outro e fazemos, de fato, um trabalho bastante humanizado”, finaliza.
FALA-POVO
Qual foi a pior notícia que você teve de dar para alguém?
“Tive de dar a notícia de um acidente de trânsito envolvendo um grande amigo, que ficou em estado vegetativo, à família dele. Eu disse ‘na lata’, porque seria pior enrolar”
Rafael Viegas - 27 anos - Assistente administrativo
“Comuniquei ao resto da família que meu pai estava com Esclerose Lateral Amiotrófica (ELA). Não consegui falar ‘na lata’ por conta da minha avó, mas acho que o impacto seria o mesmo”
Amanda Guimarães Lavor - 25 anos - Vendedora
“Meu irmão de 26 anos morreu, em Agudos, após ser espancado e eu tive de contar para os outros irmãos. Dei uma enrolada, porque era uma notícia que ninguém gostaria de ouvir”
Bianca Gracielli S. Ribeiro - 26 anos - Recuperadora de crédito
“Houve um acidente de trânsito com morte e eu noticiei através da rádio onde trabalhava. Uma ouvinte, que era esposa da vítima, ligou para confirmar. Fiquei cauteloso em responder e disse que a primeira informação que havia chegado era aquela”
Nivaldo José - 53 anos - Jornalista
“Estava grávida de oito meses e tive de dar a notícia da morte do pai do meu marido a ele. Eu disse que tinha uma notícia péssima e contei que meu sogro havia caído da escada e tido traumatismo craniano. Fiquei tão nervosa que perdi o bebê”
Yone Aparecida Fernandes Almeida - 47 anos
Professora
“Minha cunhada morreu e tive de contar para o restante da família. Não fiquei enrolando porque é pior. Ela tinha 65 anos, mas já estava doente e não enxergava mais”
Antonio Lima dos Santos - 65 anos
Pedreiro