Estava em Paris, onde todo mundo já foi, na condição do flâneur imaginado pelo poeta Charles Baudelaire: um homem só, perdido pelas ruas inclassificáveis de uma cidade moderna, mas cheia de histórias. No outono de 1987, algumas alunas de um colégio francês apresentaram-se nas aulas com o véu islâmico, e a diretora proibiu-lhes a entrada. Alegou o caráter laico do ensino público na França. Lá, educação não se mistura com símbolos religiosos ou mesmo políticos. Foi o bastante para a eclosão de uma estimulante controvérsia nos meios intelectuais e entre políticos da esquerda e da direita.
Percebi que o véu islâmico era apenas um pretexto nesse debate. O que estava em jogo, na verdade, eram as duas maneiras diferentes de entender direitos humanos e o funcionamento de uma democracia. A partir de uma perspectiva liberal, o respeito aos direitos individuais exige que uma pessoa, criança ou adulto, possa vestir-se como quiser sem que o Estado se imiscua na sua decisão. O outro lado da polêmica defendia que o Estado laico não é inimigo da religião; é um Estado que, para resguardar a liberdade dos cidadãos, desviou a prática religiosa da esfera pública para o âmbito que lhe corresponde, que é da vida privada. Segundo essa corrente, quando a religião e o Estado se confundem, desaparece irremediavelmente a liberdade. Muito mais democrático é que cada igreja aprenda a coexistir com outras igrejas e com outras maneiras de crer, bem como a tolerar os agnósticos e ateus.
Voltei a Paris (todos voltam) cinco anos depois e a discussão prosseguia. Em 2003 o movimento xenófobo e neofascista liderado por Le Pen estava no auge e o assunto havia evoluído do exotismo do véu islâmico para a questão da imigração. Havia três milhões de muçulmanos radicados em território francês, na contagem oficial. Poderia ser o dobro, com os ilegais. A esquerda defendendo que a imigração é absolutamente indispensável para que as economias dos países continuem crescendo. Na Europa, a população, além de diminuir, envelhece. A imigração, em vez de um fantasma, deve ser entendida como uma injeção de energia e força laboral. A direita até concordava – pelo menos até antes do atentado ao Charlie Hebdo. A condição era a de que os imigrantes se adaptassem às instituições francesas da liberdade. Conservadores defendiam que o Estado não pode renunciar a si mesmo para acomodar-se a práticas ou tradições incompatíveis. Nesse processo cultural e político se esconde um dos mais poderosos desafios enfrentados pela democracia. Liberdade, igualdade e fraternidade são coisas boas e lindas, mas custam caro.
O problema dos atentados terroristas em Paris tem outro viés, muito mais perverso. Os jovens muçulmanos identificados na autoria dos massacres da capital francesa não tinham formação religiosa. Sequer frequentavam mesquitas. A maioria ingeria bebidas alcoólicas, sem dar bola para o Corão e trepavam fora do casamento, como qualquer outro de olhos azuis desdente de Astérix ou Obélix, apreciadores de javalis. Eles simplesmente definiram a violência como seu valor, impulsionados por aquele sadismo evocado pelo filme de Stanley Kubrik, A Laranja Mecânica. “São pessoas que se relacionam com a violência, para quem o islão é sinônimo de guerra antissocial”. Eles querem exprimir esse desejo de pôr-pra-quebrar. As conclusões são do professor de estudos políticos Raphael Liogier, que estudou os perfis de dezenas de jihadistas franceses. Eles estão em busca de um neo-romantismo guerreiro, com talentos comunicantes formados na era do Facebook.
A instrumentalização da religião por jovens extremistas em busca de um ideal violento vai muito além do uso da burca nas ruas e escolas de Paris. O Estado Islâmico e o seu califado nos desertos da Síria e do Iraque, podem ser resolvidos com bombas lançadas por caças a jacto e drones programados por computadores. O problema é a revolta dos jovens nos guetos de Paris. Filhos de imigrantes, eles se sentem mal aquinhoados e alijados da cultura niilista. Querem deixar sua assinatura sangrenta, já que não têm o que perder. Os chefes do Estado Islâmico já sabem como canalizar e utilizar esse canal de violência. Tratam de construir uma base ideológica sólida em cima desses garotos nascidos em território francês. Em nome da liberdade eles não podem ser tolhidos no seu ir-e-vir, o que amplia a capacidade deles de fazer estragos na vida flanada dos europeus.
O autor é jornalista e articulista do JC